05/05/2004 - 7:00
Aos 58 anos, o ministro José Dirceu de Oliveira e Silva viveu na semana passada a singular experiência da ressurreição. Dado como morto no governo desde o episódio Waldomiro, o chefe da Casa Civil voltou a público na segunda-feira 3 com uma exuberância de Lázaro. Primeiro em Santos, onde participou de um seminário, e depois em São Paulo, onde falou em uma reunião do Partido Popular, na quarta-feira 5, sobre um leque de assuntos econômicos que foi do meio ambiente à política de juros. Nas duas ocasiões distribuiu recados internos, deu explicações sobre o crescimento, discorreu sobre salários e impostos, fez promessas e cobrou os banqueiros de dedo em riste. Para quem tinha alguma dúvida, ficou claro que o gerentão do Planalto saiu da depressão e não mais se limitará a coordenar discretamente a ação dos ministérios. Assim como o famoso exterminador do filme de Schwarzenegger, Dirceu também voltou ? e parece ter debaixo do braço uma extensa agenda econômica.
Se na segunda-feira, em Santos, Dirceu fez sua sugestão mais polêmica ? desvincular o salário mínimo das contas da Previdência, para permitir percentuais maiores de aumento ? foi na quarta que o ministro se soltou. Parecia o Dirceu seguro do início do governo, quando circulava como primeiro-ministro e fazia contraponto de esquerda ao liberalismo da equipe de Antônio Palocci. ?A questão social não espera?, advertiu. ?Eu tenho dito, inclusive ao meu companheiro que cuida da área econômica, que a política econômica não é derro-
tada só pelos erros da economia. A crise social e a crise política também paralisam e derrotam a política econômica.? Foi um jeito elegante de reconhecer ? e de avisar a quem não tenha percebido em Brasília ? que o governo do PT não tem todo o tempo do mundo para fazer cumprir suas promessas de crescimento e distribuição de renda. Mas esse não foi o único recado do ministro. Houve outros:
. Dívida pública ? ?O serviço da dívida drena entre R$ 60 e R$ 70 bilhões do orçamento. Temos que buscar de maneira responsável, lenta, segura e gradual, chegar a um juro real de 6%. ?
. Sistema bancário ? ?O sistema bancário tem
que dar crédito com juros compatíveis com a rentabilidade da economia brasileira. Os bancos
têm de sair da Tesouraria.?
. Crescimento ? ?O Brasil precisa gerar empregos. Nosso povo tem paciência demais. A sociedade brasileira aceitará sacrifícios se o ?andar de cima? der o exemplo.?
. Estado de espírito ? ?Não estou nem chateado nem triste. Passei 23 anos lutando para ser governo, como posso estar abatido? Estou feliz.?
Os testemunhos de Brasília confirmam o renascimento. O repórter Adriano Ceolin, da equipe de DINHEIRO, apurou que o ministro está bem- humorado e segue muito exigente. Não deixa de reclamar dos erros dos colegas de ministério que vira e mexe são filtrados pela assessoria jurídica da Casa Civil. Seus dias também andam cheios. Na terça-feira, por exemplo, a agenda começou às 6h30 da manhã, quando o ministro deixou-se fotografar fazendo ginástica ? uma metáfora eloqüente do seu desejo de voltar à forma na vida pública. Feito isso, recebeu no gabinete a embaixadora do México, Cecília Gonzalez, e o diretor-geral da Telmex, Jaime Chico Pardo. Em seguida, despachou com o presidente Lula ? que o encarregou de tratar a delicada questão dos satélites militares brasileiros, que são controlados pela Embratel. Na mesma terça o ministro ainda recebeu seus colegas José Fristch, da Pesca, e Nicéia Freire, da Secretaria da Mulher. À noite encontrou-se com Carlos Lessa, presidente do BNDES.
O ministro tem participação diária em coletivos do governo, como a Câmara de Política Econômica, que se reuniu na quarta-feira. Dirceu, que é advogado e pós-graduado em economia pela PUC
de São Paulo, participa de 10 câmaras, além dos grupos de trabalho. ?O ministro está muito animado?, depõe Delúbio Soares, o secretário de Finanças do PT, que esteve com ele na sexta-feira.
É isso. Como o boêmio de Nelson Gonçalves, Dirceu voltou.