“A crise climática é uma fonte de estresse, um trauma, um pesadelo”. Sobrevivente de um violento ciclone há mais de dez anos em Bangladesh, Sahonur Rahman afirma que é vítima de “angústia climática”, como muitos jovens de sua geração.

De Bangladesh ao Reino Unido, passando pela Nigéria, muitos ativistas na linha de frente da luta contra a mudança climática enfrentam um novo problema: o impacto da crise em sua saúde mental.

A AFP conversou com três deles no momento em que milhares de delegados internacionais se reúnem na conferência do clima COP26, em Glasgow, para discutir as medidas ante a urgência ambiental.

“Isso me mata por dentro”, desabafa Sohanur Rahman, de 24 anos, na cidade de Barisal, frustrado pela falta de ações a favor do clima. Ele está particularmente preocupado com seus pais, que moram em uma localidade arrasada por um ciclone em 2007.

Localizado no Sudeste Asiático, seu país é considerado o sétimo do mundo mais afetado pelos fenômenos meteorológicos extremos.

– Medo crônico de uma catástrofe –

A “angústia climática” que muitos jovens como Sohanur sofrem é descrita pela associação de psicólogos americanos como um medo “crônico de uma catástrofe ambiental”.

Assim como em outras formas de angústia, este fenômeno pode ter impacto direto na vida diária das pessoas e agravar problemas de saúde mental já existentes.

Pesquisadores já alertaram para a vulnerabilidade particular de crianças e jovens, que contemplam um futuro marcado por ondas de calor asfixiantes, tempestades devastadoras e cheias do nível do mar.

Baseado nos relatos de 10.000 jovens de dez países, um estudo recente desenvolvido por cientistas da Universidade de Bath, no Reino Unido, destacou que 77% deles consideram o futuro aterrorizante pela mudança climática.

Quase metade das pessoas entrevistadas disse que o medo afeta o dia a dia.

– “Impotente” –

“Olho para o futuro e para o que nos espera e sinto muito medo e angústia. E raiva”, declarou à AFP Dominique Palmer, de 22 anos, durante uma manifestação pelo clima em Londres.

Ela afirma que sente ter sido “traída” pela atitude dos governantes do planeta.

“Muitas vezes me sinto impotente”, insistiu. “Até eu voltar a estar com meus amigos e começar de novo a militância”, acrescentou.

Garret Barnwell, psicólogo em Johannesburgo, analisa o sentimento: “Os jovens enfrentam um mundo em mutação. Sentem medo, irritação, desesperança, impotência”.

A mudança climática acentua as injustiças sociais que já existiam, explica. E, quando os jovens compartilham seus temores com as gerações mais velhas, geralmente sentem que são incompreendidos, completa.

Para atenuar o problema, o psicólogo recomenda terapia, mas considera que o melhor tratamento seria uma ação política convincente para apaziguar a angústia dos jovens.

– Fardo –

Para muitos ativistas, ação política é, justamente, o que faz falta.

Dezenas de países se uniram esta semana ao compromisso anunciado por Estados Unidos e União Europeia para reduzir as emissões de metano. Segundo os analistas, esta iniciativa pode ter um grande impacto, no curto prazo, no aquecimento do planeta.

As várias disputas diplomáticas e a ausência em Glasgow de líderes de nações muito poluentes, como China e Rússia, também demonstram, porém, a fragilidade dos acordos.

“A última COP, a COP25, revelou, realmente, toda angústia climática que eu sentia”, disse Jennifer Uchendu, de Lagos, destacando um sentimento generalizado nos jovens ecologistas dos países menos desenvolvidos.

“Nós carregamos o fardo da mudança climática, mesmo que tenhamos contribuído menos para isso”, lamentou a nigeriana.

“É normal ter medo, até ansiedade, diante de algo tão grande e opressor”, opinou.

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