Experimente perguntar ao bem humorado ministro da Fazenda, Pedro Malan, se ele está otimista ou pessimista sobre o desempenho da economia brasileira em 2002. Facilmente ele poderia escolher a primeira alternativa, à luz da queda na taxa de câmbio, do reaquecimento econômico verificado neste mês de dezembro ou do saldo de US$ 1,7 bilhão na balança comercial. Mas Malan é um homem sofisticado, que recusa respostas simplistas. ?Detesto as palavras pessimismo e otimismo. O mundo real é bem mais complexo?, iniciou ele no final da tarde da quinta-feira 6, recostado numa poltrona de couro marrom em seu gabinete em Brasília, cachimbo envolvido na mão esquerda. ?Prefiro encarar o futuro com uma confiança cuidadosa, básica?. É isso: entre sorrisos e frases de bom humor, Malan não perde a fleuma e revela que não está preocupado em vender ilusões de crescimento.

Nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO, ele preferiu lançar ênfases em garantir que a taxa da inflação do próximo ano ficará abaixo dos 7% previstos para 2001 e dentro da meta de 3,5% com variação de dois pontos porcentuais estabelecida para o próximo ano.

Nesta hora, ignora os críticos, como o ex-ministro Luís Carlos Mendonça de Barros, em cujas contas somente os aumentos previstos para a energia elétrica no próximo ano irão consumir metade da meta inflacionária. Para ficar dentro dela, argumenta Mendonça de Barros, o Brasil teria de ter um comportamento de padrões suíços. Com a solidez de ministro da Fazenda mais longevo da história do País em períodos democráticos, Malan não se abala. ?Seguramente, a inflação do próximo ano será menor do que a de 2001, não tenho a menor dúvida disso.?

O ministro se junta aos analistas que prevêem um crescimento de 2% para a economia e lembrou que essa taxa, em comparação à de países como os Estados Unidos e o Japão, que deverão patinar entre + 1% e -1%, respectivamente, não pode ser desprezada. Mas quanto aos juros, apesar de dizer que no médio prazo a trajetória nas taxas brasileiras será declinante, em nenhum momento o ministro quis falar em números concretos. ?Não gosto de especular sobre a decisão da próxima reunião do Copom?, desviou.

Na vida real. Sereno, Malan reconhece
que comanda a economia brasileira em meio aos ?riscos, incertezas e instabilidades da vida real do século 21?. A travessia dessas dificuldades será feita com maior ou menor grau de sucesso, segundo ele, de acordo com o empenho doméstico na superação dos problemas e o novo desenho do
cenário internacional, após um ano
marcado por várias surpresas e choques.
Ele está certo de que a economia dos Estados Unidos começara a se recuperar já em 2002, mas não aposta em qual será o mês, e menos ainda na intensidade da retomada do crescimento. Enquanto isso não acontece, o ministro demonstra que o melhor que tem a fazer no próximo ano é garantir a estabilidade da moeda brasileira e preservar o poder aquisitivo da população.

?Aquilo era irreal?. No campo das realizações macroeconômicas, Malan está plenamente satisfeito. Encara a taxa de câmbio como o sinal mais claro de que falava a verdade quando, no pico da desvalorização do real ? e ele lembra que foi em 21 de setembro que o dólar bateu em R$ 2,84 ?, dizia que aquilo era irreal. Igualmente se orgulha da maneira como o País vai sendo visto pelo mercado internacional, com a taxa de risco-país descolada da Argentina em crise, e da rapidez com que o FMI concedeu ao Brasil um empréstimo de US$ 14 bilhões. Uma segurança refletida na maneira com que ele encara o árido dia-a-dia de Brasília. Na quinta-feira da entrevista a seguir, Malan teve um dia longo e estafante. Pela manhã, e durante mais de quatro horas seguidas, ele foi alvo de inquirições na CPI do Proer, o que o levou a chegar uma hora atrasado a um almoço com o presidente Fernando Henrique. Participou, mais tarde, da missa de sétimo dia de seu amigo pessoal Vilmar Farias e só encerrou sua jornada, perto das onze da noite, após uma reunião em seu gabinete em Brasília com o presidente da Caixa Econômica Federal. Nesse périplo, ele foi paciente com deputados do PT, divertiu-se com o presidente, homenageou o amigo morto e não perdeu a concentração diante dos auxiliares. Malan está sólido como sempre esteve, e sabe que, em 2002, mesmo sem a possibilidade de ser candidato a presidente da República, à medida em que não se filiou a nenhum partido político, terá o papel de principal avalista do maior eleitor do projeto do PSDB de continuidade no poder. O presidente Fernando Henrique depende da ortodoxia de Malan e sua fixação em manter a inflação controlada para divulgar suas realizações. O paradoxal é que o mais provável beneficiário do sucesso
dessa dupla poderá ser o ministro da Saúde, José Serra. Ele é quem tem mais chances de ser o candidato do PSDB à sucessão presidencial. No início do primeiro governo de FHC, Serra, então ministro do Planejamento, trombou com Malan e saiu temporariamente do governo, Agora, nas voltas que o mundo dá, é Malan que estará a sustentá-lo nos bastidores da economia. Neste ponto, quando questionado sobre se a decisão de não assinar a ficha do PSDB, que lhe foi oferecida pelo próprio Fernando Henrique, foi correta, Malan escolhe uma frase enigmática: ?Só o tempo dirá?. A seguir, a entrevista.

