03/12/2008 - 8:00
US$ 800 milhões é a estimativa das perdas de produtos no porto de Itajaí. Cerca de 1,2 mil contêineres estão debaixo d’água
R$ 100 milhões é o prejuízo do setor cerâmico com o rompimento do gasoduto que fornece 80% da energia
AO SOBREVOAR NA QUARta- feira 26 as regiões de Santa Catarina mais atingidas pelas chuvas, o presidente Lula presenciou durante quase 30 minutos, através da porta de um helicóptero da Força Aérea, a maior tragédia climática desde que chegou ao poder, em 2003, e uma das maiores catástrofes já registradas no País. “É uma das piores coisas que já vi”, resumiu Lula, pouco antes de anunciar um socorro de R$ 1,6 bilhão às áreas mais destruídas. O cenário era realmente desesperador. Relembrava a destruição provocada pelo furacão Katrina, na cidade americana de Nova Orleans, há três anos. Mas, desta vez, as vítimas da convulsão climática são os catarinenses. Até o fim da tarde da quinta-feira 27, importantes cidades do Estado ainda estavam completamente inundadas. Lojas e supermercados estavam sendo saqueados pela população. Faltavam comida e água potável. Em algumas áreas, famílias inteiras ficaram sem água e sem comida por cinco dias. As chuvas também danificaram a infra-estrutura. Muitas estradas que cortam o Estado, entre elas a BR-101, desmoronaram – e as que continuavam inteiras estavam fechadas por razões de segurança. O porto de Itajaí, principal porta comercial da região Sul, que movimenta US$ 10 bilhões ao ano, foi engolido pelas águas. Parte do cais desmoronou. Os prejuízos estão estimados em US$ 30 milhões/dia e a recuperação levará até seis meses. Para piorar, o aeroporto de Navegantes, a poucos quilômetros dali, estava fechado para vôos comerciais. Somente equipes de resgate e cargas de suprimentos podiam pousar.
Os estragos econômicos são proporcionais ao caos social. Grandes empresas da região, como Sadia, Seara, Perdigão e Diplomata, perderam carregamentos de alimentos na enchente e terão de buscar alternativas para garantir o abastecimento do Estado até que o estrago seja reparado. No mesmo dia em que Lula assistia ao dilúvio, o rio Itajaí-Açu – que transbordou e causou as enchentes no Vale do Itajaí – estava 12 metros acima do nível normal. Uma autêntica tragédia. O custo da reconstrução ainda não está fechado, mas deve superar 10% do PIB do Estado, de R$ 93,2 bilhões, segundo estimativa do governo catarinense. A tragédia econômica torna-se pequena apenas diante das mais de 100 mortes causadas por desmoronamentos, número que pode crescer nos próximos dias.
Enquanto o País se mobiliza para ajudar os catarinenses, o dinheiro começa a chegar. A MP assinada por Lula destinará R$ 720 milhões para defesa civil, R$ 350 milhões para recuperação de portos, R$ 280 milhões para reconstrução de estradas, R$ 150 milhões para ações das Forças Armadas e R$ 100 milhões para ações de saúde (todo o valor para Santa Catarina), inclusive reconstrução de postos de atendimento e substituição de equipamentos hospitalares. Além disso, será feito um aporte de R$ 370 milhões para o governo de Santa Catarina, por meio de títulos públicos. “O presidente Lula determinou à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e aos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Paulo Bernardo, que assegurem todos os recursos necessários para confortar a população catarinense neste momento sofrido”, disse o porta-voz da presidência, Marcelo Baumbach.
