24/01/2026 - 7:00
Ao subir no púlpito do centro de conferências do Fórum Econômico Mundial nesta semana, em Davos, o suíço André Hoffmann, um dos principais executivos à frente da holding que detém o laboratório Roche, foi contundente. “Podemos dizer, com convicção, que nunca tivemos um ambiente geopolítico tão complexo desde 1945”, disse. A frase evidencia um clima que deve ocupar as salas de boa parte dos boards multinacionais da atualidade.
Se as narrativas de grandes figuras do mundo político podem, muitas vezes, ser discurso de efeito que não alcança de fato a economia real, em tempos de ‘Era Trump’, contudo, esses caminhos têm se cruzado rapidamente. É inegável que os próximos meses trarão desafios estruturais palpáveis para o mundo dos negócios, afetado pelo estilo truculento do presidente norte-americano, Donald Trump. Ao longo de 2025, tarifas em riste desde o ‘Dia da Libertação’ (em 1 de abril) – algumas posteriormente retiradas ou modificadas –, Trump moveu seus interesses junto a mais de 50 países num vai e vem célere e atordoante, conforme sua maneira de conduzir os próprios negócios. O efeito foi sentido.
Para 43% de 800 executivos espalhados pelo globo, consultados em uma pesquisa encomendada à McKinsey pela equipe do Fórum Econômico Mundial, as condições gerais para fazer negócios mundo afora pioraram em 2025. Boa parte da percepção resulta dos efeitos tarifários impostos para negociar com os Estados Unidos, a principal arma de Trump em sua guerra geopolítica. Ao observar os dados trazidos pelo trabalho que elenca cinco pilares – comércio e investimentos, inovação e tecnologia, clima, saúde e bem-estar, e paz e segurança –, membros do conselho do Fórum concluem que a cooperação global está diminuindo em cada um dos pilares, com significativa mudança entre 2024 e 2025. O documento destaca, contudo, deterioração acentuada em comércio, inovação e tecnologia.

21/01/2026 (Crédito:REUTERS/Romina Amato)
Os negócios além-fronteira especificamente, disseram os executivos, se tornaram os mais difíceis, e o componente de aproximação política está fazendo diferença. Com as tarifas de Trump em andamento, os volumes comerciais globais vivem “ventos contrários”, nas palavras do estudo. Houve avanço geral no comércio de mercadorias, com alta de 2,4%, mas abaixo do ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) real, em 3,2%. É que à medida que o sistema multilateral global sofre forte pressão – por onde anda a Organização Mundial do Comércio? –, ganha força um processo de reconfiguração entre os parceiros comerciais. Pesquisas do McKinsey Global Institute evidenciam que o comércio de bens está caindo entre países que são geopoliticamente distantes. Na contramão, aproximam-se os que seguem a mesma linha política. Há leitura de que é o fim da globalização sem fronteiras, e o início da formação de uma espécie de “redes de confiança”, onde o alinhamento político vale tanto quanto o preço do produto.
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Além dessa “redistribuição” de comércio com foco em blocos de países aproximados, há leitura sobre a necessidade de tornar cada mercado interno mais resiliente, já que não se sabe o que está por vir em um mercado global onde uma tarifa pode surgir do dia para a noite. É uma realidade iminente para os comerciantes de queijos franceses, caso o presidente da França, Emmanuel Macron, não ceda às pressões políticas de Trump relacionadas ao setor de medicamentos. Trump pede que o país europeu eleve os preços cobrados de remédios (deixando de lado uma política pública rígida que segura os valores para a população), justificando que os laboratórios americanos gastam bilhões em pesquisa e, para ter lucro, acabam cobrando mais dos próprios americanos para compensar o que não cobram nas negociações com os franceses.
Em meio à aceleração do processo de transformação em curso, a baixa no comércio global de mercadorias, citada pelo Fórum Econômico Mundial em seu relatório, é evidente entre as duas principais economias do mundo. As importações americanas de produtos chineses recuaram 20% entre janeiro e julho do ano passado em comparação com igual período de 2024. Paralelamente, contudo, as importações entre parceiros geopoliticamente mais próximos na Europa e na Ásia aumentaram. Trump e Xi Jinping, presidente da China, firmaram uma trégua comercial em 31 de outubro passado que deverá durar por um ano. Mas se nota que, apesar dela, os dois países buscam ao máximo reduzir sua dependência do outro em áreas cruciais – terras raras e alimentos podem ser citados – como forma de segurança nacional. O termo é constantemente utilizado pelos mandatários dos dois países.
