15/02/2006 - 8:00
Foram raras as vezes em que dois presidentes
do Brasil e dos Estados Unidos estiveram tão próximos como nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton. Tal afinidade
logo se transformou numa genuína amizade e,
por isso, Clinton não pensou duas vezes antes de decidir escrever um caloroso prefácio para o livro The Accidental President of Brasil (Presidente do Brasil por acaso), que FHC lança em março no mercado norte-americano. No prefácio, publicado com exclusividade pela DINHEIRO, Clinton exalta as qualidades de FHC, com quem se encontrou pela primeira vez em 1994, durante uma reunião de chefes de estado latino-americanos em Miami. Na ocasião, FHC foi um dos poucos a travar uma conversa fluente em inglês com Clinton. Desde então, o presidente americano começou a chamá-lo apenas de ?Henrique? e também a convidá-lo para conversas informais ? FHC chegou a passar um final de semana inteiro em Camp David, a casa de campo oficial dos presidentes americanos. Ali, ouviu até alguns desabafos. ?Numa das conversas, Clinton comentou como o Partido Republicano conspirava para sabotar seu mandato?, escreveu FHC no livro, que não será lançado no Brasil. ?Ele é voltado para o público norte-americano, que ainda nos vê como uma república bananeira?, disse o ex-presidente (leia sua entrevista abaixo). A simpatia mútua entre FHC e Clinton também rendeu um pacote de socorro ao Brasil. No acordo em que o FMI emprestou US$ 40 bilhões ao País, a interferência de Clinton foi decisiva. A seguir, o prefácio de Clinton.
?Ainda nos vêem como república bananeira?
Na entrevista exclusiva à DINHEIRO, FHC revela por que fez um livro voltado apenas para o público norte-americano
Daniel Wainstein
Anotações: Ex-presidente finaliza
outro livro de memórias para lançar
no Brasil
Como é sua relação com Clinton?
Ele é mais que um conhecido. Nos vemos com certa freqüência e quando disse a ele que estava escrevendo um livro, recorri a ele, que fez o texto com muito prazer.
Ele gostou?
No prefácio ele diz ter gostado do livro, onde falo dele e do Bush.
O que, por exemplo?
Conto como nos conhecemos e nos tornamos próximos, eu e o Clinton. Da boa relação que tivemos enquanto éramos presidentes do Brasil e dos EUA. Sobre Bush, narro um episódio em que ele me pergunta se há negros no Brasil. Também falei sobre o petróleo porque ele não sabia que nós tínhamos produção.
O livro é uma auto-biografia?
Não. Tem um misto de análise e de registro histórico. É um livro para não-brasileiros pois a imensa maioria não tem idéia do que é o Brasil.
O que tem de novo?
Para nós nada. Mas tem muito de novo para eles. O livro foi feito em inglês, com um co-autor americano que não sabia português e nada sobre o Brasil. Foi proposital para que tívessemos o termômetro do tipo de pergunta, de dúvida que um americano tem. Eu falo também sobre a minha família, sobre o FHC sociólogo e a minha vida pessoal, o que quase nunca faço.
E por que o título presidente por acaso?
Isso não é uma coisa que se possa dizer em português. É uma má tradução. Nos EUA, é mais usual e quer dizer o seguinte: eu nunca tive intenção de fazer carreira política.
Mas o sr. até que leva jeito …
Mas nunca imaginei ser ministro da Fazenda até porque não tenho formação econômica. Nunca pensei que fosse lidar com a microeconomia e tive de lidar. Aliás, resisti o que pude para ser candidato à Presidência.
O sr. era político, era senador…
Mas era muito limitado. A trajetória normal de quem chega à presidência não era a minha. Eu fui presidente com 63 anos, cheguei velho, não foi uma coisa planejada. Sou muito menos político profissional do que as pessoas podem pensar.
Lula é político profissional?
O Lula teve uma formação diferente da minha. Não há uma só forma de aprender as coisas.
O sr. se sente satisfeito com a continuidade da política econômica?
Claro. O Lula atacou tanto, mas não mudou. Por que não mudou? Isso mostra que eu não estava tão errado quanto ele dizia. Ou seja, há esse lado que mostra que as coisas estão mais ou menos estabelecidas. Muita coisa ficou plantada.
Qual foi o motivo de fazer um livro para não-brasileiros?
A intenção era informar um público maior sobre as mudanças no Brasil. O que eles pensam sobre nós é banal, que somos uma república bananeira. Somos vistos sob essa ótica.