UMA REMESSA DE QUASE ? 1 bilhão, no mês passado, marcou o fim da malsucedida empreitada do BBVA no varejo bancário do Brasil. O segundo maior banco da Espanha revendeu para o Bradesco as últimas ações que detinha na instituição e liquidou a participação (5% das ações ordinárias) que detinha desde 2003, quando foi comprado pelo concorrente. Na época, os espanhóis concluíram que era melhor desistir da estratégia inicial e ganhar dinheiro como acionista minoritário do maior grupo financeiro privado local. A porta de entrada original ? o problemático Excel Econômico, do banqueiro Ezequiel Nasser, assumido em 1998 ? não foi tão boa assim. E agora, fechada a porta de saída do Bradesco, o que será dos negócios do BBVA por aqui?

A nova estratégia pode ser resumida em uma palavra: adelante. Seguir adiante no mercado brasileiro é o plano A dos executivos que mantêm a chama acesa do BBVA no pequeno escritório de representação no Jardim Europa, em São Paulo. A estrutura enxuta, com apenas 25 pessoas, é a ponta-de-lança da oferta de produtos globais, como financiamentos ao comércio exterior e assessoria nos mercados de capitais dos dois lados do oceano Atlântico. No ano passado, a carteira corporate, de operações com grandes empresas, cresceu 30%, para cerca de US$ 1 bilhão. Com presença em 30 países, a instituição quer aproveitar seus tentáculos para atender as necessidades financeiras de exportadores, importadores e multinacionais brasileiras e estrangeiras. ?Oferecemos aos nossos clientes no Brasil uma plataforma global de negócios?, diz Sandy Salgado, chefe do BBVA nos EUA e na América do Sul.

Com base em Nova York, Salgado comanda a área corporativa e de investimentos do banco em países como Argentina, Colômbia, Peru, Venezuela, Chile, Paraguai e Uruguai. O lucro da região para a Espanha foi de ? 181 milhões no primeiro trimestre, segundo balanço divulgado na segunda-feira 28. É menos de 10% do resultado global, de ? 1,951 bilhão, mas é mais que o dobro do lucro dos ? 84 milhões obtidos nos Estados Unidos. Lá, o BBVA é dono de quatro bancos regionais. Seu foco é o público de língua espanhola. No México, os espanhóis são donos do Bancomer.

Salgado tem vindo com muita freqüência ao Brasil para visitar os clientes locais. Está impressionado com o crescimento das companhias brasileiras nos últimos anos. Nomes como Vale, Petrobras e Gerdau, entre outros, deixaram para trás muitos concorrentes regionais e disputam mercados lá fora com os maiores conglomerados do mundo. ?A evolução dos grandes grupos brasileiros é impressionante?, afirma. ?Estão aproveitando a força do real para comprar concorrentes lá fora.?

Em 2008, o BBVA deverá manter no País o ritmo de crescimento do ano passado, prevê Reynaldo Passanezi, representante no Brasil. ?Os setores de mineração, petroquímica e infra-estrutura devem crescer de 20% a 25% este ano e puxar a demanda por empréstimos sindicalizados?, estima Passanezi. No ano passado, o banco ampliou sua carteira de grandes clientes corporativos de 30 para 100 empresas. Este ano, ele aposta em projetos como a construção do trecho sul do Rodoanel, em São Paulo, e os leilões das plataformas de petróleo. Enquanto avança no atacado, o BBVA deixa o varejo na saudade. Ou melhor, na gaveta. É o Uno-e, projeto virtual de atendimento às pessoas físicas. Se no futuro os ventos virarem, quem sabe será o princípio de uma operação bancária mais abrangente.