Na segunda-feira 29, um comunicado lacônico pôs fim à era Maria Silvia Bastos Marques na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Os motivos da saída de Maria Silvia são confusos. Fontes próxima a Benjamin Steinbruch, acionista do grupo Vicunha, o controlador da CSN, dizem que as relações com Maria Silvia vinham se deteriorando desde o fim de 2001. Boatos do mercado financeiro deixam entender que a ex-presidente cometeu erros na condução da política financeira.

Até outubro do ano passado, Maria Silvia e Steinbruch mantinham relações cordiais, diz um executivo que se reuniu com os dois no Rio. Mas as coisas mudaram. Chegaram aos ouvidos de Steinbruch informações de que a executiva não aceitaria mais interferências na administração da CSN. Steinbruch estaria forçando a mão para que Maria Silvia aumentasse a distribuição de dividendos aos sócios.

Entre os erros de Maria Silvia, apontados por analistas, está a operação de proteção cambial (hedge) no fim do ano passado. Com uma dívida de R$ 4,9 bilhões, grande parte em dólar, a CSN demorou para adotar um mecanismo de proteção contra a flutuação cambial. A demora custou caro. Entre setembro e dezembro de 2001, a empresa registrou prejuízo de R$ 130,8 milhões. No ano, o lucro foi de R$ 296 milhões, contra R$ 1,6 bilhão de 2000.

Afinal, Maria Silvia perdeu o encanto? Não, dizem executivos do mercado financeiro. Ela apenas perdeu espaço no novo cenário do setor siderúrgico, no qual a CSN precisa costurar um acordo operacional com um grupo estrangeiro. Cansado de perder, Steinbruch decidiu assumir pessoalmente o comando da CSN e decretou o fim da era da mulher de R$ 1 bilhão ? título que Maria Silvia recebeu quando foi secretária de Finanças do Rio e salvou as contas da cidade. Na terça-feira, Steinbruch foi eleito presidente da CSN. Em entrevista à DINHEIRO, Maria Silvia rebate as críticas.

DINHEIRO ? Por que a sra. saiu da CSN?
MARIA SILVIA ? Há seis meses eu avisei que queria sair. Marquei a data por conta da reunião do conselho de administração (realizada na terça-feira 30). Estou cansada, quero descansar.

DINHEIRO ? Seus críticos dizem que a sra. foi demitida por causa de erros na área financeira.
MARIA SILVIA ? Isso não é verdade. Sobre a operação de hedge, a decisão foi do conselho. Esse tipo de operação não é atividade exclusiva da presidente. Foi uma decisão do acionista. Erramos? Pode até ser. Assumo a minha parcela de responsabilidade.

DINHEIRO ? A sra. brigou com Benjamin Steinbruch porque ele queria receber mais dividendos?
MARIA SILVIA ? A política de dividendos está no estatuto. O presidente não pode pôr a companhia em perigo. Em 2001 fizemos uma distribuição extraordinária por conta da venda das ações da Light e da Vale.

DINHEIRO ? Comenta-se que Benjamin Steinbruch
reprovou seu namoro com David Zylbersztajn e que isso precipitou sua saída.

MARIA SILVIA ? Não. Isso nunca aconteceu. Quem fala esse tipo de coisa vai ter que responder na Justiça.

DINHEIRO ? A sra. vai se candidatar a algum cargo
nestas eleições?
MARIA SILVIA ? Pelo amor de Deus. Escreva aí que não
sou candidata.

DINHEIRO ? A sra. disse que não aceitava dividir espaço com o Benjamin Steinbruch?
MARIA SILVIA ? Essa é outra inverdade. Eu nunca disse isso. Sei bem quais são os limites da área executiva e do conselho. Na minha área ele nunca interferiu e eu não aceitaria esse tipo de coisa. Com eu nunca interferi nas atribuições do conselho de administração.

DINHEIRO ? Há quem diga que nos últimos meses a sra. tornou-se uma estrela maior do Benjamim Steinbruch.
MARIA SILVIA ? Quem me conhece sabe que eu não gosto de aparecer. Como assumi a presidência do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), tive que me expor para defender o setor. Não gosto da idéia de ter minha vida exposta.

DINHEIRO ? Quais os seus planos?
MARIA SILVIA ? Vou ficar dois meses de férias. Quero curtir
meus filhos. Não vou ser candidata. Não quero cargos públicos.
Espero que alguém me ofereça um bom emprego. Vou ficar em
casa esperando (risos).