03/11/2004 - 8:00

Com marretas e fuzis, um grupo de policiais federais chegou à casa do banqueiro Daniel Dantas, sócio do grupo Opportunity, às 9h30 da quarta-feira 27. Durante sete horas, na presença de Maria Alice Dantas, esposa de Daniel, os agentes reviraram livros, agendas e CDs e saíram com três malotes de documentos pessoais. Quase no mesmo momento, outros seis policiais federais subiram para o apartamento 502, do edifício Portinari, do setor Sudoeste, em Brasília, onde mora Carla Cico, presidente da Brasil Telecom, empresa de telefonia controlada pelo Opportunity. Durante duas horas e meia, eles afastaram móveis, mexeram nos livros, vasculharam a cozinha e abriram gavetas, inclusive de roupas íntimas. Durante a operação, os policiais riam e falavam ao telefone. ?Chegamos lá?, ?Descobrimos o QG?, ?É o fim? ? diziam. A palavra Kroll era repetida inúmeras vezes. Quando chegaram ao computador pessoal de Carla, um policial disse que iria ligá-lo. Outro respondeu: ?Não precisa ligar, já sabemos o que tem aí?. Pouco depois do meio-dia, deixaram o apartamento, levando o disco rígido. Em paralelo, numa operação deflagrada em quatro Estados, batizada como Chacal, outros 90 policiais invadiram as sedes da empresa de investigação Kroll, prendendo dois executivos e três colaboradores, e também do Opportunity, onde foram feitas cópias de todos os arquivos de computador, contendo inclusive informações sigilosas dos investidores. A intenção inicial era levar até o servidor central do grupo, o que paralisaria de vez as atividades do banco. Foi feito um acordo de última hora, pelo qual os agentes se contentaram em copiar os arquivos. Nas diligências, eles chegaram aos locais acompanhados de vários jornalistas e cinegrafistas, transformando a operação num espetáculo midiático.

As imagens do ataque ao Opportunity, que administra R$ 7,5 bilhões em recursos de terceiros, logo foram expostas em rede nacional. Da noite para o dia, milhares de grandes investidores, do Brasil e do exterior, passaram a ter seus dados bancários em poder da polícia. O reflexo foi imediato. Na quinta-feira 28, os funcionários da mesa de operações já recebiam dezenas de ligações telefônicas dos clientes ? todos apreensivos. ?Meu dinheiro ainda está aí??, perguntava um aplicador. ?Vocês estão funcionando??, indagava outro. O nervosismo chegou a tal ponto que, no mercado, lançaram-se dúvidas até sobre a continuidade da operação do Opportunity como gestor de recursos, atividade em que os fatores chaves são confiança e credibilidade. ?Eles foram feridos de morte?, disse à DINHEIRO o diretor de um grande banco de investimentos internacional. Por conta da tensão, Dantas e seus principais sócios, como Carlos Rodenburg e Arthur Carvalho, criaram grupos internos para apagar os muitos focos de incêndio. Aos sócios, no dia seguinte ao ataque, Dantas ligou pelo menos 10 vezes de telefones com misturadores de voz, imunes a grampos. ?Tudo bem por aí??, indagava, contido. ?Tudo bem, e com você??, respondiam. Era um código interno. Ao mesmo tempo, havia a preocupação de acalmar o mercado. ?A área de gestão de recursos já está funcionando normalmente?, garantiu Rodenburg à DINHEIRO. E, na mesma quinta 28, a PF divulgou um comunicado informando que os arquivos financeiros do Opportunity serão devolvidos o quanto antes para não prejudicar a atividade do banco. Mesmo porque o mandado de busca e apreensão autorizou os policiais a buscar apenas elementos que, eventualmente, liguem Dantas à Kroll. ?Muitas informações financeiras sigilosas foram apreendidas e o governo é responsável por preservá-las?, afirmou o criminalista Nélio Machado, contratado pelo Opportunity. Controladores do banco só saberiam dimensionar o estrago do ataque no fim de semana, fazendo um balanço entre resgates e aplicações. Eles contavam com a alta rentabilidade de seus fundos, campeões de valorização há uma década. ?Quem ganha dinheiro conosco age com frieza, não sai de uma hora para outra?, disse um diretor.