Os recursos serão essenciais. Nenhum setor produtivo saiu ileso da tragédia. A situação é ruim para todas as empresas catarinenses – as que não estão debaixo d’água não têm para quem vender ou como entregar. O cenário é ainda pior para o setor cerâmico, um dos pilares da economia local. Além de sofrer com as enchentes, as empresas fabricantes de pisos e azulejos foram obrigadas a paralisar a produção por falta de energia. O rompimento do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), que fornece 80% do combustível consumido pelos fornos, e a queda de uma torre de transmissão de eletricidade fizeram com que as fábricas fechassem as portas por tempo indeterminado. A reconstrução dos trechos danificados levará três semanas, segundo a Petrobras. Esse acidente também afeta o abastecimento das indústrias do Rio Grande do Sul. O Sindicato dos Ceramistas de Santa Catarina (Sindiceram) convocou na quarta-feira 26 uma reunião de emergência com o sindicato que representa os 5,7 mil trabalhadores para antecipar as férias coletivas. “O nosso prejuízo é de R$ 4,9 milhões por dia de fábrica parada. Se o gás for realmente restabelecido em três semanas, nossa perda passará de R$ 100 milhões”, diz o diretor industrial da Cerâmicas Eliane e presidente do Sindiceram, Otmar Josef Müller. Em setembro, o faturamento do setor cerâmico catarinense foi de R$ 120,3 milhões. O diretor de relações industriais da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Henry Quaresma, afirma que o colapso logístico do Estado, mesmo com a ajuda dos recursos federais, ainda causará perdas às empresas. “Muitos setores serão prejudicados por fatores que vão além das enchentes. A situação é muito grave. Sem energia, tudo pára. Sem estradas, portos e aeroportos, nada entra nem sai. Equipamentos serão perdidos e o futuro de algumas empresas será comprometido pela tragédia”, afirma Quaresma.
O empresário Alexandre Schaefer, diretor da Komport, maior importadora de Santa Catarina e umas das principais distribuidoras do País, endossa a declaração do diretor da Fiesc. As chuvas que castigaram o Estado causaram um prejuízo de US$ 12 milhões aos cofres da empresa, um rombo que representa 25% da receita esperada para o último trimestre do ano, a melhor época em faturamento em razão do aumento das vendas no comércio. Quase 150 caminhões utilizados para entrega dos produtos estão estacionados. E as perdas serão ainda maiores. Mercadorias que deveriam hoje estar nas vitrines dos shoppings e nas gôndolas dos supermercados de Santa Catarina estão paradas – e submersas – no porto de Itajaí. Equipamentos eletrônicos, alimentos, materiais escolares e centenas de outros produtos que aguardavam liberação da Receita Federal irão para o lixo. A administração do porto estima que mais de US$ 800 milhões em artigos importados foram por água abaixo. “É uma catástrofe. Não sei o que vai ser deste fim de ano. Não temos portos. Nenhum navio chega ou sai. As estradas estão destruídas e o comércio está fechado. Nada poderia ser pior”, desabafa Schaefer. Na agricultura, os estragos também são incalculáveis. Plantações inteiras estão submersas. Para evitar uma catástrofe agrícola ainda maior, o Banco do Brasil disponibilizou R$ 100 milhões para contratação de linha de crédito para reconstrução e reformas em propriedades rurais alagadas. Outros R$ 150 milhões serão liberados para financiar o replantio de lavouras e mais R$ 50 milhões ajudarão pequenos produtores a manter em dia empréstimos com o BNDES. “Enquanto a água não baixar, não saberemos o tamanho do prejuízo”, completa Schaefer.
A ENCHENTE QUE INSPIROU UMA FESTA
Mais do que a ajuda federal de quase R$ 2 bilhões, a reconstrução do Estado dependerá principalmente da determinação do povo catarinense. É o que diz a história. No início da década de 80, duas grandes enchentes arrasaram o Vale do Itajaí. Em 1981, o rio Itajaí-Açu chegou a subir 13 metros além do nível normal, semelhante à cheia atual. Dois anos depois, um novo dilúvio destruiu plantações e deixou Blumenau – cidade mais atingida nos últimos dias, onde 20 pessoas morreram e 95% da cidade está sem luz e água – completamente submersa. Bairros inteiros foram engolidos pela lama e dezenas de galpões industriais viraram pilhas de tijolos. Essa enchente de 1983 deu origem à Oktoberfest, principal vitrine cultural do município. A festa típica alemã, regada a muita cerveja, músicas e danças, ajudou a cidade a se reerguer economicamente e a se recuperar dos estragos que a chuva causou. Já no primeiro ano do evento, a Oktoberfest atraiu grandes investimentos e milhares de turistas. O que era para ser temporário virou cartão-postal da cidade. A edição deste ano movimentou R$ 2 bilhões e recebeu cerca de 300 mil turistas. A Oktoberfest já é apontada pela Embratur como uma das três maiores festas brasileiras, considerada pela população local como uma espécie de Carnaval do Sul. Passados 25 anos, a tragédia se repete. Mas, pelo retrospecto, logo as cidades do Vale do Itajaí voltarão ao noticiário nacional pelas festas e pelo exemplo de superação.