30/07/2008 - 7:00
EM 2003, EM CANCÚN, quando a diplomacia brasileira articulou a criação do G20, bloco dos emergentes, os países ricos culparam o Brasil pelo impasse nas negociações da Rodada de Doha de liberalização do comércio. No ano passado, em Postdam, na Alemanha, novo fiasco. A reunião da semana passada, em Genebra, onde fica a Organização Mundial do Comércio, seguia pelo mesmo rumo. E, novamente, o chanceler Celso Amorim era o bode expiatório. Tudo começou no fim de semana anterior, quando ele se descuidou e citou o chefe de propaganda nazista Joseph Goebbels. Ao dizer que “uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade” e criticar o que considerou manipulação dos fatos por parte dos ricos, Amorim cometeu uma tremenda gafe, já que a negociadora americana, Susan Schwab, é descendente de sobreviventes no Holocausto. Desculpas pedidas e aceitas, a negociação continuou em clima de impasse. Países em desenvolvimento querem redução dos subsídios agrícolas, enquanto os ricos reivindicam abertura industrial. E, apesar do esforço despendido esta semana, o próprio governo brasileiro está dividido sobre a importância da Rodada de Doha. Enquanto Amorim passou as madrugadas em reuniões em Genebra, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, disse em Brasília que o acordo “não serve para nada”. No cenário atual de preços agrícolas em alta, Stephanes acha que um acordo para acabar com os subsídios é inócuo. De fato, a oferta americana de teto agrícola de US$ 15 bilhões é bem maior do que a previsão real de gastos neste ano, de US$ 8 bilhões. O Itamaraty pensa diferente. Acha que é importante ter um marco jurídico para o futuro, para quando os preços agrícolas recuarem. Outro ponto defendido pelo Brasil é a inclusão do etanol como produto ambiental, pela contribuição à mudança climática. O combustível ficou de fora de uma primeira lista, elaborada no ano passado – na qual foi incluído o barco a vela, para desespero de Amorim – e enfrenta grande resistência dos Estados Unidos e da União Européia. Um preocupado em defender seu etanol de milho e o outro com o impacto no preço dos alimentos.
AMORIM COMPAROU OS RICOS AOS NAZISTAS E SE RETRATOU