A diferença era clara. Enquanto um transpirava otimismo, o outro aparentava comedimento. Do lado norte-americano, George W. Bush prometia corte nos subsídios agrícolas e pedia ?flexibilidade? ao Brasil. O presidente Lula, por sua vez, se mostrava reticente. Foi assim a reunião de 45 minutos, no começo da noite da segunda-feira 24, em Nova York, quando os dois finalmente se sentaram para tentar destravar a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio. Mas, no mundo da diplomacia, tudo indica que Doha continuará como está. Ou seja, travada.

Bush prometeu reduzir as benesses que concede a agricultores em US$ 16 bilhões, mas não exibiu uma proposta formal. A simples sinalização americana deu a Lula o mote para um discurso otimista ? e pouco realista. ?Estou convencido de que neste ano poderemos fechar o acordo, para felicidade de todos nós?, disse o presidente. Só que, a depender do humor do governo da Índia, que considerou a oferta americana baixa, o jogo pode atrasar ainda mais. ?Com o que os Estados Unidos colocaram na mesa, ainda não há acordo?, admitiu à DINHEIRO Crawford Falconer, mediador das negociações agrícolas na OMC.

Isso ficou claro no dia seguinte. Na terça-feira 25, o chanceler Celso Amorim saiu do encontro com a secretária de Comércio Susan Schwab sem qualquer vislumbre de acordo. ?Conversamos, mas não negociamos?, desabafou Amorim. Nos bastidores, DINHEIRO apurou que nem o valor anunciado pelos Estados Unidos foi mantido, nem o Brasil aceitou os termos de redução do teto das tarifas de importação para produtos industriais, dos atuais 35% para 12%. No setor agrícola, os americanos têm um teto de US$ 48 bilhões anuais, mas, no ano passado, só gastaram US$ 9 bilhões. Isso ocorreu porque a alta das commodities agrícolas fez com que os produtores americanos não precisassem recorrer tanto à ajuda governamental. O G-20 propôs um corte de 75% no teto, chegando a US$ 12,5 bilhões, e o governo Bush rebateu com uma redução de 53%, para US$ 22,5 bilhões. O corte proposto agora pelos negociadores americanos ficou no meio termo: entre 66% e 73%, para um total entre US$ 13 bilhões e US$ 16 bilhões.

O problema é que o valor une vários tipos de subsídios. O setor agrícola brasileiro luta para convencer o governo americano a incluir na proposta a ser levada à OMC um teto para cada produto. ?Eles deram US$ 3,6 bilhões para a soja em 2000. Há informações de que poderiam sugerir um teto de US$ 2,5 bilhões, valor acima da média de subsídios para o setor, que é de US$ 1 bilhão?, analisa André Nassar, do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais.

AJUDA OFICIAL
US$ 48 BILHÕES é o teto dos subsídios que os americanos podem dar aos agricultores

Há ainda outra dificuldade. Hoje, o sucesso nas negociações para Doha depende mais do Congresso americano do que de Bush. Dominado por uma maioria protecionista, o Capitólio tem as três mais importantes comissões ? e por onde um futuro acordo comercial precisará passar ? presididas por democratas. Para piorar o clima interno, Bush não conta mais com o fast track, o mecanismo que concedia à Casa Branca autorização automática para fechar qualquer acordo que envolvesse trocas comerciais. Além disso, os democratas querem colocar em votação uma nova lei agrícola, com mais repasses à compra de alimentos. Com isso, o total do apoio do governo americano ao seu setor agrícola pode somar até US$ 296 bilhões. ?Tudo isso é encenação?, avalia Pedro Camargo Neto, especialista em negociações agrícolas. ?Há muito mais dinheiro em jogo.?