18/06/2003 - 7:00
Aos 58 anos, o empresário Miguel Abuhab tem planos para sua aposentadoria. Ele gostaria de passar os dias pescando após construir nos últimos 25 anos a maior empresa de softwares empresariais do País, a Datasul. Por enquanto, o sonho está arquivado. O empresário está dedicando seu tempo para tentar resolver uma das maiores crises da companhia desde a sua fundação. Abuhab está em guerra aberta com os fundos de investimento americanos WestSphere e ING Barings, que em troca de cerca de 35% injetaram dinheiro no negócio em 1999. Cada sócio quer se livrar do outro. Os fundos gostariam de sair e Abuhab reassumir o controle, mas o acordo ainda está muito longe.
A briga com os sócios investidores começou há um ano e
meio quando Abuhab, amparado pelo caixa da Datasul, decidiu
apostar em outros projetos. Ele abriu duas empresas, a Neogrid e a Medical. A primeira faz softwares que agilizam a relação entre cliente e fornecedor. A segunda é voltada para a área de planos de saúde. O empresário colocou R$ 5 milhões na primeira fase. Os sócios
avaliaram que as duas companhias não tinham futuro e insistiram
para que Abuhab suspendesse os investimentos. A pressão não foi aceita e o fundador da Datasul investiu outros R$ 13 milhões. ?O problema é o estilo pessoal do Abuhab?, diz um dos envolvidos na operação. ?Ele é vaidoso e só faz o que quer.? A partir de então, os representantes dos fundos passaram a usar o direito a veto que possuem no Conselho de Administração da Datasul e tanto a Neogrid quanto a Medical não receberam novos investimentos. Os fundos mandaram há poucas semanas uma notificação judicial avisando sobre as conseqüências das ações do executivo. Uma ação judicial já está pronta para ser encaminhada caso Abuhab insista em continuar apostando nos seus projetos.
Outro problema foi a compra de uma pequena empresa de
tecnologia do banco Opportunity, a Mobile. Pelo contrato, a
Datasul deveria pagar a primeira parcela de R$ 3 milhões vencida em janeiro deste ano, mas o dinheiro não caiu na conta do dono do Opportunity, o baiano Daniel Dantas, e dos sócios minoritários da Mobile. O grupo também ameaça entrar na Justiça para receber
a sua parte no negócio. ?Vamos resolver tudo muito breve?, afirma Abuhab. ?Os meus sócios terão de esperar um pouco mais pelo
retorno do seu investimento.?
A crise é provocada por estilos diferentes de olhar o mesmo mercado. Abuhab é um visionário, empreendedor e gosta de correr riscos. Foi desta forma que ele transformou a Datasul, a partir de Santa Catarina, na líder na área de programas que organizam a rotina administrativa de outras companhias. O faturamento não pára de crescer. Em 2001 foi de R$ 179 milhões, no ano passado chegou a
R$ 192 milhões e em 2003 deve alcançar R$ 260 milhões. Os sócios investidores evitam declarações públicas sobre a crise e são mais pragmáticos. Esses mundos se juntaram logo após a Datasul lançar uma nova versão em 1999 do seu software. A companhia gastou muito dinheiro no desenvolvimento e perdeu fôlego. A entrada do WestSphere e ING Barings profissionalizou a gestão. O comando da operação foi entregue ao executivo Carlos Sá. O fundador Abuhab subiu para o Conselho de Administração, mas nunca se conformou com a perda de poder e manobrou para demitir Sá em 2001. ?Continuamos a ter uma excelente relação?, afirma Sá.
Contrato. Carlos Sá hoje está na Mobile, a companhia vendida pelo Opportunity para a Datasul em janeiro de 2002. Pelo acordo, Abuhab teria de desembolsar um total de R$ 8 milhões pagos em três parcelas. Parte desse dinheiro seria para Carlos Sá como uma indenização pela sua saída da Datasul. Abuhab diz que o real problema do negócio é uma discussão sobre o valor da Mobile. ?Com a saída dos fundos essa questão pode ser resolvida sem um processo judicial?, afirma um executivo que conhece as questões internas da Datasul.
Quem acompanha o caso acredita que o problema pode demorar de seis meses a um ano para ser solucionado. Há visões conflitantes sobre qual seria o valor real da Datasul. Os fundos acreditam em
R$ 150 milhões, que transformaria sua participação em R$ 52 milhões. Abuhab avalia que este valor está inflado. Sua companhia estaria na faixa de R$ 90 milhões. Nesse caso, a parte dos fundos seria de R$ 31 milhões. Outra solução ainda na fase embrionária seria a venda de 100% da Datasul para um grupo de investidores liderados por Carlos Sá. Dessa forma, Abuhab poderia ir para casa com dinheiro no bolso e quem sabe se dedicar à pesca.