09/03/2016 - 16:32
Milhares de trabalhadores e estudantes protestaram nesta quarta-feira em Paris e outras cidades da França contra uma impopular reforma trabalhista que dividiu a maioria socialista do presidente François Hollande, a 14 meses das próximas eleições.
Na capital, jovens e estudantes secundaristas protestam desde o início da manhã, apesar de uma chuva torrencial, atirando ovos, lançando rojões e erguendo cartazes que denunciam a lei proposta pela ministra do Trabalho, Myriam El Khomri.
Cerca de meio milhão de pessoas estiveram em manifestações em toda a França, de acordo com números estimados por vários sindicatos. O Ministério do Interior afirma que foram 224 mil pessoas.
A CGT afirmou que só em Paris 100 mil pessoas saíram às ruas para protestar, enquanto a polícia estima 30 mil participantes.
“El Khomri está perdida, a juventude está unida”, gritavam os manifestantes, que consideram que o projeto de lei fragiliza as garantias de emprego e ameaça suas perspectivas de carreira.
A reforma inclui medidas que concederiam mais flexibilidade às empresas para contratar e demitir trabalhadores, em uma tentativa de contrabalançar o desemprego que beira os 10,2% e que afeta principalmente os jovens (24%).
Também reduzirá o pagamento de horas extras além das 35 semanais, instauradas na década de 90 em uma tentativa dos socialistas de gerar emprego. Em alguns setores, os jovens poderiam trabalhar até 40 horas semanais.
Para William Martinet, presidente da organização estudantil UNEF, essas medidas são “uma traição contra os jovens”.
Mais de um milhão de pessoas assinaram uma petição on-line contra o projeto de lei, que segundo uma pesquisa é rejeitado por sete em cada dez franceses.
O presidente François Hollande, que fez campanha com a promessa de melhorar as perspectivas dos jovens, disse na véspera dos protestos que queria ajudá-los para que tenham “mais estabilidade trabalhista”.
“Também devemos dar às empresas a oportunidade de contratar mais, oferecer segurança trabalhista aos jovens ao longo de suas vidas e dar flexibilidade para as empresas”, disse Hollande.
O primeiro-ministro Manuel Valls iniciou na segunda-feira três dias de consultas com os sindicatos, em uma tentativa de salvar a lei diante das críticas que já obrigaram o governo a adiar sua apresentação, inicialmente prevista para esta semana, para o final do mês.
Hollande e Valls foram acusados por prominentes membros de seu próprio partido de serem muito favoráveis às empresas e de terem dado uma guinada à direita.
Outras medidas, como o projeto de lei para retirar a nacionalidade francesa de pessoas condenadas por terrorismo, acrescentaram o mal-estar no eleitorado socialista.
A popularidade de Hollande despencou ao mínimo histórico de 15%, e a de Valls se encontra em 20%, a 14 meses das eleições de maio de 2017, nas quais o mandatário pode buscar um segundo mandato.
No entanto, os partidários da reforma estimam que para reativar a economia francesa é fundamental criar postos de trabalho e manter a competitividade.
O ministro francês da Economia, Emmanuel Macron, afirmou na terça-feira em uma entrevista à rádio France Inter que o desemprego não cai abaixo de 7% há 30 anos.
“Tentamos de tudo? Vamos ver fora da França. O que aconteceu em outros lugares? Todos evoluíram, todos fizeram coisas”, disse.
O primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, que impulsionou reformas similares, pediu na terça-feira que os franceses “não se deixem assustar pela mudança”.
“Na Itália funcionaram. Criamos 760.000 empregos”, destacou.
O jornal Le Parisien se referiu a reformas similares em Espanha, Itália e Grã-Bretanha e disse em um editorial na terça-feira que o código trabalhista da França “não está adaptado a nossa época”.
“Negar a necessidade da reforma é negar que o mundo que nos cerca está em movimento, que nosso sistema social está nas últimas e que o desemprego não retrocede”, afirmou.
As empresas francesas afirmam que são reticentes em contratar empregados permanentes devido aos obstáculos que as impede de demiti-los em tempos de vacas magras.
Os jovens saem das universidades e terminam trabalhando com contratos temporários durante anos ou fazendo estágios com a esperança de conseguir um trabalho permanente.
A lei El Khomri flexibiliza as cláusulas para justificar demissões. A queda das vendas ou prejuízos de exploração seriam suficiente para despedir funcionários.
Embora o primeiro-ministro Valls diga que os jovens serão os que mais se beneficiarão da lei, as organizações juvenis têm sido mais claras em pedir seu abandono total.
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