O reservatório do Sistema Cantareira, que abastece quase dez milhões de pessoas na região Metropolitana de São Paulo, acendeu o sinal amarelo: está operando com 19% da capacidade. O risco de um racionamento em São Paulo levou a presidente da Sabesp, Dilma Pena, a lançar uma campanha para redução de 20% no consumo de água, em troca de um desconto de 30% na conta. Apesar do incentivo, não se sabe se a redução no consumo será suficiente para evitar um racionamento. Para Gesner Oliveira, ex-presidente da Sabesp entre 2007 e 2010, e diretor da consultoria GO Associados, um racionamento pode ser evitado. ?É possível administrar a dificuldade atual sem o racionamento?, diz Oliveira. 

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Gesner Oliveira comandou a Sabesp entre 2007 e 2010

 

DINHEIRO ? Há risco real de um racionamento de água?

 

GESNER OLIVEIRA ? Acho que dá para administrar a situação. A julgar pela experiência de 2004, esse sistema de bônus deverá ter um feito de redução razoável na demanda, algo que pode eliminar a necessidade de um racionamento. É possível administrar a dificuldade atual sem o racionamento. O que se espera é uma queda na temperatura que, consequentemente, reduz a demanda por água. Isso, somado à redução do consumo, pode ser suficiente para não haver racionamento. Embora isso não exclua ações locais em uma ou outra cidade da região metropolitana de fazer o racionamento. 

 

DINHEIRO ? Como o desconto de 30% na conta de água vai impactar o caixa da Sabesp?

 

OLIVEIRA ? Com o aumento da temperatura, houve um crescimento do consumo de água e, consequentemente, isso aumentou a receita da companhia. Eu suspeito que o efeito do aumento da temperatura tenha sido muito bom para o caixa. Os reservatórios estão baixos porque o consumo foi bom. E se o consumo foi bom, a receita para a companhia cresceu. De certa forma, a empresa usa essa receita para bancar o bônus que agora ela está dando para os clientes que consumirem 20% a menos.

 

DINHEIRO ? Essa conta fecha?

 

OLIVEIRA ? Não tenho os valores do quanto isso representa para dizer se a companhia terá ou não algum prejuízo.

 

DINHEIRO ? Um possível racionamento pode afetar a decisão dos empresários de investir?

 

OLIVEIRA ? Sempre que há essas situações de restrições de oferta, tem impacto em redução de investimento. Porém, isso deve ser visto como um problema temporário, embora as empresas precisem trabalhar com muito planejamento nesta área. Os empresários têm de se preparar e entender que a água é um recurso escasso. As indústrias agrointensivas, como papel e celulose, mineração e siderúrgicas, podem escolher a água de reuso, o que reduz o impacto da falta de água nos reservatórios. 

 

DINHEIRO ? O senhor pode citar exemplos de países que fazem um bom uso da água?

 

OLIVEIRA ? A água é um bem escasso e ela vai acabar. Japão, Israel, Austrália e Canadá são países que fazem bem o reuso de água. Em Tóquio, por exemplo, a perda de água é inferior a 1%. O Brasil tem de aprender com esses países.  

 

DINHEIRO ? Qual é o principal desafio neste momento?

 

OLIVEIRA ? O desafio é ter uma oferta maior para a região metropolitana de São Paulo. Dividir as ações de curto prazo e as de médio prazo. No curto prazo, diante de um regime de chuva fraco combinado ao aumento da demanda por água por causa do calor. Temos de ter uma resposta rápida. A Sabesp procurou dar essa resposta com o bônus, que é um estímulo financeiro para quem poupar água. Porém, mais importante ainda, são as ações de médio prazo, que são ligadas ao Programa de Uso Racional da Água (Pura). Quando o Pura é introduzido em escolas, hospitais e universidades, por exemplo, a redução do consumo é muito grande. É possível diminuir entre 50% e 60% o consumo da água sem afetar a qualidade de vida das pessoas. 


DINHEIRO ? O desperdício de água é um grande problema? 

 

OLIVEIRA ? Um dos problemas é o desperdício. No Brasil se perde muita água durante o transporte ou em vazamentos, por exemplo. Em média, se perde 40% da água. O segundo aspecto é a necessidade de reutilizar a água. Como eu já mencionei, as indústrias de mineração, papel e celulose e siderúrgicas podem usar essa água, que tem um grau de exigência de tratamento químico menor do que a água que o ser humano utiliza.  As indústrias usam, mas ainda é muito pouco. No Brasil, menos de 1% é água de reuso. Em Israel esse número chega a 80%.