Henrique Meirelles fechou-se em copas. O presidente do Banco Central, a quem muitos dentro e fora do governo atribuem o crescimento modesto da economia, sabe que está com a cabeça a prêmio. A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, já pediu sua demissão ao presidente
Lula em mais de uma ocasião. Guido Mantega, do BNDES, fez o mesmo. Nessa romaria, até o deputado cassado
José Dirceu, num jantar secreto em Brasília, sugeriu a Lula que trocasse o comando da autoridade monetária, para sinalizar aos eleitores que um segundo mandato traria mais crescimento e juros menores. Embora tenha decidido ficar calado ao longo do tiroteio, sem conceder qualquer entrevista, Meirelles acredita que ficará no cargo, pelo menos, até o último dia de 2006. Se Lula não for reeleito, ele retornará à iniciativa privada. Caso contrário, Meirelles pretende ficar mais quatro anos à frente do BC. Ele aposta até que, em vez de pender para a esquerda, Lula faria movimentos na direção oposta a partir de 2007. Um deles seria a garantia de independência formal ao Banco Central. Nos últimos dias, DINHEIRO ouviu vários interlocutores de Meirelles para decifrar o que vai pela cabeça do homem que define a taxa de juros e dita o ritmo da economia. Aos amigos, Meirelles confidenciou que o grande problema brasileiro é risco político de volta da inflação. Ele está convencido de que é hoje a âncora da estabilidade. Sua demissão significaria a volta da inflação e a garantia de uma derrota líquida e certa de Lula nas eleições de outubro.

A esses mesmos amigos, Meirelles tem proposto um desafio. Ele pergunta a todos se aplicariam num título brasileiro durante dez anos, com uma taxa de juros de 15% ? a maior do mundo. Apesar da remuneração, poucos respondem que sim. E por quê? Segundo Meirelles teria dito, a culpa seria do tal risco político de inflação. Como no Brasil há tantos candidatos à presidência e tantos ministros do próprio governo atirando pedras na política monetária, que confiança um investidor pode ter na estabilidade de preços? Se a moeda corre o risco de perder valor no futuro, os tais 15% talvez não sejam tão atrativos ? pelo menos durante dez anos. E como mudar essa situação? Com a independência do BC. Um país que cumpre suas metas de inflação durante dois, três ou quatro anos seguidos conquista credibilidade. E pode então trocar títulos com juros de 17,25%, a taxa Selic atual, por outros a 15%, 12%, 10% ou até menos. De acordo com a filosofia de Meirelles, a única saída para o País é perseverar no rumo atual. E a intuição do presidente do BC lhe diz que Lula pensa de forma parecida.

Embora se sinta seguro na cadeira, Meirelles cogitou deixar o Banco Central para iniciar uma vida política. Até meados de 2005, ele pretendia se candidatar ao governo de Goiás. Desistiu quando percebeu que teria de financiar parte de sua campanha com recursos não contabilizados, dada a monstruosa informalidade da economia brasileira. Meirelles preferiu não se sujar. Depois de uma carreira impecável no setor privado,
onde chegou à presidência mundial de um dos maiores grupos financeiros do mundo, o BankBoston, ele concluiu que sua reputação
vale mais do que sua vaidade. Meirelles pensou então em se candidatar a deputado federal ? uma campanha que custaria cerca de US$ 1 milhão mas que ele poderia, tranqüilamente, financiar com suas economias. Meirelles decidiu ser leal a Lula e não se filiou a partido político nenhum. Alguns advogados hoje lhe garantem que há brechas jurídicas para que ele concorra. Como Meirelles foi eleito parlamentar em 2002 e renunciou ao mandato, ele poderia eventualmente resgatar a filiação partidária. Apesar da possibilidade, o presidente do BC garante que desistiu da política ? ao menos por ora. Ele só voltaria se houvesse um partido verdadeiramente liberal no Brasil, disposto a propor uma agenda de mudanças ?à la Chile?, com menos governo, menos impostos e menos empréstimos subsidiados. Aliás, este é um ponto que intriga Meirelles. Por que os empresários se queixam tanto da taxa Selic, se quase todo o crédito agrícola, imobiliário e de investimentos no Brasil, via BNDES, é incentivado? Em tom de blague, Meirelles diz aos amigos que as pessoas não ousam fazer essa pergunta para não se darem conta do caráter revolucionário da resposta.

E o que, então, ele pretende fazer na economia em 2006? Depois de eliminar a dívida indexada ao dólar, sua meta é persistir na mesma toada de redução gradual dos juros. Embora o mercado aposte num crescimento do PIB de 3,5% neste ano, Meirelles está convicto de que o número será de 4% ? ou até maior. Aos 60 anos, ele diz que jamais presenciou um ambiente macroeconômico tão benigno no Brasil, com crescimento, queda do desemprego, contas públicas em ordem e superávits comerciais exuberantes. Se há problemas, ele garante que o erro não está no Banco Central. Mas e se, mesmo assim, continuarem pedindo sua demissão? Meirelles não se importa. Ele já venceu na vida.