Já em tecnologia, segmento dominado pelas gigantes americanas, a deterioração global nas relações ocorre já que o foco setorial é garantir hegemonia, sobretudo em tempos de desenvolvimento de inteligência artificial (IA). É uma ferramenta econômica fortíssima. A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, em participação no evento de Davos, disse que 60% dos empregos em economias avançadas hoje são tocados pela IA, enquanto o número cai para cerca de 25% nas emergentes. Há um enorme espaço ainda para o avanço em países de baixa e média renda, que estão “muito atrás”, nas palavras dela, em quatro categorias que avaliam o preparo das nações para lidar com a IA em um cenário que inclui infraestrutura física, habilidades no mercado de trabalho, regulamentação e o impacto real da IA na economia.
Este é um universo de máxima atenção para Trump daqui para frente. É que as tarifas começam a refletir no custo dessas empresas, disse o CEO da Amazon, Andy Jassy, nesta semana à americana CNBC. Isso não é um bom sinal para o republicano, considerada a aproximação entre ele e os líderes das gigantes tecnológicas apoiadoras de seu governo. “Começamos a ver algumas das tarifas se infiltrando em preços, em alguns dos itens, e vendedores estão decidindo repassar esses custos mais altos aos consumidores”, disse Jassy. A Amazon, por exemplo, comprou estoques de semicondutores (via de regra importados da Ásia) antecipadamente para tentar se antecipar às tarifas, e assim manter os preços de seus produtos finais praticados no mercado americano, mas a maior parte do suprimento já acabou.
À parte dos impactos negativos do atual cenário, os serviços e os investimentos continuam a subir no mundo. Tanto os fluxos de serviços como o de mão de obra estão em alta por contribuírem para a transferência tecnológica. Ou seja, é interesse crescente de empresas e países em um mundo multilateral abalado, onde aumenta a necessidade de desenvolver-se olhando para a redução de dependência externa. Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo (com US$ 14 trilhões em ativos debaixo do braço), vem anunciando seu interesse em projetos de infraestrutura, e defende a necessidade de democratização de acesso a mercados privados para conseguir financiar projetos.

Apesar da fricção que se vê no globo, Fink mostrou algum otimismo em Davos. “Realmente acredito que o que está nas manchetes em todos os lugares, em muitos casos, evoluem, mudam, são mitigadas. Se olhar os últimos 50 anos, os otimistas prevaleceram”, disse. E emendou: “isso não quer dizer que não existam momentos de puro pessimismo que funcione – mas ele funciona por um curto período de tempo”. Em meio às diferenças de espírito para enfrentar os meses à frente, se mais ou menos otimista, a tensão existe. Ninguém negou, em Davos, o racha que afeta um mundo composto por economias interligadas. A discussão em Davos, encontro que vem se esvaziando ano a ano – o Brasil enviou apenas a ministra de Gestão e Inovação, Esther Dweck –, foi permeada pela ideia central de adaptação diante da maior economia global, que move cifra próxima a US$ 30 trilhões anuais, comandada por um líder errático na condução de sua política comercial.
Os próprios conselheiros do Fórum admitem o paradoxo: em um momento de mudança tão rápida, desenvolver abordagens inovadoras para alcançar a cooperação exige um foco renovado em diálogo. Mas este é um pilar de colaboração com risco de degradação, substituído por declarações de posicionamento unilaterais destinadas a manter o próprio terreno. ‘Um espírito de diálogo’, o tema desta edição em Davos, é estratégico, um movimento a ser perseguido não só entre chefes de estado, mas nas salas dos universos privados em qualquer esfera – seja a do conselho ou a da gerência.
Morde e assopra
Depois de ameaçar países europeus em torno da tensão relacionada à ocupação da Groenlândia, Donald Trump anunciou um “acordo” que resolveria seu interesse na região hoje pertencente à Dinamarca. Sendo assim, desistiu de impor tarifas à Europa que entrariam em vigor a partir de fevereiro. É o mesmo modus operandi de morde e assopra, em vigor desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2025. Trump havia dito que países europeus que enviaram tropas para a região da Groenlândia enfrentariam taxas de 10%, sendo aumentadas para 25% a partir de junho deste ano. Seu interesse na ilha está relacionado a minerais estratégicos e proteção militar de atividades de Rússia e China, devido à localização. O governo chinês, contudo, pediu que o governo dos Estados Unidos não use narrativa de “ameaça chinesa” para alcançar seus objetivos.
