David Barioni, presidente da TAM, é um fanático. Não por futebol, como muitos brasileiros. Ou pelo trabalho, a exemplo de executivos workaholics. A paixão desse paulistano de 50 anos, administrador de empresas por formação, piloto por opção, o deixa literalmente nas nuvens. Nada o entusiasma tanto quanto a aviação. ?Não conte para os acionistas da TAM, mas eu nunca trabalhei na vida. Eu venho para a empresa todos os dias para fazer o que mais gosto. Isto, para mim, é diversão?, brinca ele, ao se referir ao dia-a-dia no escritório da TAM, um acanhado prédio de oito andares colado ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Barioni ocupa o posto de comando da maior companhia aérea do País há exatamente um ano. E nesse período o envolvimento emocional com a aviação foi fundamental para liderar a empresa num dos momentos mais delicados de sua história. Menos de seis meses antes, o vôo 3054 da TAM caiu, matando 199 pessoas, no maior acidente aéreo já registrado no País. A imagem da companhia continuava marcada pela tragédia. A concorrência, que atendia principalmente pelo nome GOL, ganhava participação de mercado e ameaçava a liderança da TAM. De lá para cá, a situação mudou. A fatia nos vôos domésticos subiu de 48,6% em janeiro para 51,8% em outubro deste ano. Em vôos internacionais, o salto foi mais significativo, de 67% para 83,8%. Essa evolução garantiu a Barioni o título de Empreendedor do Ano na categoria Transportes.

Barioni também liderou um processo de redução nos custos da companhia. Nos nove primeiros meses deste ano, as despesas com comercialização de passagens caíram 0,5%, embora a receita bruta tenha disparado de R$ 6,2 bilhões para R$ 7,9 bilhões no mesmo período. Ou seja, vendeu-se mais e gastou-se menos ? equação que soa como música aos ouvidos de qualquer empresário. O custo com manutenção encontra-se 3,3% menor, graças à aposentadoria dos Fokker 100 e à devolução de um MD 11, modelos mais antigos e, por isso, mais dispendiosos. O mesmo ocorreu com os gastos com arrendamento de aviões, que ficaram 3,3% inferiores ao terceiro trimestre de 2007. O grande vilão no balanço da empresa foram os combustíveis. Com a disparada do preço do petróleo, esse item deu um salto de 68,2%, provocando um prejuízo de R$ 112 milhões no terceiro trimestre. O bom desempenho no primeiro semestre de 2008 amenizou as perdas. No acumulado do ano, o vermelho caiu para R$ 59,9 milhões. Nem mesmo o resultado negativo nem a crise mundial conseguiram mandar para a gaveta o plano de investimento de US$ 6,9 bilhões previstos até 2018 para a aquisição de aeronaves e inauguração de novas rotas. ?O momento atual requer cuidados, mas precisamos estar preparados para a retomada?, afirma Barioni.

Com larga experiência na aviação civil, Barioni conhece de perto o sobe-e-desce que marca a trajetória do setor. Durante mais de 20 anos, trabalhou na Vasp, onde começou como piloto e chegou a diretor de operações. Viveu de perto o apogeu e a decadência da companhia. Estava lá quando, em 2000, foi convidado a integrar um grupo de ex-executivos da Vasp que desenhava a estrutura e a operação de uma companhia aérea de baixo custo. Era a Gol. Em meados do ano passado, já como vice-presidente técnico, recebeu o telefonema de um headhunter. A TAM procurava um nome para ocupar a cadeira de presidente em substituição a Marco Antonio Bologna, que deixaria a posição em novembro. A conversa definitiva ocorreu com dois dos principais acionistas, Maurício e Maria Cláudia, filhos do lendário Rolim Amaro, o fundador da companhia. ?A empatia foi total. Ao final da conversa, qualquer ponto de dúvida havia desaparecido. Saí de lá perguntando: quando começo??, conta ele.

Ao chegar, Barioni imprimiu um estilo diferente de seu antecessor. Bologna tem um perfil financeiro fortemente voltado para processos e estratégia. Sob seu comando, a TAM foi ao mercado de capitais. Barioni conhece a fundo a operação ? e nisso aproxima-se do estilo do comandante Rolim. A cada mês, embarca em um Boeing 777 e o conduz, na condição de comandante, a Frankfurt ou Santiago do Chile. Nessas ocasiões, ele aproveita para conversar com passageiros, tripulantes, pessoal de terra. Dessas conversas, extrai soluções simples para problemas complexos. Por exemplo: ele percebeu que se um dos vôos para Santiago chegasse 15 minutos antes, tornaria viável um número maior de conexões. Além desses vôos, Barioni reserva períodos para promover encontros com pequenos grupos de funcionários em cafés da manhã ou churrascadas e trocar idéias com eles. Sua jornada começa praticamente de madrugada. Às seis da manhã já se encontra em sua sala na TAM (ele não exige que os diretores façam o mesmo). Nesses momentos, em que o telefone não toca e seus subordinados ainda não chegaram, ele se dedica ao planejamento de suas atividades e responde os e-mails acumulados. ?Sou comandante?, diz ele. ?Sigo o plano de vôo religiosamente. Nesta atividade, é fácil passar o tempo apagando incêndios. Por isso, é necessário ser rigoroso no cumprimento da agenda.?

Barioni não sai antes das oito da noite e vive integralmente voltado para a aviação. Assim, nos fins de semana, adivinhe o que ele faz? Mergulha na aviação. No sábado, entra num monomotor e pratica acrobacias. No domingo, acredite, mais avião. Desta vez, com um planador. Mesmo nesses momentos, Barioni não deixa de trabalhar (ou será que ele não deixa de voar enquanto trabalha?). Os dois mundos se confundem para ele. ?Há uma forte analogia entre voar de planador e dirigir uma companhia?, garante ele, que é capaz de discorrer sobre o tema durante horas. ?Não há como decolar com um planador sem equipe. Para tirá-lo do hangar, preciso de gente para me ajudar, assim como para vestir o pára-quedas e colocar o cinto de segurança.? Para levantar vôo, só com um pequeno avião puxando. O plano de vôo também se assemelha ao planejamento de um negócio. ?Cerca de 85% das informações sobre clima, velocidade dos ventos, entre outras, se confirmam. Mas 15%, não. Então, as decisões têm que ser tomadas na hora e com pequena margem de erro?, afirma. ?O mesmo acontece no mundo corporativo.? Por isso, Barioni levanta todos os dias não para trabalhar, mas, sim, para cultivar uma paixão.