18/01/2026 - 7:00
A elite empresarial e econômica global se reúne a partir da próxima segunda-feira, 19, em Davos, para o Fórum Econômico Mundial 2026 em meio a uma reconfiguração das forças que sustentaram a globalização nas últimas décadas.
Se até pouco tempo atrás o fórum era o bastião do multilateralismo e do livre comércio sem fronteiras, a esperada presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na estação de esqui suíça fará com que visões antagônicas sejam mais explicitadas.
A presença de Trump, aliás, não é apenas diplomática; ela carrega uma agenda explícita contra pautas identitárias e políticas ESG que dominaram as discussões corporativas nos últimos anos. Especialistas apostam que o público de Davos verá debates com foco voltado para o nacionalismo econômico e para a desregulamentação agressiva.
“O evento está esvaziado. Não apenas por causa das crises internas que teve, mas também porque perdeu relevância. Pode até haver um espaço político, mas não considero grande coisa. Na verdade, não espero nada”, disse Pedro de Camargo Neto, ex-secretário de produção e comercialização do Ministério da Agricultura que liderou disputas comerciais do Brasil contra Estados Unidos e União Europeia na área agrícola.
Essa mudança de tom gera um desconforto visível entre as lideranças tradicionais do fórum. Empresários que tradicionalmente marcam presença em Davos dizem sentir seus pares estrangeiros desorientados diante de uma dinâmica onde a cooperação global tem sido constantemente testada por tensões geopolíticas e guerras comerciais.
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No âmbito dos mercados financeiros, a atmosfera em Davos é de cautela extrema, impulsionada por um relatório de riscos que coloca o confronto econômico como a maior ameaça à estabilidade global em 2026.
A própria diretora-gerente do encontro, Saadia Zahidi, disse que o aumento das tarifas, as verificações de investimentos estrangeiros e controles mais rígidos de fornecimento de recursos como exemplos de “confronto geoeconômico”, que foi classificado como o principal risco na pesquisa realizada pela organização do evento. Na prática, a escalada do confronto econômico entre as principais potências do mundo é vista como a maior ameaça à estabilidade global para o ano.
“(É) quando as ferramentas de política econômica se tornam essencialmente armamentos em vez de uma base de cooperação”, disse Saadia Zahidi.
Riscos econômicos
A instabilidade geopolítica é apenas um tempero adicional a outros ingredientes que foram o bolo das preocupações em relação à economia global. O próprio presidente do Fórum Econômico Mundial, Borge Brende, disse que o mundo precisará ficar atento ao que chamou de possíveis “bolhas do futuro”.
Junto com ele, economistas e estrategistas de investimento têm reforçado as preocupações com a euforia gerada pela inteligência artificial. Após alguns anos de investimentos maciços, a IA começa a ser questionada quanto ao seu retorno real e sustentabilidade no longo prazo.
Esse ceticismo tecnológico vem acompanhado de um alerta severo sobre o endividamento global. A possibilidade de uma crise da dívida, alimentada por anos de juros elevados e gastos fiscais descontrolados no pós-pandemia, paira sobre as mesas de negociação como um fantasma que pode comprometer o crescimento das economias desenvolvidas e emergentes.
Para o setor privado, o diagnóstico é claro e preocupante: fazer negócios ficou significativamente mais difícil ao longo de 2025 devido à fragmentação dos mercados, ao protecionismo e à volatilidade das políticas fiscais.
O otimismo tecnológico de outrora deu lugar a uma vigilância rigorosa sobre bolhas não apenas em IA, mas também em criptomoedas, enquanto o custo do capital permanece como um obstáculo para a expansão produtiva.
Presença brasileira em Davos
A representação brasileira no evento também reflete as complexidades desse novo cenário. A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo segundo ano consecutivo envia um sinal ambivalente ao mercado internacional.
Embora a ministra Simone Tebet assuma o protagonismo na programação oficial para defender a agenda de responsabilidade fiscal e sustentabilidade do país, a falta do chefe de Estado em um momento de redefinição das rotas comerciais globais pode ser interpretada como um distanciamento estratégico ou uma oportunidade perdida de consolidar o Brasil como porto seguro em meio ao caos.
O país se encontra em um equilíbrio delicado, tentando aprender com as lições de 2025 para enfrentar as exigências de 2026, em um ambiente onde o pragmatismo econômico parece ser a única linguagem capaz de transpor as barreiras ideológicas impostas pelo novo eixo de poder liderado por Washington.
O contraste é nítido: enquanto o Brasil busca estabilidade e inserção através de reformas internas, o mundo discute o declínio do próprio modelo de Davos, questionando se o fórum ainda possui a capacidade de oferecer soluções ou se tornou apenas um palco para o registro da fragmentação global, em um mero evento de debates para os ricos.
Especialistas em relações internacionais lembram que é preciso ler nas entrelinhas de Davos. A era da cooperação fluida terminou. O que será visto em 2026 é a institucionalização do risco geopolítico como variável central de qualquer plano de negócios.
O confronto econômico entre nações não é mais uma possibilidade remota, mas a diretriz que dita o fluxo de capitais e as decisões de investimento direto. A desorientação do Fórum Econômico Mundial, muitas vezes criticado por sua perda de relevância ou por se distanciar das preocupações do “mundo real”, reflete a dificuldade de encontrar um novo consenso em uma ordem internacional que Trump e seus aliados pretendem remodelar à sua imagem.
