Já pensou em projetar um automóvel que fosse a sua cara, diferente de todos os outros que estão no mercado? E já imaginou construí-lo e colocá-lo à venda? Alguns médios empresários de Santa Catarina não se deixaram assustar pelos nomes das grandes montadoras e resolveram levar essa idéia adiante. Muito audacioso? Sem dúvida, mas os resultados estão aí: hoje, os 42 acionistas da Tecnologia Automotiva Catarinense (TAC) comemoram o sucesso de sua iniciativa. O Stark, um carro 4X4 com tecnologia nacional construído em material composto e estrutura tubular, promete abocanhar um nicho de mercado inexplorado pelas multinacionais. O nome do produto já diz a que ele vem. ?Significa carro forte em alemão?, explica Adolfo César dos Santos, o presidente da empresa. E é mesmo. Sem que aplicasse um centavo em publicidade, a TAC apresentou seu fora-de-estrada ao público pela primeira vez no Salão do Automóvel, em São Paulo. ?Saímos de lá com 98,4% de intenção firme de compra. Foi uma unanimidade, algo raríssimo?, festeja Santos.

 

Foram dois anos de confronto entre a idealização e a realidade de mercado. Munido do objetivo de construir uma indústria automobilística própria de Santa Catarina, um grupo de empresas uniu-se ao setor de autopeças e deu origem à sociedade anônima. O primeiro investimento, de R$ 15 milhões, foi destinado à concepção técnica. Santos encomendou uma pesquisa junto a institutos especializados e percebeu que havia público. ?A partir daí, surgiu a visão estratégica. Eles acabaram se reposicionando e vendo que as possibilidades eram muito maiores do que imaginavam?, conta Aloysio Coelho, ilustrador da Questto Design, o escritório paulista contratado para fazer o desenho externo e toda a mecânica do veículo. A diretriz dos projetistas era tornar o Stark profissional e harmônico, não para concorrer com os carros utilitários disponíveis no mercado, mas criar uma nova categoria. O público-alvo, das classes A e B, são pessoas aventureiras e ligadas à natureza, que estão em busca de um estado de espírito e não apenas do meio de locomoção. ?Os veículos, as grandes montadoras fazem com competência. O que fazemos é brinquedo para gente grande?, diverte-se Santos. O preço final ficará entre R$ 70 e 80 mil.

 

O que chama a atenção na TAC é que ela é inteiramente nacional no capital e nos componentes. Embora produza em baixa escala, segue rigorosamente os protocolos em que as multinacionais se apóiam para fazer automóveis. Ela recebe orientações da Volks. Como o plano de negócios não justifica publicidade formal, toda a estratégia de divulgação consiste em investir numa rede de contatos em eventos. Santos e seus associados ainda criam o corpo próprio de funcionários: por enquanto, são 30 empregos diretos e 60 indiretos. A empresa pretende produzir 180 carros em 2007, 570 em 2008 e 1.200 em 2009. Por incrível que pareça, o desafio é contornar a demanda, pois já existe forte pressão de 16 grupos empresariais para o Stark ser exportado. No fim das contas, a iniciativa, de cunho político para atrair investimentos a Santa Catarina, virou um negócio promissor. Do capital aplicado inicialmente, cerca de R$ 6 milhões foram reservados para uma segunda fase: a criação de um produto derivativo da plataforma do Stark. E muita gente já está de olho no projeto. Várias indústrias de autopeças têm se instalado no Estado para participar do segmento que nasce. ?Eles incentivam os outros a tomar iniciativa. Depois de anos sem se fazer um projeto brasileiro dentro dos melhores conceitos de engenharia disponíveis, apareceu um que é verdadeiramente competitivo?, avalia Coelho.