27/07/2005 - 7:00
O bordão da moda entre as elites brasileira é afirmar que tudo está dando tudo errado no governo Lula. Sobram até os que garantem que o governo acabou. Mas na noite de quinta-feira 21, contrariando o pessimismo, começou a operar uma no quarto andar do Palácio do Planalto uma usina ? ainda que modesta ? de boas notícias. Dilma Rousseff, 57 anos, que há quatro semanas vem ocupando o cargo de ministra-chefe da Casa Civil, surgiu no Salão Oeste do Palácio, ao lado do presidente Lula, para anunciar um pacote de medidas para aumentar a eficiência e a racionalidade no governo. Ela batizou sua iniciativa ?choque de gestão?. Anunciou, por exemplo, que vai fundir as secretarias da Receita Federal e da Receita Previdenciária (leia reportagem nessa edição). A medida de maior impacto, contudo, é a de cortar 70% dos cargos de confiança no governo, atingindo no coração (e no bolso) a militância do PT. Em números redondos, há na administração federal nada menos que 21.197 cargos de confiança, com salários entre R$ 3,6 mil e R$ 9,2 mil, no qual os ministros poderiam empregar quem bem entendessem, sem restrições. Há duas semanas, Dilma firmou uma aliança com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, para tentar passar a faca na administração. A maior parte dos ministros reagiu. Os líderes do PT no Congresso também foram ao Palácio protestar. Na terça-feira 19, Lula bateu o martelo. Dilma venceu. A partir de agora, o PT e os partidos aliados terão que se contentar em dividir entre si 6.939 cargos. Já é muito ? nos Estados Unidos, há mil cargos de confiança, na Inglaterra, 100. ?Quase 7 mil cargos é mais do que compatível com o exercício republicano de renovação do poder?, disse a ministra-chefe. Os demais 14 mil cargos de chefia serão mantidos, mas terão que ser preenchidos, obrigatoriamente, com funcionários de carreira. ?Vai haver alguma economia, mas o objetivo não é esse?, explica. ?Quero profissionalização, mudança no modo de gestão?.
Na mesma quinta-feira, foram consumadas outras trocas que reforçam o poder da ministra. Ela recusou-se a encampar a Secretaria de Comunicação, na qual teria o ex-ministro Luiz Gushiken como subordinado. Conseguiu empurrar o controle de verbas publicitárias para Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência. Outro ministro empossado na quinta, Nelson Machado, da Previdência, recebeu uma pasta esvaziada pela perda da máquina de arrecadação, transferida para a Receita Federal. O arranjo foi concebido por Dilma. Nesta segunda-feira 25, a ministra prossegue com sua pequena revolução. Vai anunciar que, a partir de agora, será obrigatório o pregão eletrônico para toda e qualquer compra de Estados, Municípios e de ONGs que recebem dinheiro federal. Os pregões têm produzido economias de até 15% no preço final. ?Há R$ 54 bilhões em jogo?, calcula Paulo Bernardo, ministro do Planejamento. Significa que a economia pode chegar a R$ 7 bilhões. A caneta de Dilma também pretende decretar limites de despesas de custeio (como passagens aéreas e diárias pagas a servidores em viagens a trabalho), um controle mais rígido do uso do cartão de crédito corporativo para despesas de funcionários do governo e a reformulação dos 300 programas sociais em andamento. Sua meta seguinte é fechar um acordo com o ministro Palocci para tocar investimentos em infra-estrutura, posto que estão quase todos parados. ?Estamos finalizando o nosso tempo de governo, estamos a um ano e meio do final do mandato?, explica Dilma. ?Temos de apertar o passo?. O objetivo da ministra é arrumar dinheiro para quatro projetos: Luz para Todos, Transposição do São Francisco, Gasoduto Urucu-Coari-Manaus e a reforma agrária. ?Essas medidas estão muito longe de um choque de gestão?, critica o economista Paulo Rabello de Castro, da PUC do Rio. ?O governo precisaria ter tido coragem de reduzir o número de ministérios e de começar a gastar com mais eficiência?, acrescenta Yeda Crusius, ex-ministra do Planejamento.
Dilma tomou o lugar de José Dirceu por escolha pessoal de Lula. O presidente a adora. Admira, sobretudo, sua fama de dura, intransigente e por vezes de chata. Sua ascensão está mudando o estilo de gestão da Casa Civil e por extensão do governo. Dirceu era centralizador e tinha fome de poder. Chegou a participar de inviáveis 82 grupos de trabalho. Dilma delegou a maior parte da rotina da Casa Civil para a secretária-executiva Erenice Guerra, proibiu a criação de novos grupos e deu ordens expressas para que os existentes encerrem rapidamente seus trabalhos. Dirceu tinha no mínimo 10 compromissos por dia. Dilma chega ao gabinete pontualmente às 8h30 e sai por volta das 23 horas, mas tem no máximo cinco encontros na agenda. Dirceu passava a maior parte de seu tempo em futricas políticas. Dilma acompanha Lula em todas as audiências. Dirceu organizou a Casa Civil com 535 cargos de comissão. Dilma só levou cinco pessoas da sua confiança e vai se livrar de todos os penduricalhos que conseguir, como, por exemplo, a gestão da política tecnológica e o Sistema de Vigilância da Amazônia. Dias atrás, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf encontrou Dilma em Brasília. Notou que estava muito mais serena e suave dos que nos tempos em que era ministra das Minas e Energia. ?A mudança lhe fez bem?, comentou Skaf.