O ramo de investimentos imobiliários sempre foi tratado como patinho feio pelos bancos brasileiros. Um negócio recém-concluído pode ser o início da virada nessa situação. O gestor de fundos canadense CDP Capital, do grupo Caisse des Dêpots et Placements du Québec, de Montreal, comprou metade do controle da Brazilian Capital, do banco brasileiro Ourinvest. Trata-se de uma operação pequena, de
US$ 100 mil, mas de resultados grandes. A Brazilian Capital, ou BC, deverá gerir R$ 100 milhões em ativos já em 2002, segundo as contas de seu presidente, Fábio Nogueira. Estará muito mais envolvida com crédito e com gestão de recursos nesse setor do que os bancos brasileiros. A empresa fará a administração de fundos e de carteiras de ativos imobiliários para empresas e investidores institucionais, como os fundos de pensão. Será também a porta de entrada para investidores estrangeiros interessados em ativos reais. A companhia investirá ainda seus próprios recursos no setor. Poderá comprar carteiras de créditos imobiliários para depois revender a outros interessados. Até créditos em atraso estarão na mira. ?Esse é um mercado muito comum na Ásia?, diz Nogueira.

A chegada dos canadenses revela que a hora do amadorismo pode estar com os dias contados no setor. A CDP não costuma ser modesta nos mercados que aborda. Na França, por exemplo, administra o centro empresarial de La Défense, o maior de Paris e marco da arquitetura moderna na cidade. O fundo é o maior investidor canadense no exterior. Seus negócios internacionais alcançam de Varsóvia, na Polônia, a Bangkok, na Tailândia.

O sócio estrangeiro aumenta o poder de fogo do Ourinvest na interseção entre as finanças e o setor imobiliário. A BC é a terceira companhia do grupo no setor. As outras duas também não se queixam de falta de acesso ao capital externo. A Brazilian Mortgages (BM), que ganhou alguma notoriedade ao lançar com sucesso os fundos imobiliários do shopping Pátio Higienópolis e do centro empresarial Torre Norte, ambos em São Paulo, obteve US$ 15 milhões do IIC, o braço do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o setor financeiro. O dinheiro irá para o financiamento à venda de imóveis residenciais. A BM tem uma carteira de crédito imobiliário maior do que a maior parte dos bancos e financia até reformas e término de obras. ?As administradoras não podem competir com bancos que captam dinheiro via poupança, mas nosso dinheiro sai mais barato do que recorrer ao crédito pessoal?, explica Nogueira. Previsão realista para 2003: R$ 60 milhões em financiamentos gerados no ano.

E há ainda a Brazilian Securities (BS), que transforma créditos a receber em títulos negociados no mercado. O mesmo IIC se comprometeu a comprar US$ 25 milhões dos títulos emitidos pela empresa e uma outra instituição de desenvolvimento, o FMO, da Holanda, fechou contrato para mais US$ 5 milhões em três anos. Os organismos multilaterais atribuem um papel nobre à empresa: o de desenvolver um mercado que, em atividade, tem o poder de aumentar a oferta de crédito e de gerar melhoria na qualidade de vida da população. Muitas das operações nascidas nos fundos imobiliários e nos financiamentos diretos são transformadas em títulos pela BS.