27/04/2005 - 7:00
Na terça-feira 19, católicos progressistas prenderam a respiração por breves segundos ao abrir da janela central da Basílica de São Pedro. O papa que sairia ao balcão seria mais aberto ao debate sobre temas urgentes da vida moderna como aborto e casamento gay? Ou, como seu antecessor, hostilizaria o mundo atual com uma rígida linha doutrinária a fim de recuperar a influência perdida no curso da História? O anúncio de que Joseph Ratzinger se tornara Bento XVI esclareceu que a segunda opção talvez seja a mais acertada. Ideólogo do pontificado conservador de João Paulo II, o novo Papa dificilmente mudará sua maneira de pensar sobre o que ele mesmo escreveu e Karol Wojtyla assinou. Assim, apesar de pressões em contrário ? que devem crescer ?, teólogos prevêem mais um período de intolerância no Vaticano. Acompanhe a posição da Igreja sobre alguns temas polêmicos.
MULHERES
João Paulo II condenou o machismo e afirmou que homens e mulheres são iguais em valor e dignidade. Mas o não à ordenação de mulheres (que poderia suprir o déficit de sacerdotes) e posições conservadoras quanto ao aborto e à pílula afastaram da Igreja muitas mulheres jovens de países desenvolvidos.
CAMISINHA E AIDS
A despeito da epidemia de Aids que deve acometer 100 milhões africanos nos próximos 20 anos, o Vaticano promove uma cruzada anticamisinha. Lança mão de argumentos pseudocientíficos (?Os preservativos não oferecem 100% de proteção?) e morais (a camisinha promove a ?trivialização do verdadeiro significado do sexo?, que é o da procriação). A solução: nada de sexo antes ou fora do casamento.
HOMOSSEXUALIDADE
O Vaticano acha a discriminação aos gays ?injusta?. O curioso é que, contraditoriamente, ele mesmo propaga essa injustiça. No Lexicon, um dicionário organizado pelo Conselho Pontifício para a Família em 2003, o verbete sobre homossexualismo diz que relações entre pessoas do mesmo sexo são ?um conflito psíquico não resolvido que a sociedade não pode institucionalizar?. Ou seja, em duas linhas a Igreja classifica o homossexualismo como doença e dispara contra o casamento gay. O segundo caso é considerado ainda mais grave, pois casais homossexuais não teriam meios de garantir ?a sobrevivência da espécie humana de maneira adequada?. Pior se eles quiserem adotar filhos, ?uma violência sobre as crianças, no sentido que se aproveita de sua fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano?.
ABORTO
João Paulo II comparou o aborto ao Holocausto, jogando no mesmo balaio o Reichstag alemão dos anos 30 e parlamentos de democracias atuais. Segundo ele, nos dois casos, políticos legalmente eleitos transgrediram seus poderes e desafiaram a lei de Deus ao permitir assassinatos deliberados. Para o Vaticano, o aborto ? um ?delito abominável?, reflexo da crise moral e do permissivismo sexual de nosso tempo ? jamais pode ser justificado. Nem quando há risco de morte para a mãe.
CÉLULAS TRONCO
A Santa Sé tem duas opiniões sobre a questão. É a favor das pesquisas com células-tronco adultas (retiradas do cordão umbilical) e contra os estudos com as embrionárias (obtidas por meio de embriões). Para o segundo caso, que pressupõe o descarte de embriões, a explicação se baseia no mesmo princípio da proibição ao aborto: a vida humana é sagrada e inviolável em cada momento de sua existência, incluindo o que precede o nascimento.
EUTANÁSIA
Se só Deus pode dar a vida e a morte, para a Igreja a eutanásia é uma forma de suicídio ou homicídio ? ambos altamente condenáveis. A preocupação maior é com os países ricos, mais propensos a aprovar leis favoráveis à questão. ?Quando prevalece a tendência para apreciar a vida só na medida em que ela proporciona prazer e bem-estar, o sofrimento aparece como um contratempo insuportável, de que é preciso liberta-se a todo custo?, criticou João Paulo II na Encíclica Evangelium Vitae, de 1995.
RATZINGER FALA
?Um homem produzido por outros homens no laboratório deixa de ser um presente de Deus, da natureza. Assim como ele pode ser fabricado, ele pode ser destruído?
?O rock é uma expressão básica das paixões que, em grandes platéias, pode assumir características de culto ou até de adoração, contrárias ao cristianismo?
?Um católico será considerado culpado e não poderá receber a comunhão se votar em um candidato político que é a favor da eutanásia ou do aborto? ![]()