Primeiro foram os altos escalões do partido e agora o setor privado. A campanha anticorrupção de Xi Jinping continua enquanto o presidente chinês tenta consolidar seu poder com um terceiro mandato sem precedentes.

A sessão anual do Congresso Nacional do Povo (parlamento chinês) foi o sinal de partida para a campanha de Xi para assegurar o comando do país mais populoso do mundo por pelo menos mais cinco anos.

“O período que se abre se assemelha a uma campanha eleitoral para o presidente Xi: investigações de corrupção e jogos de poder já começaram”, diz o cientista político Willy Lam, da Universidade Chinesa de Hong Kong.

No final de 2022, Xi Jinping deve receber um terceiro mandato como secretário-geral no 20º Congresso Quinquenal do Partido Comunista da China (PCC). Depois, no início de 2023, iniciará um novo mandato, também de cinco anos, como chefe de Estado.

No congresso de 2017, seu “pensamento” foi incluído nos documentos fundadores do partido.

Meses depois, a Constituição foi alterada para abolir o limite de dois mandatos. Em teoria, Xi Jinping pode presidir a República Popular por toda a vida.

Mas, por trás da aparente unidade do regime comunista, surgem nos bastidores disputas que o presidente procura reprimir para estabelecer seu poder.

– Príncipes vermelhos –

Depois de chegar ao poder no final de 2012, mais de 1,5 milhão de funcionários do partido foram punidos em uma enorme campanha anticorrupção, segundo dados oficiais.

A campanha, vista por muitos como uma estratégia para se livrar da oposição e dos rivais, agora está sendo estendida ao setor privado, embora seja a fonte do milagre econômico do país nos últimos 40 anos.

“As investigações e sanções vão se concentrar na expansão desordenada do capital na raiz da corrupção”, alertou Zhao Leji, diretor dos serviços de inspeção do PCC, no início do ano.

“Vamos cortar o vínculo entre poder e capital”, ameaçou.

Na mira está a casta dos “príncipes vermelhos”, os herdeiros dos fundadores do regime comunista que enriqueceram com a reforma econômica e que detêm participações em inúmeras empresas.

“Os grandes grupos apoiados pelas velhas fileiras do Partido ou os príncipes vermelhos que discordam de Xi são agora o alvo”, diz Willy Lam.

“Alguns o censuram por ter restabelecido um culto à personalidade semelhante ao de Mao e por ter modificado as regras de transferência de poder”, comenta.

– Tecnologia na mira –

Tudo isso acompanhado de medidas de controle de empresas dos setores de tecnologia, imobiliário e financeiro.

O magnata chinês mais famoso, Jack Ma, sofreu depois de criticar publicamente os reguladores financeiros no final de 2020.

Outrora queridinho da mídia, o fundador da gigante do comércio online Alibaba desapareceu quase completamente da esfera pública.

Um exemplo das ligações entre o partido e os negócios, o número um do partido em Hangzhou (leste), sede do Alibaba, foi preso no início deste ano porque uma subsidiária da empresa investiu em empresas pertencentes a seu irmão.

Uma revista de Cambridge apontou que as empresas nas quais um membro do Conselho de Administração estudou com um membro do Escritório Político do PCC (o órgão de 25 membros que dirige a China) recebem em média 16% mais subsídios do que outras empresas.

O regime justifica a intervenção e o controle dos bilionários pela necessidade de reduzir a desigualdade em nome da “prosperidade comum”, um slogan lançado em 2021.

Os 20% mais ricos dos chineses têm uma renda média 10 vezes maior que a dos 20% mais pobres, segundo dados oficiais publicados em 2021.

O controle do setor de tecnologia tem um custo econômico: perdeu US$ 1 trilhão em valor de mercado no ano passado.

“Entre os grupos abastados, muitas pessoas têm passaportes estrangeiros e irão embora se a pressão for muito forte”, prevê Victor Shih, da Universidade da Califórnia, em San Diego.