Um ano depois das denúncias que derrubaram seis diretores e um presidente, os Correios estão conseguindo se livrar da pecha de foco da corrupção que minou a credibilidade do governo Lula. Jânio Pohren, no comando da estatal desde junho do ano passado, assumiu uma máquina de R$ 64 bilhões em ativos com uma missão difícil: limpar qualquer vestígio dos tempos de Mauricio Marinho e aumentar o volume dos negócios. E tem conseguido cumpri-la a contento. No ano passado, o faturamento chegou a R$ 8,6 bilhões, gerando um lucro de R$ 396 milhões ? 26% superior ao de 2004. Na mesma linha, a imagem da empresa nunca foi tão boa entre a população. Uma pesquisa do Vox Populi registrou que os Correios são vistos por 90,2% dos entrevistados como a segunda instituição de maior credibilidade no Brasil, atrás apenas da família. ?Estamos muito melhor do que antes?, analisa Pohren. ?O choque passou e transformamos isso em aprendizado.?

Apesar do otimismo, Pohren está sendo mais cobrado do que nunca. A última carga de bombardeio veio justamente de onde tudo começou: a Rede Postal Noturna. Por falta de mercado, os Correios foram obrigados a manter os contratos de carga com Skymaster e Beta, empresas acusadas pelos parlamentares de estarem envolvidas no esquema de corrupção. Chegou-se a fazer uma consulta entre as principais companhias aéreas do País, como TAM, Gol e VarigLog. Metade alegou que não tinha interesse em entrar no setor cargueiro. A outra metade nem sequer respondeu. Nos bastidores, alegaram que os Correios não pagavam suficientemente bem para a complexidade das operações. A manutenção dos contratos voltou a gerar questionamentos por membros da CPI dos Correios. ?Parece que eles não aprenderam a lição?, apressou-se o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). O problema é que os Correios possuem 18 rotas aéreas que transportam 8,3 bilhões de cargas postais. Se os contratos não fossem mantidos, a população sairia perdendo. Para mudar essa situação, os Correios contrataram, por US$ 2,5 milhões, a consultoria americana Bain & Company para fazer um plano de fomento ao setor. Uma das propostas é que novas empresas sejam criadas, com financiamento para aquisição de aeronaves. Pohren quer colocar esse plano em ação ainda em 2006.

Para agir livremente e eliminar suspeitas, Pohren levou o caso ao Tribunal de Contas da União e à Controladoria Geral. Ambos deram o aval que o presidente dos Correios precisava. ?Ele está fazendo tudo o que precisa ser feito?, elogia o ministro Jorge Hage, da CGU. ?É uma situação complexa que precisa do nosso apoio.? Mais complexa ainda é a análise do material investigado. Das 24 auditorias feitas pelo TCU nos Correios, pelo menos a metade ainda não foi concluída. Isso ajuda a entender por que empresas como a SMP&B, do empresário Marcos Valério, e a Comam, de Arthur Washeck Neto, estão proibidas de participar de licitações com os Correios, enquanto a Skymaster e a Beta ainda operam. Nem todas as brechas foram fechadas, mas Pohren quer pelo menos estancá-las.

R$8,6 bilhões foi o faturamento total dos Correios no ano de 2005