12/03/2003 - 7:00
A igreja do elegante bairro de Palermo, em Buenos Aires, recebeu um público novo nos últimos meses. Pessoas de classe média e alta, católicos, seguidores de outras religiões e ateus procuraram o pároco Martín Bracht. Eles não pediam conselhos nem conforto espiritual. Ofereciam ajuda. Queriam doar dinheiro ou alimentos e preparar refeições para os pobres que comem no refeitório da igreja. ?O número de voluntários triplicou?, diz Bracht. ?Além de a miséria ter crescido, também aumentou a solidariedade entre as pessoas.?
Um ano depois da queda do presidente De La Rúa, a Argentina é um país bem diferente. A economia caiu mais de 11%, uma em cada quatro pessoas está desempregada e 57,5% da população vive na pobreza. Mas nos últimos quatro meses a situação econômica se estabilizou. E os argentinos, descrentes das instituições públicas, buscaram seus próprios caminhos para sobreviver. ?Muitos previam uma ruptura, mas o governo manejou o barco na tempestade e as pessoas se organizaram para evitar um colapso social?, diz o embaixador brasileiro José Botafogo Gonçalves.
A rotina da classe média mudou, mesmo para quem não perdeu emprego. Ficaram para trás as férias em Búzios e as compras em Miami ? típicas da década de 90 ? e o eterno sonho de viver como os europeus. ?Tivemos de nos adaptar?, diz o administrador de empresas Juan Montero. Num ano em que a inflação subiu 40%, o salário de Juan numa importadora de café foi cortado em 12%. Sua esposa, a psicóloga Karina, precisou transferir o consultório para a casa dos pais. Hoje, ela atende mais clientes, mas ganha menos dinheiro. ?As pessoas estão angustiadas com a crise, mas não têm como pagar?, diz Karina.
Para economizar, Juan e Karina esvaziaram o carrinho do supermercado, cortaram o restaurante do fim-de-semana e rebaixaram o plano de saúde da família. Mas o pior não foi adiar os planos de mudar de casa e ter mais um filho, além de Camila, de 7 anos e Agustin, de 3. O que os deixa mais tristes é a falta de perspectiva. ?A Argentina tem futuro??, pergunta Juan, meio em tom de brincadeira. ?Não?, responde Agustin.
Conhecidos por oscilar entre a euforia e a depressão, muitos argentinos dizem não ver luz no fim do túnel. A fase dos grandes protestos políticos ficou para trás, junto com quatro presidentes, depostos pelos ?panelaços? nas ruas de Buenos Aires. Mas, às vésperas de novas eleições, a população parece mais interessada na experiência do governo de Lula do que nos atuais candidatos à Casa Rosada, sede do governo argentino. ?Os protestos diminuíram, mas a esperança não voltou?, diz Leonardo Ares, gerente do café Gran Victoria, o único da Praça de Maio, onde se localiza a Casa Rosada. Há um ano, ele foi entrevistado por DINHEIRO, quando acompanhava as manifestações que provocaram a queda de De La Rúa. De lá para cá, o movimento do Café caiu e quatro funcionários foram demitidos. Recentemente, os turistas começaram a voltar, animados pela desvalorização do peso, mas a vida continua difícil. Mesmo tendo sofrido um corte em seu salário, Ares passou a ajudar a irmã e quatro sobrinhos, depois que o cunhado perdeu emprego. ?Toda família tem um caso parecido?, diz Ares.
Voluntariado. Se ainda não recuperaram a esperança, os argentinos se organizaram para reconstruir suas vidas. De um ano para o outro, surgiram 10 mil novas ONGs (organizações não-governamentais), segundo cálculos do Centro de Implementação de Políticas Públicas para Igualdade e Crescimento. Escolas passaram a cultivar os alimentos para o almoço das crianças, vizinhos fundaram associações de bairro para ajudar as pessoas carentes e as igrejas viraram centros de apoio social. Mais de 100 fábricas que faliram foram ocupadas por 13 mil trabalhadores e estão em plena operação, segundo o Movimento Nacional de Negócios Recuperados.
?O que o governo não fez, a sociedade compensou?, diz o industrial Raul
Ruibal. Ele é dono de uma tradicional fábrica de jogos de mesa de Buenos Aires. Na década de 90, quando o
peso valia um dólar, a Juegos Ruibal sofreu a duríssima concorrência dos brinquedos importados da China.
Mesmo queimando suas reservas, Raul decidiu manter todos os 60 funcionários. Muitos deles o acompanhavam há mais de 20 anos. Quando não agüentava mais o aperto econômico, Ruibal criou o jogo ?Deuda Eterna ? quién puede vencer al FMI??, que repercutiu no mundo inteiro e o ajudou a atravessar o último ano antes da desvalorização do peso. Agora, sem a concorrência com os importados, Ruibal faz parte do restrito grupo animado com as perspectivas da economia. Ele calcula que suas vendas vão crescer 40% em 2003. ?Vamos nos recuperar?, diz ele.