DINHEIRO ? Qual será o maior desafio de Dilma na Presidência? 

LUIZ FERNANDO FURLAN ? Na minha opinião, será o de desempenhar um novo papel. Se estivéssemos numa empresa, eu diria que ela já foi o CEO e agora terá de ser o chairman da companhia. 

 

  

DINHEIRO ? São papéis muito diferentes? 


FURLAN ? Existem companhias nos Estados Unidos em que um executivo acumula o cargo de CEO com o de chairman. Na Europa, costuma haver uma separação maior. O CEO é aquele que entra em todas as questões operacionais, distribuindo responsabilidades e cobrando resultados. O chairman dedica-se aos aspectos estratégicos, políticos e de representação. Dá orientação sobre planos plurianuais, programas de dispêndios e investimentos, além de fiscalizar a gestão da companhia. 

 

  

DINHEIRO ? Na vida empresarial, na Sadia e na Brasil Foods, o sr. já foi chairman e CEO. O que é mais fácil? 


FURLAN ? Se fosse possível fazer uma analogia com o jogo de tênis, eu diria que o CEO é aquele que tem que rebater todas as bolas. O chairman é quem desenha uma estratégia para bater o adversário antes de entrar em quadra. Alguns podem achar que é mais simples rebater. Mas, às vezes, é mais complicado traçar a estratégia. 

 

  

DINHEIRO ? Ela terá então que encontrar um novo CEO? Ou uma nova Dilma?

 

FURLAN ? Uma pessoa que gerenciou o PAC durante tanto tempo já pôde observar várias pessoas. Sabe quem funciona e quem não funciona. Ela certamente irá contar com um bom time gerencial. 

 

  

DINHEIRO ? Ela saberá migrar da posição de CEO para a de chairman? 


FURLAN ? Quem passou oito anos no governo, nas posições que ocupou, já teve um grande aprendizado. É melhor do que qualquer doutorado em gestão. E as pessoas também amadurecem. Aprendem com acertos, erros e até pela observação. A Dilma de 2010 é muito melhor do que a Dilma de 2003. 

 

  

DINHEIRO ? Ela terá de delegar mais? 


FURLAN ? Isso é inevitável. No começo do governo, talvez até exista uma tendência à centralização. Mas com o passar do tempo ela irá perceber que as funções de Estado consomem muito tempo. Existem compromissos internacionais, a reciprocidade com os chefes de governo que vêm e a própria tarefa de coordenar uma base política multifacetada e fragmentada. 

 

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“Muita coisa pode ser feita na transição, como as concessões dos nossos aeroportos”

Terminal lotado em Guarulhos, SP

 

  

DINHEIRO ? Como o sr. imagina a divisão de espaços num governo Dilma? 


FURLAN ? Ela certamente tentará preservar as áreas mais importantes, que ficariam livres das negociações partidárias. 

 

  

DINHEIRO ? Que áreas seriam essas? 


FURLAN ? O caixa. Fazen-da e Planejamento, por exemplo, serão da cota dela. E o resto vai depender do que ela considerar mais estratégico. 

  

 

DINHEIRO ? O Banco Central, por exemplo? 

 

FURLAN ? O BC é diferente. É uma área independente. Não deve ter como chefe nem o presidente da República. 

 

 

DINHEIRO ? Ela manteria então a autonomia operacional do Banco Central? 


FURLAN ? Não vejo por que mexeria em algo que trouxe bons resultados nos últimos oito anos. No governo, a pressão por resultados é muito grande. Então, ninguém mexe no que dá certo. 

 

  

DINHEIRO ? E a Petrobras? 


FURLAN ? Nos últimos anos, ela praticamente viveu dentro da Petrobras e demonstrou grande apreço pelo setor de petróleo e combustíveis. Como ministra de Minas e Energia, era ela quem presidia o conselho de administração da Petrobras. E mesmo quando foi para a Casa Civil manteve o cargo. Ela tem pessoas de muita confiança no setor de energia, como a Maria das Graças Foster (diretora da área de gás e energia da Petrobras) e o Maurício Tolmasquim (presidente da Empresa de Planejamento Energético).

 

  

DINHEIRO ? Ela está efetivamente preparada para ser presidente?

 

FURLAN ? Muitíssimo preparada. Ela conhece bem a máquina. Além disso, o desafio de dar continuidade a algo que já existe e está dando certo é bem menor do que o de implantar coisas novas. 

  

 

DINHEIRO ? Com as eleições definidas, o sr. acredita que o governo voltará a tomar decisões importantes como, por exemplo, a concessão de aeroportos? 


FURLAN ? Acredito que sim e que muita coisa poderá ser feita já na transição. A Dilma não é contra o modelo de concessões e usou esse instrumento de forma muito eficiente para leiloar as linhas de transmissão de energia, no início do governo Lula. 

