No início dos anos 90, o empresário Otacílio José Coser reuniu os seis filhos para anunciar que aos 70 anos se afastaria do grupo Coimex, um colosso do comércio exterior com faturamento de R$ 2,4 bilhões. Palavras, apenas palavras. Ao completar o septuagésimo aniversário, ele adiou a aposentadoria para os 75 anos. Outra vez a promessa não foi cumprida. Agora, às vésperas dos 77 anos, o empresário anda avisando que vai parar de trabalhar aos 80. Alguém acredita? Na Coimex, a história já virou motivo de gozação. Sério mesmo, só o fato dele já ter deixado o conglomerado inteiramente preparado para o dia em que finalmente pendurar o terno. Nos últimos anos, Coser fez a partilha de seus bens entre os herdeiros, afastou-se do dia-a-dia dos negócios e se recolheu ao conselho de administração de três das doze empresas da família. Seu sonho, declarado desde o primeiro anúncio de aposentadoria, é morar numa quinta em Portugal acompanhado apenas da mulher. Mas a mudança de endereço também já virou motivo de piada. Ele se exime de responsabilidade pelo constante adiamento nesses planos. ?É que sempre me arranjam um desafio novo e acabo ficando?, desconversa.

Enquanto vai ?ficando?, resolveu quebrar o jejum de entrevistas e recebeu DINHEIRO para falar de seus planos.

Enquanto vai ?ficando?, seu Otacílio ? como é chamado pelos funcionários ? acaba de fechar um megacontrato entre a Coimex Trading, o governo japonês e a gigante nipônica Mitsui. O objetivo é exportar álcool brasileiro para o mercado japonês, um negócio com faturamento potencial de US$ 3 bilhões ao ano.

?Ficando?, o empresário também acompanhará a construção de um porto particular em Santos (SP), orçado em US$ 150 milhões. O Embraport terá infra-estrutura logística erguida numa área de 1 milhão de metros quadrados, com oito pontos para atracamento de navios e instalações para armazéns. O empreendimento entrará em funcionamento ainda este ano.

?Ficando?, seu Otacílio desenhou há um ano uma parceria entre
a Coimex e a Wal-Mart, a maior rede de varejo do mundo, para
vender café brasileiro para consumidores americanos. As embala-
gens do Brazilian Café Rio já podem ser encontradas nas gôndolas
das 2,8 mil lojas da rede americana e em outras 1,5 mil lanchone-
tes nos Estados Unidos.

É um projeto tratado com carinho particular por seu Otacílio. Foi com o café que ele iniciou a construção de seu império empresarial. Nascido em Itaguaçu, interior do Espírito Santo, filho de imigrantes italianos, seu Otacílio precisou ajudar a família desde cedo. Primeiro, trabalhou na roça com o pai. Depois, vendeu galinhas na feira para comprar tecido, pois sua mãe trabalhava como costureira. Aos 16 anos, incentivado por um tio, mudou-se para Vitória e agarrou todas as oportunidades de trabalho que surgiram pela frente. Foi ajudante de balconista, carregador, feirante e até porteiro de pensão. O pouco dinheiro arrecadado nesses bicos era enviado para os pais. Certa tarde, o jovem (e desempregado) Otacílio descansava debaixo de uma árvore no centro da cidade, quando foi abordado por um homem chamado Lauro Laperrieri. ?O que você está fazendo aí??, perguntou. ?Descansando antes de voltar a procurar emprego?, respondeu Otacílio. ?Quer trabalhar como corretor de café??, devolveu Laperrieri.

Filhinho de papai. Ali, nasceu uma amizade e dela, a confiança. Seu Otacílio topou ser avalista de Laperrieri num empréstimo bancário. Só que o patrão morreu e a viúva não sabia o que fazer com a empresa. ?E eu ainda tinha a dívida no meu nome. Não me restou outra saída a não ser assumir a corretora de café?, recorda o empresário.

Eram anos de muita oferta de café no País. Seu Otacílio comprou o máximo que pôde do produto, aproveitou a alta nos preços internacionais e fechou ótimos negócios. Tomou gosto pela coisa e passou a negociar outras commodities, como milho, soja e seus derivados. Graças ao comércio exterior, seu Otacílio ergueu um dos mais importantes grupos empresariais do País. ?Eu ainda consegui criar empresas para todos os meus irmãos e para os filhos que não trabalham comigo?, revela. Paternalista? Não, segundo ele. ?Ajudei quem mereceu. E nenhum dos meus filhos é ?filhinho de papai??, afirma. ?Todos deram duro na vida.? A frase revela um outro traço de seu Otacílio, o estilo centralizador. ?Sou mandão. Adoro mandar. Mas só mando porque também trabalho muito?, diz. Até hoje, sua jornada de trabalho estende-se por 12 a 14 horas diárias. Se necessário, ele troca um bom almoço por um sanduíche na escrivaninha.

Por isso, durante anos, o único hobby de seu Otacílio era a pesca. Nos últimos tempos acrescentou os concertos de ópera e as viagens de lazer à lista de seus passatempos. Mas o assunto preferido continua sendo os negócios, principalmente o acordo com os japoneses. ?Saímos na frente de todo mundo?, comemora. ?Estamos criando um novo mercado para as exportações brasileiras. Vamos fincar nossa bandeira no Japão e vender álcool para carro japonês.? A exportação do produto será feita através da CM Bioenergia International. É uma joint venture criada pela Coimex Trading e a Mitsui Corporation, uma das maiores tradings do mundo, cujo faturamento atinge US$ 95 bilhões ao ano. A partir de 2004 os
carros do país circularão com a mistura de gasolina e álcool brasileiro. Num primeiro momento, em cada litro de combustível, haverá 3% de álcool. ?O governo japonês já tem estudos que apontam a viabilidade de aumentar essa proporção até 10%?, diz Isaac Popoutchi, presidente da Coimex Trading.

Coragem e pé no chão. Foi uma cartada arriscada, mas isso não surpreende quando se trata do grupo comandado por seu Otacílio. ?A Coimex tornou-se uma das tradings mais agressivas do País. Eles topam assumir riscos, criar novos mercados e até quebrar a cara se for o caso, embora se saiba que suas cartadas costumam ser vencedoras?, diz José Augusto de Castro, diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil. Um bom exemplo é a importação de carros na época do governo Collor. ?Todo mundo tinha medo de trazer os automóveis, até porque ninguém sabia direito o que tinha que ser feito?, recorda o empresário. Em 1992, ele importou 62 modelos da Honda para sentir o mercado. Depois, trouxe outros 500 carros. Em 1995, foram 110 mil veículos importados por sua empresa. Nunca
mais parou. ?Com um pouco de empreendedorismo, coragem e pé no chão dá para fazer muita coisa boa na vida?, conta seu Otacílio. ?E não só na área de negócios.?

Seu Otacílio refere-se a uma fundação que leva seu nome. O objetivo da instituição é treinar crianças e prepará-las para se tornarem empreendedoras como ele. Detalhe: todos os executivos do grupo trabalham como professores voluntários. ?Hoje em dia se formam os jovens para serem bons profissionais. Mas e os empresários, quem
vai formá-los??, pergunta. ?Na minha época, era diferente, tudo era mais fácil, não havia tanta concorrência. Qualquer um poderia ter feito o que eu fiz.? Além de mandão, o seu Otacílio parece ser um sujeito modesto.