O publicitário Marcos Valério – preso e condenado por participar do  esquema do mensalão – afirmou ao juiz federal Sérgio Moro que desistiu  de participar da operação de repasse de R$ 6 milhões, em 2004, para o  empresário Ronan Maria Pinto, pedido pelo PT, por que soube de algo  ”muito grave”. O pagamento seria para encerrar suposta chantagem que  estaria sendo feita contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e  contra os ex-ministros José Dirceu e Gilberto Carvalho.

“O  que eu soube era muito grave”, afirmou Valério, ao falar sobre o que  descobriu sobre Ronan e a suposta extorsão. “O que eu fiquei, sabendo,  eu não gostei.”

Marcos Valério é réu na Lava Jato por ter  participado da lavagem de metade de um empréstimo fraudulento de R$ 12  milhões tomado pelo PT no Banco Schahin em nome do pecuarista José  Carlos Bumlai – amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A  dívida nunca foi quitada diretamente, mas sim com um contrato do  esquema de cartel e corrupção na Petrobras dirigido para o Grupo Schahin  de operação de um navio-sonda, usado para explorar petróleo em alto mar  - negócio de US$ 1,6 bilhões, fechado em 2009.

A  força-tarefa da Lava Jato afirma que metade dos R$ 12 milhões teria sido  enviada para Ronan Maria Pinto e outra metade para os publicitários  Armando Peralta e Giovanni Favieri, responsáveis pela campanha de Dr  Hélio, em Campinas (SP), ligados ao ex-governador Zeca do PT –  responsável por aproximar Lula e Bumlai.

O procurador da  República Diogo Castor de Mattos questionou detalhes sobre o que ele  sabia da suposta chantagem. “Vou pedir para não responder. O que eu  fiquei sabendo era muito grave e o senhor não vai poder garantir a minha  vida”, respondeu Valério.

Jornal

A  parte de Ronan, dono de empresas de ônibus do ABC paulista e condenado  por corrupção na prefeitura de Santo André, no governo do prefeito  assassinado em 2002 Celso Daniel (PT), teria sido usada na compra do  controle acionário do jornal Diário do Grande ABC e também para  aquisição de ônibus para suas empresas de transporte público coletivo.

Na  versão de Valério contada a Moro nesta segunda-feira, 12, ele foi  procurado em 2004 pelo ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira. Pivô do  primeiro grande escândalo de corrupção do governo Luiz Inácio Lula da  Silva, em 2005, o publicitário confirmou em depoimento a Moro que o  ex-secretário do PT teria pedido a ele para ajudar no repasse de R$ 6  milhões para o Ronan, que estaria fazendo chantagem.

As  ameaças seriam feitas contra Lula e os ex-ministros José Dirceu e  Gilberto Carvalho. Depois do pedido do petista, em que Silvio Pereira  teria indicado a empresa de ônibus de Ronan chamada Viação Santo André  para efetuar o repasse, Valério disse ter procurado o ex-deputado  federal José Janene, ex-líder do PP no escândalo do mensalão, morto em  2010 e origem da Lava Jato.

Janene estava na Bônus-Banval.  Segundo Valério, era Janene que tinha relação comercial com Enivaldo  Quadrado, dono da Bônus-Banval – corretora de valores envolvida no  mensalão. A Bônus seria usada para entrega de valores em espécie para o  PT.

O publicitário disse que Janene fez o contrato fictício  que assinou para repassar os R$ 6 milhões para uma empresa de Ronan,  chamada Remar. “Janene falou para mim, ‘procura saber que é esse cara'”,  disse Valério.

Informações

O  publicitário diz ter buscado informações sobre Ronan Maria Pinto e o que  ficou sabendo “não agradou”. “Chamei o Sílvio Pereira novamente, em  Brasília, logo que ele saiu do Palácio (do Planalto). É notório, se o  senhor pegar na quebra do sigilo telefônico na agenda do Palácio, eu  tive lá umas 600 vezes” afirmou.

Valério disse que Silvio  Pereira estava “maluco”. “Não vou fazer, não vou transferir e o assunto é  tão sério que eu acho o senhor deveria arrumar alguém de confiança do  senhor presidente para resolver esse assunto. Usei o termo ‘me inclua  fora disso”.”

Valério afirmou que depois da primeira  reunião, Silvio Pereira pediu para ele participar de uma reunião com  Ronan, em São Paulo. O encontro foi marcado pelo petista para ele  ”ganhar tempo” e ocorreu numa sala de reunião do subsolo do hotel  Mercure, onde estavam Ronan, Silvio ele e o jornalista Breno Altman –  ligado a Dirceu. Altman foi ouvido também por Moro como réu no processo.  Ele negou qualquer tipo de extorsão.

“Ele estava doido da  vida, com um radinho, falando com uma mulher. Ele queria pegar o  dinheiro para comprar o Diário do Grande ABC. E quem falou que ia  comprar o Diário foi ele mesmo”, explicou Valério. “Ali eu conheci o  Ronan Maria Pinto.”

Chantagem

O  publicitário afirmou que nesse encontro “tomou conhecimento” de que os  R$ 6 milhões eram para comprar metade do jornal do ABC, que “estava  criando muito embaraço para eles lá em Santo André. E, por isso, poderia  dar uma sossegada na vida deles lá.”

No depoimento desta  segunda ontem, Valério voltou a afirmar o que disse à Procuradoria Geral  da República em depoimento prestado no mensalão, em 2012. O  publicitário declarou saber que Ronan Maria Pinto estaria chantageando a  alta cúpula do PT, via Sílvio Pereira, entre eles o ex-presidente Lula e  o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, para não associar o grupo ao  assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel – morto em 2002.

O  caso Celso Daniel é um capítulo emblemático do PT. O então prefeito de  Santo André foi sequestrado e assassinado a tiros em uma estrada de  terra de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. O Ministério Público  Estadual afirma que ele foi vítima de crime político porque tentou  interromper o ciclo da corrupção em sua gestão quando descobriu que a  propina era destinada ao enriquecimento pessoal dos envolvidos. A  polícia, por sua vez, concluiu que o petista foi morto por “criminosos  comuns”.

O caso do assassinato não é alvo do processo penal  da Lava Jato, mas sim a operação de lavagem do dinheiro que foi  entregue à Ronan Maria Pinto (alvo da ação penal em que Valério foi  ouvido) e os motivos do pagamento (ainda em apuração em procedimento  criminal).

Delação

O procurador da  República insistiu na questão sobre o que ele descobriu a respeito de  ”quem era Ronan Maria Pinto” e o que fez desistir de participar do  repasse de R$ 6 milhões. “O que eu descobri é muito sério e eu não  queria me envolver. Vou pedir para não responder essa pergunta? por que?  Porque é um assunto muito grave e eu estou preso em uma penitenciária”,  disse Valério.

No final do depoimento, o Moro questionou  Valério se ele queria dizer algo. “Eu gostaria de me dirigir ao  Ministério Público. Eu estou em um processo em Belo Horizonte aonde três  procuradores, nos estamos conversando, são pessoas sérias. E estamos  num processo de delação excelência, e claro deixar claro para o  Ministério Público, o que precisar e o sr. achar que nós somos úteis nos  estamos dispostos a sentar e conversar.”

“Não vou dizer  mentiras aqui”, afirmou Valério. “Eu sei o que é ser condenado, sei o  que é cumprir pena e eu sei o que é fechar uma cadeia todo dia às seis  horas”, finalizou Valério.