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O PASSADO E O FUTURO: Lula em visita a Fidel e em recepção oficial com Raúl Castro

O velho comandante estava cansado. Sua camarilha, protetora fiel e incansável, não queria expô-lo mais uma vez a sessões de fotos e exibição pública como as que ocorreram há três meses, com o venezuelano Hugo Chávez. Mas Fidel Castro fez valer sua velha amizade com o presidente Lula e bateu o pé. O que se viu depois foram exatamente as fotos que um tirou do outro, talvez como recordação do último encontro de ambos como presidentes. Retratos em branco-e-preto de um tempo que está ficando para trás. Na conversa entre os dois líderes, Lula não se furtou de indagar ao símbolo máximo da Revolução Cubana: ?Comandante, o que acontecerá com a ilha??. Fidel parou, deu um sorriso espaçado e soltou: ?Não temos mais volta?. O retrato do encontro da terça- feira 8, descrito por um diplomata, é enigmático tanto quanto revelador. Cuba embarcou no caminho do capitalismo. Mas não o que combateu em Sierra Maestra. Há tempos, Fidel Castro mostra uma tendência a se curvar aos cânticos do dinheiro fácil. E foi seu irmão Raúl quem apontou a direção: o modelo chinês. ?É o modelo perfeito?, avalia Guillermo Beatón, da Universidade de Havana. ?O Partido Comunista responde pela política e o capital, pela economia.? Foi de olho nesse espelho asiático que Lula desembarcou em Havana, com um séquito de quatro ministros, além do presidente da Petrobras. No colete, contratos que poderiam resultar em investimentos de US$ 1 bilhão. A velha burocracia, no entanto, fez o resultado minguar.

A Odebrecht e a Andrade Gutierrez foram as mais prejudicadas. Seduzidas pelo projeto cubano de revitalizar sua infra-estrutura ? principalmente a malha viária ? as duas empreiteiras tentam há alguns anos entrar na ilha. Lula chegou com a promessa de desembolsar uma linha de crédito de US$ 600 milhões, mas esbarrou na falta de entendimento com os burocratas cubanos. O raciocínio é o seguinte: desde antes da queda da União Soviética, Cuba sofreu uma pequena abertura ao capital estrangeiro, principalmente no turismo. Foi isso que favoreceu a entrada de redes hoteleiras espanholas na ilha. Porém, há limites. Uma empresa estrangeira só entra no país se for associada a outra cubana. É quase como na China. O caso do grupo Meliá é exemplar. Os hotéis da rede em Havana tiveram os terrenos cedidos e os prédios construídos pelo governo cubano. Os espanhóis entraram com a tecnologia e a operação comercial. Com a Souza Cruz foi a mesma coisa. Suas atividades são divididas pela metade com a estatal Cuba Tabaco. ?O Brasil precisa entender que Cuba tem um modelo de negócios a seguir?, esclarece Bernardo Pericaz, embaixador do Brasil na ilha. ?Se conseguir se adaptar, o que não faltarão são nichos de mercado.? É exatamente a presença européia aliada à ausência dos norte-americanos, causada pelo embargo de Washington, que pode trazer benefícios diretos ao Brasil. Poucos países latino-americanos têm condições econômicas e técnicas tão favoráveis quanto as do Brasil para se associar a uma transformação desse tipo. Por muitos fatores, a começar por sua localização, Cuba tem tudo para se transformar num poderoso pólo de atração de investimentos, a partir de uma política de abertura gradual. A disputa por esse mercado será intensa e envolverá interessados de todo o mundo. Sendo assim, levará vantagem quem já estiver colaborando com a modernização do país, que carece de investimentos estimados em US$ 10 bilhões em infra- estrutura e setores como alimentos e mineração.

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Turismo e açúcar ainda movem a economia cubana prestes a se abrir ao capital privado

É ai onde entra a única empresa brasileira a conseguir algo mais palpável na viagem de Lula. A Petrobras assinou com a Companhia Cubana de Petróleo um acordo de pesquisa conjunta para exploração e extração de óleo no Golfo do México. Valores não foram anunciados, mesmo porque se trata se estudos técnicos. Mas, a contragosto de Hugo Chávez e da PDVSA, que financiam a economia cubana com petrodólares em troca de serviços, a Petrobras conseguiu arrancar do governo cubano a instalação de uma fábrica de lubrificantes no país. A presença da estatal em Cuba sempre foi pedida pela área que controla o setor petrolífero, mas esbarrava na condição brasileira de instalar a tal fábrica, que pode atender não só ao mercado do Caribe, como também, no futuro, entrar nos Estados Unidos. Cuba também saiu ganhando. Analistas do setor avaliam que a parte cubana do Golfo do México pode esconder uma jazida que, guardadas as devidas proporções, seria o Tupi de Cuba, levando auto-suficiência ao país que já produz 60% do que consome. ?Nossa perspectiva de crescimento é orgânica?, explica José Sérgio Gabrielli, da Petrobras. ?Fazemos a exploração, assumimos o risco e ganhamos com o risco exploratório.? Para não dizer que se encerrou por ai, Lula também anunciou a criação de uma linha de crédito de US$ 100 milhões renováveis por outros US$ 100 milhões para o setor de alimentos, um dos setores em que podemos nos sair melhor. Se os cubanos forem pelo mesmo caminho que os chineses, o Brasil pode poupar sola de sapato e se dar bem no quintal de sua casa.