09/07/2008 - 7:00

QUANDO A PETROCHINA Alcançou o histórico valor de mercado de US$ 1 trilhão, em outubro do ano passado, desbancando empresas históricas do setor petrolífero, poucos se lembraram que, meses antes, a Bolsa de Xangai havia registrado perdas históricas. Em fevereiro de 2007, seu principal índice escorregou quase 9%, a maior queda em dez anos. A disparada nos preços da PetroChina, uma companhia listada apenas internamente e que tinha como compradores os novos aventureiros do mercado financeiro chinês, era o retrato de uma bolha prestes a estourar. Desde o início do ano, a Bolsa de Xangai encontra-se em declínio, com perda de 59% no primeiro semestre (confira gráfico). A PetroChina, por sua vez, vale apenas um terço do que valia quando ultrapassou a americana ExxonMobil. O que aconteceu?
Aparentemente, aconteceu o temido ajuste do mercado real. Em outras palavras, a bolha estourou. “Houve uma corrida insana por papéis chineses que não valiam na prática o que as companhias registravam em seus balanços”, diz Edward Chancellor, analista do fundo de investimentos britânico GMO Asset Allocation. Por esse prisma, o que faz o melhor dos mercados, que cresceu 130% em 2006 e 97% em 2007, tornar-se o pior de todos? A resposta é uma combinação de tudo o que tem afetado a banca internacional com a ingerência do governo sobre o capital especulativo. Cotação alta do petróleo, incerteza em relação aos mercados tradicionais e inflação galopante são itens obrigatórios em qualquer análise financeira. Somem-se a isso as tentativas estatais de controlar os ganhos mínimos dos investidores e a enxurrada de IPOs suspeitos e teremos a receita para o desempenho abominável da bolsa chinesa.

A Bolsa de Xangai tem algumas peculiaridades. Em princípio, é largamente dominada por investidores locais. Estrangeiros não podem comprar papéis no país – só em Hong Kong. A PetroChina disparou em decorrência do apetite de uma nova geração de chineses famintos pelos lucros rápidos do mercado financeiro. O problema é que a estatal não conseguiu acompanhar a demanda pelo produto e passou a apresentar resultados desanimadores. O governo, então, reajustou o preço da gasolina em 17% e o do diesel em 18%. Isso ajudou a recuperar a margem perdida pela política subsidiada de preços, mas ainda não é o suficiente para recolocar a empresa no primeiro lugar do ranking das mais valiosas.
Outra característica do mercado financeiro chinês é a alta volatilidade. Cair muito em um único dia pode ser normal. É por isso que a Comissão Reguladora de Valores da China, a CVM de lá, está sob pressão para interromper as constantes quedas. Uma das propostas em estudo é aumentar os preços dos papéis atuais suspendendo a aprovação de novos IPOs, numa tentativa de enxugar o mercado. “Nosso piso extra-oficial é de dois mil pontos”, afirma Mary Ma, operadora da bolsa chinesa. “Qualquer volume registrado abaixo disso deverá ser acompanhado por medidas governamentais.” Estranhamente, ao contrário do que ocorreu em 2007, o Ibovespa não tem acompanhado as oscilações de humor de Xangai. Na maior queda registrada em 2008, quando um solavanco fez o índice chinês despencar 8,3%, em junho, a Bolsa de São Paulo recuou apenas 0,34%. Sinal de que houve um descolamento? Nem tanto. Ao Brasil, fornecedor de commodities como minério de ferro e soja para a China, interessa acompanhar de perto o que acontece na economia real. Quando a turbulência se restringe à Bolsa de Xangai, o mercado não liga muito. “Um problema na bolsa chinesa causa mal-estar, mas não muda a história”, afirma Walter Mendes, superintendente de renda variável do Itaú. “Um problema econômico, do tipo inflação, que provoque alta dos juros, com reflexo sobre o crescimento, sim.”
