montagem sobre foto de ap photo/charles dharapak

TIMOTHY GEITHNER
Desafio maior do secretário é reequilibrar as contas depois do socorro aos bancos

GUIDO MANTEGA
Reunião com banqueiros reforçou a percepção de que o Brasil foi um dos países menos atingidos

Foram exatos 45 minutos, na quartafeira de manhã, no prédio vizinho à Casa Branca. Tempo suficiente para que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário de Tesouro americano, Timothy Geithner, trocassem avaliações sobre a crise, seus efeitos em cada país e os próximos passos para sair dela. Os dois concordaram que as medidas anticíclicas para estimular a economia deveriam continuar, embora o pior da crise já tenha ficado para trás.

“Concluímos que é preciso continuar porque ainda não conseguimos resolver todos os problemas causados pela crise”, disse o ministro Mantega à DINHEIRO, por telefone (leia entrevista à página seguinte). Geithner ouviu com atenção as explicações de Mantega sobre o que o Brasil fez para sair da crise. Os dois também conversaram sobre a nova arquitetura do sistema financeiro internacional.

Contrariando a tradição americana de liberdade econômica e as expectativas do mercado, Geithner apoia a ideia brasileira de aumentar a regulação do sistema para evitar uma nova crise, com limitação do mercado de futuros e a criação de câmaras de compensação, onde o investidor depositaria uma garantia antes de uma operação.

“Não podemos deixar vulnerabilidades que vão plantar as sementes de crises futuras”, disse o secretário americano num discurso no Comitê de Assuntos Financeiros da Câmara dos Deputados americana. Na reunião com Mantega, Geithner disse que vai apoiar a proposta que será levada pelo Brasil à reunião presidencial do G-20, no fim de setembro em Pittsburgh, nos Estados Unidos.

É da reunião do G-20 que deve sair esta nova agenda. Geithner também concordou com a proposta brasileira de reformar a composição acionária do FMI, para aumentar a participação dos emergentes. Embora concordem que o pior da crise já passou e que a ação do Estado como indutor da atividade econômica, deve continuar, Brasil e EUA já pensam no passo seguinte. Geithner lembrou que não se deve contar com os EUA como motor da economia mundial, já que o país precisa diminuir as importações.

“A recuperação não vai ser forte o suficiente para se sustentar a menos que consigamos convencer o povo americano de que precisamos reduzir os déficits quando a retomada estiver firmemente estabelecida”, afirmou Geihtner no fim de semana. O PIB do segundo trimestre, divulgado no fim de julho, já mostra os primeiros sinais dessa mudança. A recessão perdeu o ritmo – de uma queda anualizada de 6% para uma queda de 1% – com a redução do consumo das famílias, apesar do aumento da renda disponível.

Um sinal de que o padrão de consumo via endividamento, que sustentou o crescimento nos anos anteriores à crise, pode ter chegado ao fim. Os gastos do governo continuaram em alta e as exportações já mostraram queda menor do que as importações. No novo padrão, os países mais beneficiados são os que têm grandes mercados domésticos, como Brasil, China e Índia. Mas há limites ao comércio internacional, que deve recuar 10% este ano.

roberto castro/ag. istoé

FOCO NO G-20 Mantega e Geithner dizem que o G-20 é o foro adequado para propor o novo desenho financeiro

Mesmo com as mudanças, ainda deve demorar um bom tempo até que os EUA consigam colocar as contas em ordem. Um estudo do FMI mostra que o déficit fiscal americano deve ficar em 13,5% do PIB, melhorando para 9,7% em 2010 e 4,7% em 2011. Já no Brasil, a projeção é de um déficit de 3,2% este ano, melhorando para 1,3% em 2010 e 2011.

Na viagem a Washington, Mantega também se encontrou com um grupo de 50 investidores. O ministro garantiu que o Brasil vai cumprir o superávit primário de 3,3% do PIB em 2010, apesar de ter reduzido o índice este ano, para bancar as desonerações. Lembrou ainda que o Brasil ainda tem o Fundo Soberano, com um saldo de R$ 15 bilhões da sobra de caixa do ano passado, ainda época de vacas gordas, e que pode ser usado para completar os investimentos deste ano.

“Ainda há muita coisa a resolver”
Em entrevista à DINHEIRO, o ministro Guido Mantega falou dos próximos passos no combate à crise

roberto castro/ag. istoé

“Os EUA não serão mais o motor do consumo mundial. Países que têm mercado interno, como o Brasil, serão favorecidos”

DINHEIRO – Como foi a conversa com Geithner?
GUIDO MANTEGA –
Boa. Fizemos uma avaliação da economia mundial e chegamos à conclusão que a crise, na sua fase mais aguda, está superada.

DINHEIRO – E qual é a agenda póscrise?
MANTEGA
– Concordamos sobre a importância de reforçar as políticas anticíclicas, porque tem alguns analistas dizendo que devíamos, já, parar de fazer política anticíclica, pensar nas consequências das políticas, nos prejuízos. Nós chegamos à conclusão que é preciso, sim, continuar fazendo, porque ainda não conseguimos resolver todos os problemas causados pela crise.

DINHEIRO – E como é a política anticíclica, neste momento de retomada da atividade?
MANTEGA –
Ela tem que ser dosada de acordo com cada país. Não é o mesmo remédio para todos, porque a doença se manifesta de forma diferenciada. Os americanos ainda têm que resolver o problema do setor habitacional, as construções comerciais que estão encalhadas, ainda têm um longo caminho a percorrer. Nós não temos este problema e vamos sair mais rapidamente e mais fortalecidos. Discutimos a reunião do G-20, daqui a um mês, e a necessidade de preparar uma agenda para o encontro. As questões mais importantes são a reforma dos mecanismos internacionais. É preciso fortalecer o Fundo Monetário e o Banco Mundial para que eles tenham mais mecanismos de ação, e maior participação, em voto, dos países emergentes.

DINHEIRO – Como o Brasil vai lidar com questões como câmbio, desequilíbrio fiscal e comércio mundial?
MANTEGA –
O Brasil conseguiu manter um mercado consumidor forte e com isso a nossa taxa de crescimento não caiu e vai ser estimulada justamente por isso. Vai continuar a dificuldade em aumentar as exportações porque os outros países não melhoraram. É um segmento que vai continuar mais sofrido.

DINHEIRO – O protecionismo ainda é um risco?
MANTEGA
– De fato, nós conseguimos nas reuniões anteriores evitar que os países enveredassem por uma política protecionista. Manteve-se o espírito de cooperação, a abertura dos mercados. Mas, inevitavelmente, os países vão ter que se voltar mais para seus mercados internos. Eles disseram que os Estados Unidos não vão ser mais o grande consumidor do mundo. Não podem continuar tendo um déficit de transações correntes. Eles vão tentar importar menos e exportar mais. Significa que a China vai procurar direcionar sua produção mais para o mercado interno, o Brasil, a Índia também. Quem tem mercado interno ficará numa situação mais favorável do que quem não tem.

DINHEIRO – A política anticíclica se deu muito com a desoneração de impostos e isso já tem prazo para acabar. Como vai ser esta nova fase na saída da crise?
MANTEGA
– Fizemos uma parte da política que é monetária e a parte fiscal vai sendo graduada de acordo com a necessidade. Não é correto dizer que esgotamos a política fiscal. Recentemente, baixamos taxas de juros para investimento, com equalização do Tesouro. Continuaremos fazendo política fiscal enquanto for necessário.