03/12/2008 - 8:00
O uruguaio Gustavo Marin viveu sentimentos distintos no domingo 23. O primeiro foi de extrema alegria ao saber do novo pacote do governo americano para salvar o Citibank. O segundo, a decepção com o seu time, o Grêmio, que até a quinta-feira 27 tinha poucas chances de ser campeão brasileiro. Depois de uma semana turbulenta, em que a visita do CEO, Vikram Pandit, abriu caminho para especulações sobre a venda do banco, o presidente do Citi no Brasil recebeu a DINHEIRO. A serenidade dele provocava espanto uma semana depois de as ações da instituição, com US$ 2,05 trilhões em ativos, terem caído 60% em cinco dias. Marin classifica de “ataque especulativo ao sistema e ao Citi” o que ocorreu em Wall Street. E avisa que está colocando o Citi no campo de ataque.
DINHEIRO – Como o sr. avalia a semana pré-aprovação do novo pacote de socorro nos EUA?
GUSTAVO MARIN – Acho que foi um ataque especulativo no sistema financeiro global e no Citi. A evolução das ações não tem nada a ver com a capacidade de geração de receita nem com a solidez financeira do Citi. O banco foi impactado pela queda das ações, assim como todos os outros bancos sofreram esse ataque especulativo. No final de semana, o governo americano percebeu que o que estava em risco era a estabilidade do sistema financeiro global. E que esse é o pré-requisito para a retomada do crescimento econômico. O acordo mata de vez a boataria e os ataques especulativos contra o Citi.
DINHEIRO – Existia algum plano formado se não acontecesse o socorro no final de semana?
MARIN – Não mudou nada. Não tinha mudado absolutamente nada. O banco já tinha uma situação sólida de liquidez e de capital, porque nós levantamos mais de US$ 75 bilhões, sem incluir esse aumento de capital do final de semana retrasado. O Citi teve a clarividência e entendeu a dimensão da crise: em outubro emitimos capital porque sabíamos que era um ciclo longo e profundo. E levantamos US$ 50 bilhões de capital. Isso não inclui alguns ativos dos quais o banco decidiu se desfazer, como o banco nacional da Alemanha, que vai gerar outros US$ 10 bilhões. Esse valor foi somado aos US$ 25 bilhões que recebemos anteriormente do governo junto com JP Morgan, Bank of America e Wells Fargo. O nível de capitalização e de liquidez do banco hoje é invejável. É uma situação de liquidez das melhores do sistema.
DINHEIRO – De que maneira o Citi traça os próximos passos?
MARIN – Agora vamos fazer o nosso trabalho. Temos um plano de melhorar a eficiência da nossa base de despesas para adequá-la ao novo cenário, ou seja, de volume de negócio mais baixo. É o que todos os bancos internacionais estão fazendo. Um dos pontos do nosso plano, mostrado pelo sr. Vikran Pandit pelo mundo, é nos desfazer de ativos não relevantes na estratégia de banco global. O ataque especulativo levou as ações a preços irrisórios, e muita gente ganhou muito dinheiro com isso. Pessoas que conhecem o Citi ganharam muito dinheiro comprando porque sabem muito bem que o valor intrínseco dessa marca é de muitos múltiplos acima desse valor da ação.
DINHEIRO – Na semana passada, o que se comentou é que o sr. Pandit estava no Brasil para cumprir uma das partes do plano de socorro que seria dividir o banco pelo mundo. Essa possibilidade aconteceu?
MARIN – A visita estava marcada há mais de quatro meses. Temos um conselho de assessores e ele veio para jantar com eles. Também aproveitou e visitou clientes e autoridades do governo. Falou com funcionários e revisou os negócios. Saiu encantado com a franquia que tem aqui e com as oportunidades que ela oferece. As oportunidades de crescimento são muito boas. Quanto um banco com presença só nos EUA vai crescer no ano que vem? Se se mantiver “flat”, está no lucro. Mas o Citi trabalha em 109 países. E no Brasil vamos crescer dois dígitos no ano que vem. Essa turbulência vai criar muitas oportunidades para os bancos que conhecem os mercados. Por exemplo, muito banco que veio para o Brasil na euforia do dinheiro farto foi embora. Quem veio na euforia já não está mais aqui ou está indo embora. Muitos bancos e outros players estão estudando o seu modelo de negócio. Nós estamos maturando os investimentos feitos desde 2005 e vamos aprofundar alguns deles. Ou seja, vai faltar banco e nós vamos continuar expandindo o nosso negócio. Vai ser muito bom para nós
DINHEIRO – Como lidar com as especulações que colocam o Bradesco, o HSBC e o Banco do Brasil como potenciais compradores do Citi no País?
MARIN – Deixa falar. Tem uma frase em inglês que diz: “Os fatos falam mais alto que as palavras.” É isso que os nossos clientes e concorrentes vão ver: o Citi crescendo a cada dia, brigando por posição de mercado e para ser um melhor banco. Essa é a resposta a todas essas notícias..