O banqueiro Luís Octavio Índio da Costa se prepara para seu teste mais difícil no setor financeiro. Há 11 anos no comando do Banco Cruzeiro do Sul ao lado de seu pai, Luís Felippe, ele vai encarar pela primeira vez a disputa direta com os gigantes do setor. O banco está abrindo, de uma só vez, três novas frentes de atuação: serviços para empresas privadas, cartão de crédito para seus clientes e gestão de recursos para o público de alta renda. Ou seja, vai entrar em territórios dominados pelas grandes marcas financeiras ? um passo ousado e arriscado para uma instituição de médio porte até então focada no crédito para o setor público. Entre as novas atividades, a principal aposta do quadragésimo maior banco do País é a concessão de empréstimos para empregados de empresas privadas, no sistema conhecido como crédito consignado. ?Temos boa experiência nisso?, justifica Costa. O Cruzeiro do Sul é pioneiro na modalidade de empréstimo com desconto em folha de pagamento para o funcionalismo público, o que lhe garantiu uma posição confortável nesse setor, pelo qual poucos se interessaram. Ponto para o banco. Com isso, sua carteira de crédito bateu na casa de R$ 1 bilhão e, nos dois últimos anos, seu patrimônio cresceu ao ritmo anual de 20%, totalizando R$ 150 milhões no primeiro semestre deste ano. Desde então, seu lucro disparou em 180%, acumulando R$ 588 milhões no período.

Os anos de prática no setor público sem dúvida serão úteis, mas não bastam. As diferenças entre as operações são grandes. O índice de inadimplência dos empregados do setor privado, por exemplo, é bem maior do que entre os funcionários públicos, que têm a seu favor a estabilidade no emprego. Fora isso, o banco concorrerá diretamente com nomes de peso, como Bradesco e Itaú, que normalmente oferecem às empresas pacotes financeiros completos, o que inclui pagamento dos salários, seguros e cobranças, além do crédito consignado. ?Para entrar nesse negócio, o Cruzeiro do Sul terá que trabalhar com taxas bem reduzidas, como diferencial?, avalia Erivelto Rodrigues, da consultoria Austin Rating. Juros baixos, porém, podem comprometer a rentabilidade do serviço. Para equilibrar as contas, Costa conta com outra fonte de receita: vai oferecer cartões de crédito da bandeira Visa para os funcionários das empresas. O dinheiro de plástico ficará isento de anuidade, mas os limites e as taxas do crédito rotativo serão calculadas de acordo com a faixa salarial. ?Temos o holerite como garantia?, explica Adolpho Nardy Filho, superintendente executivo do banco.

Os planos de Costa não param por aí. ?Estamos de olho na alta renda?, revela o presidente do banco. Há dois anos, ele criou uma empresa chamada Verax para lançar fundos de recebíveis, com uma carteira composta pelos próprios títulos de crédito da instituição. Para separar o risco, porém, entregou o serviço de custódia e controladoria ao Itaú e ao Deutshe Bank. É com essa estrutura de gestão de recursos e aplicações financeiras exclusivas que o banco planeja cativar uma clientela endi-
nheirada, com patrimônio entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões. Para se aproximar deste público, estão previstos novos escritórios de private no interior de São Paulo e em Brasília. ?O Cruzeiro do Sul tem potencial para crescer?, atesta o consultor Rodrigues. ?O passo rumo à expansão, contudo, não pode ser maior do que a perna.?