A MINISTRA DA CASA Civil, Dilma Rousseff, foi abençoada pelo presidente Lula em alto-mar, a 77 quilômetros da costa brasileira. Com as mãos molhadas pelo óleo do pré-sal, extraído a 4,7 mil metros de profundidade, Lula ungiu as costas de Dilma, batizando-a com o que ele chama de “sinal de Deus” e “mais uma chance” para o Brasil reparar as dívidas históricas com os mais pobres. A unção, mais do que uma boa foto, consolida a imagem de Dilma, a candidata, que, já transformada pelo desejo de suceder o presidente da República, começa a surpreender. Na cerimônia que marcou o início da produção do primeiro óleo da camada pré-sal, no Campo de Jubarte, litoral do Espírito Santo, uma desenvolta Dilma comparou o Brasil ao Sítio do Picapau Amarelo. “Acho que nós voltamos ao Sítio do Picapau Amarelo. Aquele sítio era o Brasil. Sem dúvida nenhuma, a Petrobras achou petróleo atrás do galinheiro do sítio”. E, como o governo tem intenção de se apropriar do “galinheiro”, Dilma logo defendeu os recursos para a melhora da educação e da inclusão social.

A ministra-candidata recorreu a Monteiro Lobato por uma questão histórica. No livro O poço do Visconde, escrito em 1937, Lobato defendia a importância de se buscar petróleo no Brasil, o que era visto como uma utopia na época. O Visconde de Sabugosa iniciou os estudos geológicos e a turma decidiu cavar o primeiro poço. Emília exigiu a criação da Companhia Donabentense de Petróleo e fez o uso da mágica para conseguir sondas, brocas, tubos de revestimento, casas dos operários, um bangalô para mister Kalamazoo e até um especialista americano. A produção inicial de 500 barris por dia agitou a imprensa e Pedrinho disse a todos que fossem “ver, cheirar, provar o magnífico petróleo parafinoso do poço aberto no sítio de dona Benta”. Não dava para Dilma desperdiçar tanto sucesso e, quem sabe, ver seus companheiros defenderem a criação da Companhia Dilmense de Petróleo, para patrocinar as melhorias sociais.

Ocorre que o governo não pode recorrer à ficção de Lobato para retirar óleo do pré-sal de uma hora para outra nem na quantidade nem na qualidade que deseja. O festejado evento da produção do primeiro óleo do pré-sal é uma fábula. No Campo de Jubarte, cenário do enredo, a camada de sal é de 200 metros. No Campo de Tupi, com um volume estimado entre cinco bilhões e oito bilhões de barris de óleo, a dificuldade é bem maior: o petróleo está a mais de seis mil metros de profundidade e a camada de sal chega a dois quilômetros quilômetros de espessura. O desafio tecnológico é acompanhado do desafio econômico. Até agora, a Petrobras gastou R$ 1 bilhão para perfurar 20 poços na camada pré-sal. É bastante dinheiro, mas pouco comparado ao necessário para tornar a produção comercial. O analista do UBS Pactual Gustavo Gattass calcula que só na Bacia de Santos, onde fica o Campo de Tupi, o custo total da exploração e produção chegará a US$ 1,2 trilhão. Depois da cerimônia no Espírito Santo, Lula mencionou em vários discursos a emoção que sentiu ao tocar o petróleo que veio das profundezas e ironizou os críticos. Mas longe do sítio, na vida real, o governo precisa ser mais cauteloso para não afugentar o capital privado com suas declarações contra os acionistas estrangeiros da Petrobras e de fato transformar o petróleo do présal em desenvolvimento para o País. Mesmo se fizer tudo certo, os resultados vão demorar. “Em um cenário otimista os grandes resultados só devem sair em 2015”, diz Saul Suslick, professor de geologia e recursos naturais da Unicamp e um dos maiores especialistas brasileiros em economia do petróleo. “O pré-sal é uma nova fronteira. Há desafios tecnológicos enormes a serem vencidos e se desconhecem os custos”, diz.

Num cenário de incerteza sobre o preço do petróleo também é incerto até que ponto o petróleo do pré-sal é lucrativo comercialmente. Mas uma coisa é certa. As imagens da semana passada mostraram vários fotos de uma Dilma diferente, simpática e bem-humorada. Na foto ao lado, por exemplo, aparece tocando reco-reco num jantar de campanha para reeleição do prefeito João Coser, de Vitória (ES), com políticos e empresários. Foi ovacionada pelos presentes e recebida com gritos de Dilma presidente. A ministra ainda pode aproveitar outras notícias positivas. Os recursos liberados do PAC somaram R$ 1,7 bilhão em agosto, volume recorde no ano, às vésperas das eleições municipais. O governo também já conseguiu respirar mais aliviado com a deflação dos alimentos. O petróleo pode demorar, mas os frutos políticos já estão sendo colhidos. Mas a ministra Dilma olha para o futuro, o seu futuro, e olha para Jubarte. E aos poucos deixa o jeito de gerentona nada palatável da camarada Wanda nos tempos de guerrilha e se torna mais parecida com a dona Benta, de quem até a postura rígida é amável.