10/05/2006 - 7:00
Quarta-feira 3, sede de Volkswagen em São Paulo. O presidente da empresa no Brasil, Hans-Christian Maergner, anuncia o plano de reestruturação da montadora, que prevê a redução de 40% nas exportações em três anos. Ele justifica a medida pela desvalorização do dólar, que teria prejudicado as vendas externas.
Quarta-feira 3, sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. O presidente da entidade, José Lopez Feijóo, comanda uma assembléia para discutir um programa de demissão em massa sem precedentes na história da indústria automobilística brasileira.
Os dois assuntos estão diretamente ligados. Maergner, em sua reunião, não falou em cortes. Mas Feijóo garante que os executivos da empresa, os trabalhadores e o sindicato foram informados sobre a demissão de 5.773 empregados até 2008. O número equivale a 27% da força de trabalho da companhia. ?É irresponsável falar em números agora e não confirmamos essa informação?, disse o presidente da Volks. Mas Maergner admitiu que a medida de reduzir 40% das exportações resultará em corte de produção de 100 mil veículos, o que exigirá ?ajustes? na mão-de-obra. Também não está descartado o fechamento de uma das fábricas ? a Volks tem cinco unidades no Brasil (três para carros, uma de caminhão e outra de motores). ?O câmbio nos obrigou a mudar os planos?, informou o presidente da montadora.
De fato, a Volks é a montadora mais comprometida com vendas externas, que responde por 42% da sua produção. Quando optou pelo modelo exportador, em 2001, o dólar valia cerca de R$ 3,00, hoje está na casa dos R$ 2,00. ?Se o problema fosse o câmbio, a Volks não estaria demitindo 20 mil funcionários na Europa?, argumenta Feijóo. ?Isso é parte de uma reestruturação que ela quer fazer em todo o mundo às custas de milhares de trabalhadores?.
É fato que a questão cambial é prejudicial aos exportadores. Por outro lado, há compensações. Nunca a indústria produziu tanto carro como no ano passado. O mercado interno está aquecido e mesmo o câmbio desvalorizado não impediu que as exportações avançassem. O que acontece, então, com a Volkswagen? Quem acompanha o setor apresenta uma lista de motivos para explicar a queda de desempenho de uma das maiores montadoras do mundo. A falta de renovação de modelos é uma delas. Feijóo aponta essa como uma das principais razões da crise da Volks. Segundo ele, a empresa se preocupou em abrir plantas, quando deveria produzir modelos inovadores para competir num mercado que vive de lançamentos. Mas o recém-lançado Fox não é um sucesso? ?Sim, agora aponte outro lançamento da Volks. Às vezes eles tem uns lampejos que dão certo, como o Fox?, afirma o consultor José Roberto Ferro, presidente da Lean Institute, especializada no mercado automotivo.
O consultor também faz críticas ao planejamento da montadora. Ele cita como exemplo de investimento ?errado? o aporte de US$ 1 bilhão na ampliação da fábrica de São Bernardo do Campo para produzir o Polo, carro que não chega nem a 10% das vendas do Fox. Outro tropeço foi a construção da fábrica de São José dos Campos, erguida em 1999 para fazer o Audi A3 e o Golf. Resultado: o primeiro modelo não é mais produzido no País e o Golf, que amarga queda de 21,2% nas vendas nos primeiros quatro meses do ano sobre igual período de 2005, precisa ser reestilizado. A Volks sabe disso e deve dar uma resposta em breve. Hoje a unidade também produz o Fox que é vendido no mercado interno.
Os problemas, segundo Ferro, não páram por aí. ?Há questões crônicas como a disputa interna de cargos, muita burocracia e lentidão nas decisões, que impedem a implantação de um modelo de gestão moderno. A Volks parece uma empresa pública?, diz o consultor. Isso tudo afeta diretamente a produtividade da empresa, que, hoje, é cinco vezes menor que a da montadora do momento, a japonesa Toyota. A lista de más notícias é longa, mas a Volkswagen não puxou o freio de mão. O Gol continua sendo um fenômeno, pelo 19º ano é o carro mais vendido no País, e o Fox, um modelo 100% brasileiro, responde por um terço do volume de exportações da empresa e é o quarto carro mais vendido no Brasil. Com o lançamento do Crossfox, há um ano, a família Fox detém 7% de participação do mercado total de carros em apenas dois anos de vida.
A reestruturação que a empresa tenta emplacar agora já se arrasta há cinco anos. Em 2001, ela tentou cortar 4 mil funcionários em São Bernardo do Campo e o sindicato conseguiu reverter a situação em favor dos trabalhadores, negociando cinco anos de estabilidade. Dois anos depois, abriu o programa de demissão voluntária e conseguiu a adesão de 3 mil empregados. Agora, a nova ofensiva da Volks promete ter forte reação. ?Não vamos aceitar essas demissões sem muita briga?, garante Feijóo. Talvez desta vez, a Volks jogue mais duro. Quando assumiu a filial brasileira em 2004, Maergner deu seu recado. ?Garantia de emprego não haverá mais, só sobre o meu cadáver?. É uma boa briga.
100 mil carros deixarão de ser produzidos pelo grupo. É parte do plano de reestruturação