03/03/2026 - 17:48
Após se aproximar dos R$ 5,35 no início da tarde, o dólar perdeu força no Brasil e fechou a terça-feira, 3, em patamar mais baixo, mas ainda assim com forte alta ante o real, na esteira do acirramento do conflito entre EUA e Irã. O dólar à vista encerrou a sessão com alta de 1,91%, aos R$ 5,2639.
Esse foi o maior avanço percentual em um único dia desde os 2,34% de 5 de dezembro do ano passado — dia em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi lançado como candidato à Presidência. Em 2026, o dólar à vista acumula agora queda de 4,10%. Às 17h21, o dólar futuro para abril — o mais líquido no mercado brasileiro — subia 1,67% na B3, aos R$5,3035.
Na segunda-feira uma autoridade de alto escalão da Guarda Revolucionária Iraniana disse que o país pretende disparar contra qualquer navio que tentar passar pelo Estreito de Ormuz — onde circulam diariamente cerca de 20% do petróleo mundial. Já o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira que é “tarde demais” para negociar com o Irã, reforçando a perspectiva de continuidade do conflito iniciado no sábado, que envolve Israel do lado norte-americano.
A reação nos mercados globais foi de alta forte do petróleo e fuga dos investidores de ativos mais arriscados, como ações, moedas e títulos de países emergentes, em meio aos receios de que o conflito possa reduzir o crescimento e acelerar a inflação.
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No Brasil, o dólar à vista marcou a cotação máxima de R$ 5,3444 (+3,47%) às 12h20, em um momento em que a bolsa brasileira estava nas mínimas do dia. Profissionais consultados pela Reuters afirmaram que a disparada de ordens de stop loss (parada de perdas) no mercado de câmbio intensificou em vários momentos do dia o avanço do dólar, com investidores vendidos em dólar (esperando a queda das cotações) fechando posições.
O avanço do dólar ante o real esteve em sintonia com a disparada da moeda norte-americana ante outras divisas de emergentes, como o peso chileno e o peso mexicano. “O investidor precisa cobrir posição lá fora, (então) ‘vende emergente’. É o movimento clássico de aversão ao risco”, comentou durante a tarde Fernando Bergallo, diretor da assessoria FB Capital.
“O mercado está revertendo toda aquela inclinação a risco que trouxe o dólar para R$5,13. Mas espero que seja transitório”, acrescentou.
Profissionais ouvidos pela Reuters ponderaram que os desdobramentos do conflito no Oriente Médio ainda são bastante incertos, o que dificulta quaisquer projeções sobre o dólar e as taxas de juros no curto prazo. No mercado de DIs (Depósitos Interfinanceiros), as taxas dispararam nesta terça-feira, na esteira da busca dos investidores por ativos de menor risco.
“Com o petróleo em alta, crescem as preocupações com inflação global. Isso faz os investidores reverem expectativas de cortes de juros e adotarem uma postura mais defensiva”, disse Jucelia Lisboa, sócia e economista da Siegen Consultoria, em comentário por escrito.
“Em momentos como esse, normalmente, o mercado reduz a exposição a ativos de risco, como ações e moedas de países emergentes, e busca proteção em ativos considerados mais seguros, como o dólar.”
Durante a tarde, em meio à forte pressão de alta para a moeda norte-americana, o Banco Central do Brasil anunciou e cancelou logo na sequência dois leilões de linha (venda de dólares com compromisso de recompra), alegando um erro técnico.
No exterior, às 17h14, o índice do dólar — que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas — subia 0,47%, a 98,979.
Nova alta no petróleo
O petróleo fechou em alta acima de 4% nesta terça-feira, minimizando ganhos depois de saltar acima de 9% pela manhã. Negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex), o petróleo WTI para abril fechou em alta de 4,7% (US$ 3,33), A US$ 74,56 o barril. Já o Brent para maio subiu 4,7% (US$ 3,66), a US$ 81,40 o barril, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE). Mais cedo, ambos renovaram os maiores níveis desde junho de 2025 e de julho de 2024.
Impactos na economia global
Hoje, Dan Katz, número dois do Fundo Monetário Internacional, disse que o impacto da guerra no Oriente Médio sobre a economia global dependerá de sua duração e dos danos causados à infraestrutura e às indústrias da região, especialmente se os aumentos nos preços da energia forem de curta duração ou persistentes. Se houver incerteza prolongada devido ao conflito e um impacto prolongado nos preços da energia, “eu esperaria que os bancos centrais fossem cautelosos e respondessem à situação à medida que ela se concretizasse”, disse.
Katz disse que o conflito pode ter “um impacto muito grande na economia global em uma série de indicadores, seja inflação, crescimento e assim por diante”, mas ainda é cedo para ter uma convicção firme. Antes dos ataques aéreos dos EUA e de Israel ao Irã e dos contra-ataques em toda a região, o FMI havia previsto um sólido crescimento do PIB global de 3,3% em 2026, superando as perturbações tarifárias devido, em parte, ao contínuo boom de investimentos em IA e às expectativas de ganhos de produtividade.
Katz disse que o impacto econômico do conflito no Oriente Médio seria influenciado por sua duração e por novos desdobramentos geopolíticos. Mais cedo, o FMI disse que estava monitorando as perturbações do conflito no comércio e na atividade econômica, o aumento dos preços da energia e o aumento da volatilidade do mercado financeiro. “A situação continua altamente instável e contribui para um ambiente econômico global já incerto”, afirmou o Fundo em comunicado divulgado em Washington.
Juros nos EUA
Operadores estão reduzindo suas expectativas de cortes na taxa de juros este ano pelo Federal Reserve diante dos temores de que os efeitos inflacionários do aumento nos preços da energia compliquem a trajetória da política monetária do banco central dos Estados Unidos.
Os preços do petróleo bruto subiam pela terceira sessão consecutiva, à medida que o conflito entre os EUA e Israel com o Irã se intensifica, interrompendo o transporte de combustíveis e aumentando os temores de novas interrupções no fornecimento de petróleo e gás do Oriente Médio.
Os contratos futuros indicam uma probabilidade de 30,7% de um corte de pelo menos 25 pontos-base na taxa de juros em junho, abaixo dos 49,6% da semana passada e dos mais de 56% de um mês atrás, de acordo com a ferramenta CME FedWatch. Na semana passada, os operadores esperavam que junho fosse o mês em que o Fed retomasse seu ciclo de cortes após a última redução em dezembro, mas agora veem uma chance de 47,2% de um corte em julho.
Analistas do Goldman Sachs estimaram em uma nota na segunda-feira que um aumento sustentado de 10% nos preços do petróleo eleva o núcleo do índice de preços ao consumidor em 4 pontos-base e o número cheio em 28 pontos-base. Os operadores espera um afrouxamento monetário de cerca de 42 pontos-base até dezembro, o que implica um corte de 25 pontos este ano, com um segundo ainda incerto.