 

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“Na BRF, eu me afastei e a autoridade é do Fay. Lula deve fazer o mesmo”

José Antonio Fay, presidente da Brasil Foods 

  

 

DINHEIRO ? Isso mostra que ela é hoje uma pessoa mais pragmática? 


FURLAN ? No governo, as pessoas têm que ser pragmáticas. Se não chegam ao governo dessa forma, aprendem a sê-lo. A pessoa tem que usar os instrumentos que tem à mão e mostrar resultados. E a inação é a pior atitude, que pode gerar consequências ainda piores. No caso do setor elétrico, havia um diagnóstico claro: enquanto em algumas regiões do País havia sobra de energia, em outras faltava. Essa interligação do sistema, que chegou até a Argentina, foi crucial para afastar o risco de apagões.

 

  

DINHEIRO ? Que papel terão algumas pessoas no governo Dilma, começando, por exemplo, pelo Antônio Palocci? 


FURLAN ? Será extremamente importante. O Palocci é uma pessoa que, mesmo irritado, consegue continuar sorrindo. Acho que, no mínimo, ele será um grande conselheiro. 

 

  

DINHEIRO ? E o Henrique Meirelles? 


FURLAN ? O Meirelles é um sobrevivente, que foi alvo de muito fogo cruzado. Depois, os resultados apareceram e ele foi se transformando num nome de primeira grandeza da economia mundial. Hoje, ele é um protagonista não apenas no Brasil, mas na cena global. Eu só não sei se depois de oito anos no Banco Central ele vai querer continuar se dedicando à mesma função. Talvez queira um novo desafio no próprio governo. 

 

  

DINHEIRO ? Luciano Coutinho? 


FURLAN ? É outro que terá um papel muito importante. Ele chegou ao BNDES pouco tempo depois da minha saída do governo e fez um excelente trabalho. As críticas que hoje são feitas à atuação do banco são exageradas. O BNDES não define, apenas executa uma política de desenvolvimento, o que tem feito muito bem nos últimos anos. 

 

  

DINHEIRO ? Mas e os subsídios às grandes corporações? 


FURLAN ? Hoje, pouquíssimas corporações acessam diretamente o BNDES. A maior parte toma crédito para investir através dos bancos repassadores. Sobre a TJLP, que é de 6%, existe a margem do repassador. Na prática, é um crédito com uma taxa de juros real ainda alta. 

 

 

DINHEIRO ? Ele pode vir a ser presidente do Banco Central? 


FURLAN  ? O Luciano Coutinho tem o preparo técnico para isso e é comum, no governo, as pessoas exercerem funções diferentes. Eu convivi com o Guido Mantega como presidente do BNDES e depois como ministro da Fazenda. 

 

 

DINHEIRO ? A presidente Dilma também terá um desafio a partir de 2011, que é o de administrar sua relação com o ex-presidente Lula. Como isso deve ser feito? 


FURLAN ? Na verdade, o presidente Lula terá que se disciplinar para se descontaminar do poder, o que não é fácil. Ele mesmo tem dito que vai viajar durante uns seis meses. A meu ver, o papel de Lula terá de ser o de um conselheiro distante. E que só deverá estar com a nova presidente a pedido dela ? e não dele. É preferível que esses encontros, se acontecerem, sejam reservados. 

 

  

DINHEIRO ? O presidente Lula, no entanto, ainda tem um grande capital político. Como ele deve usá-lo? 


FURLAN ? Eu acredito que o coração dele bate pela África. Eu o imagino como um grande pregador na luta contra a fome, contra a injustiça e também em defesa da paz. 

  

 

DINHEIRO ? No mundo corporativo, que sucessões deram mais certo? 


FURLAN ? Há casos bem e malsucedidos. Na Nestlé, por exemplo, o Peter Brabeck soube se afastar e preparar o Paul Bulcke para ser o CEO. Aqui na Brasil Foods, eu e o Nildemar Secches (copresidente do conselho da companhia) decidimos que não teríamos nem sala na empresa. A autoridade é do José Antonio Fay, o presidente. Imagine o que aconteceria se nós estivéssemos lá do lado dando palpite? A autoridade do presidente seria questionada a todo momento. 

 

  

DINHEIRO ? Mas o Brasil está pronto para ter a Dilma no comando depois de um presidente tão carismático como o Lula? 


FURLAN ? Bom, o Brasil nunca vai eleger um outro Lula, assim como não vai existir um outro Pelé. A cada quatro anos, o Brasil vai eleger um presidente, não um Lula. E eu também não imagino que ele irá tentar voltar ao poder em 2014. Será que ele vai querer colocar em risco a própria glória?