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DEPOIS DE DÉCADAS defendendo o liberalismo econômico, os economistas, empresários e líderes políticos que todos os anos se reúnem na estação de esqui de Davos, na Suíça, desta vez mudaram o discurso. Com a crise financeira global e a recém-divulgada previsão do Fundo Monetário Internacional de um crescimento mundial de apenas 0,5%, o menor em 60 anos, eles defenderam um papel maior do Estado na solução da crise financeira mundial. Já na abertura, o organizador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, fez um mea-culpa. ?Todos são, de alguma forma, responsáveis por não reconhecer os riscos de um mundo totalmente desequilibrado. Deveríamos ter prestado mais atenção naquelas pessoas que conseguiram prever os sinais e naquelas pessoas que falaram desses riscos aqui nesta sala?, afirmou.

A falha dos representantes de governo, bancos, empresários e analistas em prever a crise nos anos anteriores fez com que muitos tachassem o encontro de míope e irrelevante, mas Schwab pediu aos participantes que se concentrassem na busca de soluções. Enquanto vários executivos de bancos americanos preferiram não aparecer em Davos, para não dar a impressão de que estavam passeando em plena crise, líderes políticos engajados na chamada ?reconstrução da nova ordem financeira? fizeram do local o fórum de discussões sobre o futuro da economia mundial. Entre eles, o primeiro- ministro britânico Gordon Brown ? que agora preside o G-20, o chinês Wen Jiabao, o russo Vladimir Putin, a alemã Angela Merkel e o japonês Taro Aso. Surpreendentemente, o presidente americano Barack Obama não mandou ninguém da estrelada equipe econômica, mas uma assessora da Casa Branca, Valerie Jarret. Do Brasil, foram o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. O presidente Lula abriu mão de participar da discussão com os grandes em Davos para se reunir em Belém no Fórum Social com seus vizinhos. Segundo um assessor,o presidente achou desnecessário viajar à Suíça, já que participará do encontro do G 20 em abril. Obama e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, dedicaram-se à aprovação do pacote de estímulo da economia na Câmara ? aprovado na quarta-feira 28, num valor de US$ 819 bilhões.

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Em meio a previsões que variam de pessimistas a catastróficas, a necessidade de uma intervenção maior do governo é praticamente consenso um consenso inimaginável até o agravamento da crise, em setembro do ano passado. Tanto que um artigo do presidente Lula intitulado ?Agora é a hora da política?, defendendo o aumento do papel dos governos e publicado na revista Newsweek do fim de dezembro, foi incluído na edição especial da revista para o encontro. Todos concordam que o governo precisa salvar empresas e bancos para garantir a sobrevivência do sistema. O que varia é o grau de intervenção defendido.

O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, alertou para o perigo da excessiva intervenção na economia, lembrando o fracasso da economia centralizada da União Soviética, e criticou a hegemonia do dólar nas reservas dos emergentes. O megainvestidor George Soros, habitué de Davos, defendeu a ação dos governos, mas disse que é preciso que eles saiam das empresas tão logo a situação melhore. Ele também defendeu um grande esquema de ajuda ao sistema bancário dos países emergentes, com recursos de até US$ 1 trilhão. Nos Estados Unidos, os dois maiores bancos, Citibank e Bank of America, já têm respectivamente 6% e 8% das ações nas mãos do governo. O ex-presidente Bill Clinton diz que a crise mostra a interdependência global, como entre os Estados Unidos e a China, tanto em termos de investimentos financeiros como de comércio e disse que é preciso cuidado para evitar protecionismo. ?Não podemos fugir um do outro. Divórcio não é uma opção?, afirmou Clinton. O primeiroministro Wen Jiabao traçou um retrato otimista do país, com dados de recuperação dos empréstimos bancários, preços industriais e consumo. Disse que o estoque nos portos chineses caiu em dezembro, um sinal de que o país pode voltar a importar, mas lamentou a falta de mercado para os produtos chineses no exterior. Wen disse que o país deve atingir a meta de crescer 8% este ano e, num recado aos Estados Unidos, culpou ?as políticas macroeconômicas inapropriadas de algumas economias e seu modelo de desenvolvimento insustentável? como uma das causas da crise.

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Mas, enquanto governantes e economistas discutiam a conveniência da interferência estatal, a economia real continuava a apresentar números negativos, especialmente nos EUA. Somente nos primeiros dias da semana, grandes empresas anunciaram mais de 70 mil demissões. A Organização Internacional do Trabalho diz que a crise poderá resultar na perda de 51 milhões de empregos em todo o mundo, elevando de 6% para 7,1% a taxa mundial de desemprego. E uma exigência de que empresas americanas comprem produtos nacionais como condição para receber recursos públicos causou grande polêmica e acusações de protecionismo. Entre os empresários, o clima era de pessimismo. Uma pesquisa com CEOs mostra que apenas 21% deles acreditam que a receita da empresa vai crescer este ano. Em 2008, metade dos entrevistados esperava crescimento. No Brasil, o otimismo é maior, e 33% acreditam em aumento de receita.

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Neste cenário, a situação do Brasil está entre as mais otimistas. A nova previsão do FMI para a economia brasileira é de um crescimento de 1,8% neste ano e 3,5% em 2010. Já o Instituto de Finanças Internacionais prevê uma expansão de apenas 0,8%. O economista Nouriel Roubini, que ganhou credibilidade por ter previsto a crise atual dois anos antes, fez uma previsão vaga em termos de números, mas precisa na análise. Disse que o Brasil pode crescer perto de zero, 1% ou até negativo. Mas disse que, para um país com as características sociais do Brasil, ?qualquer coisa abaixo de 3% é um pouso forçado?.