?Vamos crescer sem inflação?

DINHEIRO ? O que o sr. enxerga em 2002?
PEDRO MALAN ?
Olho o futuro com uma confiança cuidadosa, mas básica, a médio e longo prazo. Não só em 2002, mas também nos próximos anos. O Brasil mudou, e para melhor, nos campos econômico, financeiro e social. É preciso ver isso como um processo que se desdobra no tempo. Nunca se chegará o momento em que poderemos dizer que o País resolveu todos os seus problemas, porque eles se colocam e se recolocam permanentemente, de forma diversa.

DINHEIRO ? A meta de 3,5% para a inflação do próximo ano não é muito radical?
MALAN ?
Eu acho que a inflação do próximo será, seguramente, menor do que a desse ano. E é bastante plausível e razoável imaginá-la dentro da meta de 3,5% mais 2% de variação. Este ano, vamos ficar acima da meta, que era de 4% mais 2%, porque o Banco Central julgou, a meu ver corretamente, que a economia foi submetida a uma série de choques e que seria melhor haver uma acomodação e aceitar uma taxa de inflação que ficou um pouco acima da meta.

DINHEIRO ? E os juros, eles podem cair sem afetar o cumprimento da meta?
MALAN ?
Não quero especular sobre a próxima reunião do Copom, mas não tenho dúvida de que a trajetória dos juros, olhando para uma perspectiva de médio prazo, é declinante. A velocidade da queda vai depender de vários fatores.

DINHEIRO ? Por exemplo?
MALAN ?
É importante verificar como ficará o cenário internacional e termos a resposta sobre quando terá lugar a recuperação da economia norte-americana, e com que intensidade isso vai se dar. Eu acho que a economia americana vai se recuperar em algum momento de 2002, mas é difícil dizer exatamente o mês em que isso vai acontecer. Acho também que na economia européia não tem nada de fundamentalmente errado. O Japão é outro problema, mas é uma economia tão rica que pode se permitir tomar esse tempo todo, uma década, para equacionar esses problemas.

DINHEIRO ? A que conclusão o sr. chega sobre o crescimento
do Brasil?
MALAN ?
Eu acho que nós temos condições de crescer no ano que vem a uma taxa maior do que a deste ano. A maioria dos analistas fala em 2%, um pouco mais. Para o contexto que estamos vivendo, essa taxa não é desprezível. No Japão vai ser menos 1%. Na Europa, 1%, 1,5%. Nos Estados Unidos a mesma coisa.

DINHEIRO ? Quais são suas contas sobre investimento externo na economia brasileira?
MALAN ?
Nós vamos fechar 2001 com alguma coisa entre US$ 19 bilhões e US$ 20 bilhões de investimento direto estrangeiro no Brasil. Até setembro, por exemplo, nós tivemos um déficit de conta corrente no balanço de pagamento de US$ 17,4 bilhões e o investimento direto foi US$ 17,1. Isso quer dizer que 97% do déficit foi financiado com entrada de investimento direto e empréstimos entre companhias. Podemos manter essa relação no próximo ano.

DINHEIRO ? O sr. está satisfeito com os números das exportações?
MALAN ?
Muito satisfeito. As exportações brasileiras cresceram nos primeiros dez meses deste ano 7,3%, o que é duas ou três vezes a taxa de crescimento das exportações mundiais. Em volume, cresceram 9,8%. Isso se reflete num superávit na balança comercial de US$ 1,7 bilhão. Para o próximo ano, a maioria dos analistas independentes projeta algo da ordem de pelo menos US$ 5 bilhões de superávit comercial.

