11/04/2026 - 10:10
Setores linha-dura querem seguir em guerra, enquanto outra ala busca solução. Negociações no Paquistão começam neste fim de semana.Negociadores iranianos e americanos se reúnem neste fim de semana em Islamabad, capital do Paquistão, para tentar consolidar o cessar-fogo de duas semanas acordado por ambos os lados após quase seis semanas de guerra.
O encontro entre Teerã e Washington ainda estavam por um fio na sexta-feira (10/04), com a continuidade dos ataques de Israel ao Líbano, país que abriga o Hezbollah, grupo militante xiita apoiado pelo Irã. A ofensiva israelense, que ocorreu após o anúncio da trégua, deixou mais de 300 mortos em território libanês.
Além disso, o Irã tampouco reabriu completamente o Estreito de Ormuz, gargalo crucial para o comércio global, pelo qual cerca de um quinto do petróleo mundial e aproximadamente um quarto das remessas de gás natural passavam antes do início da guerra.
Publicamente, o Irã tem abordado as negociações com cautela. Na superfície, as condições de guerra criaram a impressão de um regime unificado, mas, internamente, há sinais de tensão.
Algumas vozes da ala linha-dura parecem acreditar que o Irã detém agora a vantagem e deveria avançar, em vez de fazer concessões. Já aqueles que defendem uma trégua e um acordo de paz duradouro correm o risco de serem rotulados pejorativamente como conciliadores.
Um sistema fragmentado
A tensão ficou visível no comunicado divulgado pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã após o anúncio do cessar-fogo temporário.
Sem citar nomes, o texto apelou a todas as partes para que evitassem semear divisões, um sinal de que a liderança teme rachaduras dentro do regime.
No passado, o gabinete do líder supremo costumava ser capaz de resolver esse tipo de disputa, mas o cenário atual é mais nebuloso.
O aiatolá Mojtaba Khamenei, que sucedeu o pai, Ali Khamenei, como líder supremo depois que ele foi morto em um ataque aéreo no primeiro dia da guerra, permanece ausente da vida pública, alimentando especulações.
A ausência de um mediador central, capaz de reunir as inúmeras facções do regime, corre o risco de transformar divergências táticas em algo mais desestabilizador, afirmam observadores.
A linha-dura quer a guerra
O risco mais evidente para o cessar-fogo vem de dentro do próprio regime. São figuras que consideram a continuidade do confronto mais útil para si do que um possível acordo para o fim dos conflitos.
Um ativista político no Irã, anteriormente ligado ao campo reformista, mas que hoje se descreve como independente, disse à DW que o governo teme que setores da linha-dura adotem uma postura cada vez mais rígida e passem a desafiar um Estado já enfraquecido, que carece de capacidade organizacional.
Segundo ele, nos últimos dias, as autoridades distribuíram armas entre forças leais, por temerem distúrbios populares. “Eles têm medo de uma revolta popular”, afirma, acrescentando que até “crianças de 12 e 13 anos” podiam ser vistas entre os arregimentados.
A mobilização também dificulta a defesa do acordo internamente, pois os termos da negociação correm o risco de serem vistos como rendição – e não como necessidade.
A própria história do Irã dá indícios disso. Após a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, pessoas que apoiaram o fim do conflito foram atacadas durante anos como traidores, que teriam impedido a vitória, embora o então líder supremo, aiatolá Ruhollah Khomeini, tenha aceitado o cessar-fogo.
Outro grande obstáculo são os reflexos ideológicos do regime dos aiatolás.
Nos últimos dias, vozes de dentro do próprio establishment tentaram vincular os ataques persistentes de Israel ao Líbano a qualquer futuro entendimento entre Teerã e Washington.
Não está claro se essas declarações são tentativas deliberadas de enfraquecer as chances de que Irã e Estados Unidos cheguem a um acordo durante as próximas negociações.
Diferenças cada vez maiores no Irã
Ainda assim, existem também forças dentro do sistema que parecem ter fortes razões para preservar o cessar-fogo.
O ativista político Reza Alijani diz à DW que tanto o Paquistão, publicamente, quanto a China, nos bastidores, tiveram uma participação ao incentivar Teerã em direção ao acordo.
Na avaliação dele, porém, a pressão decisiva veio das próprias limitações do Irã. “A república islâmica ainda dispõe de capacidade militar”, afirma, “mas é pouco provável que tenha capacidade econômica para sustentar uma guerra longa”.
Esse descompasso, argumenta Alijani, aprofundou a divisão entre o braço militar do sistema e sua ala político‑executiva. “Essa cisão está afetando a tomada de decisões e ajudará a moldar o futuro”, ressalta.
O que é preciso para que haja paz duradora?
Babak Dorbeiki, ex‑vice‑diretor para assuntos sociais e culturais do Centro Estratégico de Pesquisa do Irã, afirmou que um cessar‑fogo duradouro só será possível se as negociações forem além da gestão de crises de curto prazo.
“Isso só pode acontecer se as negociações em Islamabad passarem da gestão de crise para a uma mudança na estrutura do relacionamento”, diz.
Dorbeiki também acredita que, para uma paz duradoura, Teerã precisará abandonar o confronto ideológico, construir um marco regional de segurança e redefinir seus interesses internos, de modo que “a sobrevivência do regime não dependa mais da tensão externa”.
Isso, porém, não será fácil de concretizar, ressalta, já que alguns setores da liderança iraniana veem o confronto externo como útil para fortalecer sua posição interna.
Diante desse contexto, para que uma trégua frágil se transforme em uma paz duradoura, será necessário não apenas um acordo entre Irã e Estados Unidos, mas também a adesão de todos os atores que detêm poder dentro do regime.