Oficialmente, a operação Chacal foi deflagrada para investigar as atividades no País da empresa de investigações Kroll, uma multinacional americana avaliada em US$ 2 bilhões que foi contratada pela Brasil Telecom para investigar a rival Telecom Italia, mas acabou sendo acusada de espionar membros do governo. No entanto, já no dia da apreensão dos documentos, que pesaram uma tonelada e foram transportados para Brasília, o delegado porta-voz do caso, Romero Menezes, apontou seus alvos. ?Os contratantes poderão ser indiciados?, afirmou, referindo-se a Daniel Dantas e Carla Cico. Isso aconteceria em caso de comprovação de que os dois estariam pagando ? de forma consciente ? por serviços ilegais, como grampos telefônicos e interceptação de mensagens eletrônicas, o que a Kroll nega ter feito. Nesta hipótese, o Opportunity seria alvejado em outra de suas atividades: a administração de empresas telefônicas. Hoje, dos R$ 7,5 bilhões do banco, R$ 4 bilhões referem-se à gestão de recursos de terceiros e outros R$ 3,5 bilhões fazem parte dos fundos CVC, ligados ao Citibank e que controlam companhias como a Brasil Telecom, operadora que fatura R$ 12 bilhões e acaba de entrar no mercado de telefonia celular em dez Estados. Isso porque a acusação de grampo poderia ser usada como pretexto para a cassação da concessão, consumando uma transferência de controle para a rival Telecom Italia.
Apesar da dimensão do ataque, até a noite da quinta-feira 28 os próprios advogados do Opportunity ainda não haviam tido acesso aos autos do processo judicial que deu origem à ação policial. Tudo era mantido sob sigilo absoluto. Nem mesmo os advogados dos cinco funcionários da Kroll que foram presos ? e até a noite da quinta 28 estavam encarcerados na Polícia Federal, sob a alegação de realizar escutas ilegais ? chegaram a ver os termos do processo. ?É um mistério, dizem que o processo está em segredo de justiça até para os advogados?, afirmou, indignado, o criminalista Machado. ?Estamos voltando a uma era de obscurantismo?, reforçou, atônito, o advogado Eduardo Canelós. Em Belo Horizonte, no mesmo dia, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, rebateu as críticas e disse que a ação policial foi feita ?de acordo com as normas legais?. Enquanto isso, Carla Cico, a presidente da Brasil Telecom, estranhou a busca na sua casa porque, há mais de dois meses, colocou-se formalmente à disposição do procurador geral da República, Cláudio Fontelles, para prestar informações sobre a contratação da Kroll. Na manhã seguinte à invasão, ela orientou seus executivos a tocar a companhia sem sobressaltos ? e saiu do ar. Desligou seu celular.

A operação da Polícia Federal atingiu em cheio um dos empresários mais ousados e polêmicos do País. Dantas criou o Opportunity em 1994 e foi um dos mais agressivos participantes da privatização. Reuniu US$ 1 bilhão em recursos do Citibank e outros US$ 700 milhões dos fundos de pensão, com os quais assumiu o controle da Brasil Telecom e da Telemig Celular. Além delas, Dantas controla o Terminal de Contêineres do Porto de Santos e o Metrô do Rio de Janeiro. São todas empresas lucrativas, líderes em seus setores. Na Telecom Italia, a aposta é que Dantas ? agora acuado ? acabará sendo levado a vender o controle da Brasil Telecom para os próprios italianos. Um dos planos da Telecom Italia, após uma eventual tomada de controle, é fazer com que a Brasil Telecom, que tem US$ 1 bilhão em caixa, compre sua subsidiária TIM, operadora de telefonia móvel que registrou prejuízo de R$ 1,5 bilhão no ano passado. No Opportunity, porém, o recado é que o grupo jamais recuou, mesmo quando esteve sob intensa pressão. O curioso é que, dias antes da operação, Dantas estava muito tranqüilo, após conversas de seus advogados com membros da cúpula do governo. ?Não dá para ser um Dom Quixote e querer brigar com o governo?, disse o banqueiro a um interlocutor.

A ação da PF também colocou em risco o futuro da Kroll, uma empresa que lida com sigilo, no País. Isso porque também foram apreendidos documentos relacionados a várias outras investigações internas, uma delas sobre a empresa de refrigerantes Dolly e outra sobre a Schincariol. ?Podemos até ter de fechar as portas no Brasil?, admitiu um de seus executivos. Numa tentativa de reação, a empresa emitiu uma dura nota na noite da quinta 28. ?Esta iniciativa da polícia, de abuso de autoridade, demonstra de forma clara a fragilidade de nossos direitos constitucionais?, afirmava o texto. A Kroll também contestou a causa da prisão dos seus cinco colaboradores ? a alegação apontada foi o fato de terem sido encontrados equipamentos que, segundo a PF, serviriam para grampear terceiros.

A empresa garantiu que todas as máquinas podem apenas fazer varreduras contra grampos, ou seja, seriam equipamentos defensivos. Além disso, a multinacional citou as especificações das máquinas ? Riserbond 1270A e Boomerang NJD5 ? e listou os endereços eletrônicos dos fabricantes para quem estiver disposto a verificar a função dos equipamentos. Por último, a Kroll, uma empresa que já foi contratada pelo próprio governo federal e está presente em mais de 100 países, pretendia repercutir a ação no exterior, de modo a alertar investidores internacionais sobre riscos de atuar no Brasil. ![]()

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