26/03/2008 - 7:00
Se o Brasil possui um mecenas, seu nome é PETROBRAS. Só este ano a estatal patrocinará mais de 40 festivais de cinema, 30 de artes cênicas, além de mais uma edição do Programa Petrobras Cultural. Em 2007, a empresa investiu R$ 205 milhões neste campo. Desse montante, apenas R$ 152 milhões obtiveram o benefício da Lei Rouanet, na qual as empresas podem descontar até 4% do seu lucro líquido no Imposto de Renda. “Não nos prendemos ao incentivo fiscal, pois acreditamos que podemos fazer mais. Mas é importante ressaltar que não somos os únicos patrocinadores no Brasil”, afirma Eliane Costa, gerente de patrocínios da Petrobras. Para este ano, os valores ainda não foram definidos. “Vamos reajustando a verba, de acordo com os resultados trimestrais da companhia”, diz ela. Por causa da grande procura, a Petrobras faz uma seleção pública com aval de um conselho composto por sociedade civil e instituições de renome, a fim de dar mais transparência ao processo de escolha. A seleção faz parte da etapa do Programa Petrobras Cultural, que acontece anualmente. Hoje, são 750 projetos sob a batuta da estatal. A Petrobras também alia sua marca a projetos de visibilidade, que se baseiam nos mesmos valores da empresa. É o caso do Grupo Corpo. Criado em 1975, como dança contemporânea, ele tem na base de sua filosofia estabelecer uma identidade vinculada à idéia de cultura nacional. “E nada mais nacional do que a Petrobras, certo? Dessa forma, conseguimos aliar um ótimo projeto à imagem da estatal”, finaliza Eliane.
Recentes pesquisas publicadas pela Secretaria Nacional da Juventude e pelo IBGE revelam dados impressionantes sobre os hábitos culturais dos brasileiros. Observe: 39% dos jovens nunca foram ao cinema e 62% jamais entraram num teatro. Além disso, apenas 9% das cidades têm cinema. Por isso, o Instituto VOTORANTIM está investindo, neste ano, R$ 25 milhões em 50 projetos voltados para a democratização da cultura, com foco nos jovens entre 15 e 24 anos. A verba representa quase metade dos R$ 60 milhões destinados à área social, que contempla 150 projetos voltados à educação, trabalho, cultura e proteção a crianças e adolescentes. E por que tanta preocupação com a cultura? “Hoje, existe um descompasso no Brasil. Há muita produção cultural, mas a população tem acesso restrito”, afirma a diretora do instituto, Célia Picón. Tanto que o Guia Brasileiro do Festival de Cinema aponta, por exemplo, que, entre julho de 2004 e março de 2006, foram feitos 350 filmes no Brasil, mas apenas 34% foram lançados no mercado.
“As salas de projeção estão concentradas nas regiões mais ricas do País”, ressalta Lárcio Benedetti, gerente de desenvolvimento sociocultural do instituto. Por isso, pelo segundo ano consecutivo, a instituição patrocina o Festival de Cinema de Guararema, uma cidadezinha de cerca de 25 mil habitantes, a 75 km de São Paulo, que acontece em plena praça pública. E este é só um projeto. “Vamos além do patrocínio. Queremos que o jovem tenha acesso às atividades culturais em diversas áreas nas mais remotas regiões do País”, enfatiza Célia.
Em um dia de inverno, em julho de 2007, o grupo de dança Fernanda Bianchini foi surpreendido pela visita do bailarino russo Mikhail Baryshnikov, quando ele esteve em São Paulo. No fim do encontro, elas pediram para tocar os pés da “lenda” da dança. Emocionado, ele deixou. Era a única forma que essas meninas podiam identificar o ídolo delas – afinal, o grupo é formado apenas por bailarinas cegas. O encontro faz parte da principal linha de atuação da VIVO e do Instituto Vivo: atenção aos deficientes, principalmente os visuais. Segundo o IBGE, existem no Brasil 1,2 milhão de pessoas cegas e cinco milhões com muita dificuldade de enxergar. Por isso, o instituto tem dedicado mais da metade de sua verba – que no ano passado foi de R$ 4 milhões – para apoiar a causa em várias frentes. Por exemplo: no 35º Festival de Cinema de Gramado, no qual a Vivo investiu cerca de R$ 1 milhão, o filme “Saneamento Básico”, de Jorge Furtado, recebeu audiodescrição de voluntários da Vivo. Para os deficiêntes auditivos, o filme foi apresentado com legendas. A iniciativa estende-se aos espetáculos teatrais que ocorrem no Teatro Vivo, o que o transforma na primeira casa de espetáculo do País a oferecer esse tipo de recurso. Na sede do instituto, em São Paulo, um centro de produção em braille transcreve qualquer tipo de texto solicitado. No Rio de Janeiro, os voluntários gravam em áudio livros para aqueles que não conseguem ler em braille. “Temos mais de 20 parceiros nessa área e queremos direcionar as nossas ações para este público, que é tão carente de cultura no País”, afirma Marcelo Alonso, diretor de comunicação e relações institucionais.
Há 55 anos, a, VOLKSWAGEN incentiva a leitura entre seus funcionários. Muito antes da Fundação Volkswagen, criada em 1979, a empresa já se preocupava em alfabetizar seus funcionários. Com a criação, em 2002, do projeto Entre na Roda, não só os funcionários, mas escolas, quilombos, presídios e hospitais em comunidades carentes – além de entidades das cinco cidades em que a Volks possui fábricas – puderam ter acesso às histórias de Monteiro Lobato, Lígia Fagundes Telles, Machado de Assis e outros nomes de peso da literatura nacional. No total, são 200 títulos, que chegam nesses locais dentro de um baú fechado, com o selo da fundação. Até hoje, 930 escolas já foram beneficiadas em 139 municípios. Desde o início do projeto, cerca de dois mil voluntários foram treinados pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação) para atuar como “contadores de estórias”. Assim, é possível multiplicar a oportunidade de leitura para 90 mil pessoas das mais diversas idades.
A Fundação não revela o valor investido nesse projeto nem em outros que ela patrocina. “Estamos preocupados com qualidade e diversidade. Por isso, os valores são consideráveis e proporcionais ao padrão da empresa”, afirma a conselheira da fundação Júnia Nogueira de Sá. Neste ano, na Bienal Internacional do Livro, que vai ocorrer entre 14 e 24 de agosto, a Fundação estará lá com um estande para incentivar a leitura entre os visitantes.