O desemprego está alto, a economia estagnou e a crise financeira traz incertezas para o futuro do País. Deste ponto de vista, o cenário é ruim, mas um estudo recente revela que, se a situação se acalmar, não é necessário fazer muita força para que o consumo cresça rapidamente e puxe toda a economia para cima. De acordo com os dados da consultoria Partner, especializada em serviços financeiros ao consumidor, o País tem experimentado um crescimento explosivo da concessão de crédito. E, se mantiver o ritmo de crescimento, em 2010 os financiamentos e empréstimos terão participação tão grande na economia brasileira quanto tem nos Estados Unidos ? país conhecido pela importância dos empréstimos para o consumo.

Os números impressionam: enquanto o PIB brasileiro cresce 8% entre 1999 e 2002, os financiamentos, empréstimos pessoais e outras modalidades de crédito ao consumidor aumentam 240%. A título de exercício, a Partner comparou a oferta de crédito ao final de cada ano com o consumo no País. Os resultados mostram um crescimento exponencial. Em 1997, o crédito respondia por 3,7% do consumo do brasileiro. Esse indicador permaneceu praticamente estável até 1999 e saltou para 7,8% em 2000. Em 2001, pulou para 9,8% e deve alcançar 11,7% em 2002. Enquanto isso, o porcentual americano estacionou em torno de 23% há muitos anos.

 

?Com o atual ritmo de crescimento do crédito no Brasil, podemos até ultrapassar os EUA?, diz Boanerges Ramos Freire, diretor da Partner. A explicação para esse fenômeno está no desejo de consumo dos mais pobres. Basta a economia se estabilizar, o desemprego parar de aumentar, e os juros caírem um pouco para que os brasileiros corram às lojas para comprar roupas, eletrodomésticos, carros e outros produtos a prazo. ?Quem tem dinheiro, poupa e paga à vista. Mas a tendência é o crédito chegar com cada vez mais força às classes C, D e E, que são as que precisam de dinheiro?, diz Freire.

É por isso, segundo Freire, que o crédito tem um potencial de crescimento, em termos proporcionais, muito maior do que nos Estados Unidos. Aqui, as lojas oferecem crediários cada vez mais longos, bancos compram financeiras e montadoras de carros criam bancos com o mesmo objetivo: dar empréstimos e ganhar na venda a prazo. O exemplo mais claro é o da rede paulista Casas Bahia, templo do consumo popular, que realiza 90% de suas vendas no crediário. ?O pobre mesmo só compra com financiamento. Sem crédito, ele não existe?, diz Arnaldo Bisoni Júnior, gerente regional da rede varejista Brasimac, onde 70% das vendas são parceladas.