DINHEIRO ? O sr. acredita nessas projeções?
MALAN ?
Acho que é um número plausível, sempre dependendo do contexto internacional. O déficit em conta corrente no ano que vem deve ficar em torno de US$ 20 bilhões. É preciso lembrar que ele era de US$ 33,6 bilhões em 1998. Vai cair mais de US$ 13 bilhões nesse período. A necessidade de financiamento externo do Brasil no ano que vem será quase US$ 9 bilhões inferior à necessidade de 2001. Para o ano que vem, teremos um déficit de US$ 20 bilhões e amortizações de cerca de US$ 20 bilhões também.

DINHEIRO ? O sr. se sente vitorioso ao ver o dólar abaixo
de R$ 2,50?
MALAN ?
A taxa de câmbio é uma indicação importante a respeito dos fundamentos da economia brasileira. No dia 21 setembro, o câmbio chegou a R$ 2,84 e agora está em R$ 2,42, dentro da linha do que eu dizia. Eu sabia que não eram razoáveis as expectativas que estavam se formando, de permanente depreciação da moeda brasileira. As pessoas estavam fazendo hedge com o câmbio a R$ 2,82. Eu dizia, ?olha, o sistema é de taxas flutuantes, que significa que ele deprecia, mas também aprecia?. Os fundamentos da economia brasileira na área fiscal e monetária, a solidez do sistema financeiro e apoio internacional que o Brasil tem ? eu notei que, quando decidimos ir ao Fundo, e conseguimos US$ 15,7 bilhões, fizemos isso numa negociação que começou numa terça-feira e foi anunciada na sexta-feira seguinte ? nos davam aquela segurança.

DINHEIRO ? Por que ir ao Fundo é um bom sinal de solidez
na economia?
MALAN ?
O ano de 2001 foi muito complexo, com muitos choques. Vivemos a economia do século 21 e num período especialmente cheio de incertezas e instabilidades. Tudo isso nos afeta, assim como ao resto do mundo. A velocidade daquela negociação foi um reconhecimento do que o Brasil fez. Nós sacamos US$ 4,7 bilhões, mas ainda temos US$ 11 bilhões à nossa disposição para serem utilizados, se julgarmos necessário, ao longo dos próximos 12 meses.

DINHEIRO ? Quer dizer que estamos seguros?
MALAN ?
Estamos bem. Eu diria que a nossa experiência aqui no Brasil, e a de outros países, mostra que a superação das dificuldades depende da combinação de duas coisas. Primeiro, da ação doméstica. Ou bem o País é capaz de mostrar que está a fim de superar suas dificuldades ou, então, não são conselhos provenientes do exterior que resolvem isso. Mas é muito importante verificar a forma como se coloca o apoio internacional a esses esforços domésticos. Em alguns casos, palavras ajudam, em outros é preciso recursos também. E ao Brasil tudo isso nunca faltou.

DINHEIRO ? Quer dizer que o sr. está otimista?
MALAN ?
Eu detesto o uso das palavras otimista e pessimista. Acho que o mundo real é muito mais complexo do que isso. Nós temos inúmeros problemas pela frente. Na área social, obviamente, na político-institucional e na econômico-financeira, mas o Brasil está mudando para melhor.

DINHEIRO ? Dá para dizer que estamos definitivamente fora das turbulências da crise da Argentina?
MALAN ?
Eu não iria tão longe, mas certamente em relação à situação que prevalecia alguns meses atrás, estamos numa posição bem melhor. Basta olhar a evolução do risco soberano da Argentina e do Brasil. Os dois subiam e desciam juntos. Mas agora o gráfico do risco Argentina chegou a 4 mil pontos e o nosso baixou. Isso mostra que está havendo uma diferenciação importante. Conforme a situação lá foi ficando mais grave, o nosso câmbio foi se apreciando e o nosso risco caindo. Mas não pode derivar para nós nenhum conforto saber que o nosso risco é de quase 900 pontos, uma marca muito alta.

DINHEIRO ? O sr., ao impor uma linha conservadora no debate econômico, parece ter conseguido organizar a discussão nesse início de período eleitoral. Até o PT toma cuidados ao falar sobre mudanças. O sr. concorda com esta avaliação?
MALAN ?
Concordo, só não sei se a minha linha é conservadora. Posso estar errado, mas eu acho que a maioria da população brasileira quer que qualquer governo que venha a nos suceder mantenha a inflação sob controle, para preservar o poder aquisitivo do seu salário. Se a esquerda acha que vai ganhar, isso é importante, mas se pensa em ficar permanentemente na oposição, é irrelevante.