03/11/2014 - 15:23
Vinte e cinco anos após a queda do Muro de Berlim, o poder na Europa se encontra nas mãos da Alemanha e a crise que persiste na zona do euro reforça essa posição, avaliam analistas.
“Vencemos os alemães em duas oportunidades e aqui estão eles de volta”, profetizava a ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher depois da queda do Muro de Berlim em 1989, manifestando o temor de que a reunificação resultasse o predomínio da Alemanha na Europa.
Basta se lembrar de Atenas em 2012, no pior momento da crise da zona do euro, para admitir que esses temores se concretizaram: a chanceler alemã Angela Merkel era satirizada na Grécia com alusões ao nazismo e recebida com manifestações hostis à política de austeridade, considerada por muitos como uma ordem de Berlim.
“Antes da queda do Muro, a Alemanha estava um pouco à margem da Europa. Hoje é o centro da Europa do ponto de vista geográfico, econômico e político”, estima Karel Lannoo, diretor do Centro de Estudos Políticos Europeus de Bruxelas.
“É o núcleo do reator da Europa. Durante a crise financeira, vimos que Berlim era o lugar mais importante da Europa, e não Bruxelas”, aponta Lannoo à AFP.
De fato, a Alemanha reunificada se impôs como o gigante da União Europeia, representando mais de 27% da produção da zona do euro.
E, considerado seu peso econômico, recorreu-se a ela mais do que a qualquer outro membro do bloco na hora de pedir ajuda para os países endividados, na tentativa de evitar o colapso da Europa.
Temendo a oposição de seus eleitores, Merkel se mostrou reticente em um primeiro momento em relação à utilização de recursos alemães para alimentar um fundo destinado a restaurar a confiança na fronteira europeia, o que lhe rendeu o apelido de “Senhora não”.
Mas a chanceler cedeu finalmente e prometeu o apoio da Alemanha a esse mecanismo destinado a proteger aos Estados-membros mais frágeis da UE. Ao mesmo tempo, encabeçou um pequeno grupo de países, em sua maioria da Europa do Norte, que exigiu uma disciplina orçamentária mais restrita e medidas de austeridade impopulares.
“Desde o início da crise na zona do euro e do debate sobre o poder da Alemanha na Europa, as consequências da queda do Muro aparecem com um viés muito diferente do apresentado em seu 20º aniversário”, afirma Hans Kundnani, do Conselho Europeu das Relações Exteriores, com sede em Berlim.
Os analistas estimam que o poder atual da Alemanha se deve a seus recentes sucessos econômicos: há alguns anos, no início dos anos 2000, o país era considerado como o “enfermo” da Europa.
A potência da Alemanha é “provavelmente provisória”, considera Lannoo, indicando seus “problemas econômicos de longo prazo”, especialmente a redução demográfica e a baixa taxa de natalidade.
O especialista argumenta que a debilidade econômica atual da França transformou o binômio franco-alemão, tradicional motor da Europa, agora muito desequilibrado.
Paradoxalmente, enquanto a crise econômica europeia ressaltou o papel da Alemanha, muitos lamentam que Berlim não assuma um papel de liderança no cenário internacional.
Na política externa, a Alemanha é considerada fora da Europa como uma potência dominante. Exemplo disso foi que, desde o início da crise ucraniana, Angela Merkel tem discutido com o presidente russo Vladimir Putin muito mais do que qualquer outro dirigente europeu.
Mas dentro da UE é criticada por suas posições moderadas. Enquanto a França foi um dos primeiros países que contribuíram com aviões à coalizão dirigida pelos Estados Unidos para participar nos bombardeios contra a organização Estado Islâmico, a Alemanha limitou seu aporte ao treinamento militar de combatentes curdos.
“A Alemanha é reticente a desempenhar um papel preponderante no cenário mundial. E isso impede a Europa de fazê-lo”, lamenta Karel Lannoo.