Paris ainda vivia os primeiros dias do outono em 2001, quando o telefone de José Carlos Grubisich tocou em seu escritório na capital francesa. Do outro lado da linha estava Guilherme Dale, sócio da consultoria Spencer Stuart. Dale informava que os os grupos brasileiros Odebrecht e Mariani haviam acabado de colocar um ponto final no maior imbróglio da petroquímica brasileira, o leilão da Copene, ao pagar R$ 785 milhões pelos ativos e que gostariam de ter Grubisich, o então vice-presidente global da multinacional francesa Rhodia, no comando. Inicialmente, o executivo disse não. Novo convite foi feito dias depois e Grubisich veio ao País. Ouviu a proposta da boca do próprio Emílio Odebrecht num fim de semana e entusiasmou-se. Passou a mão no telefone e ligou para Paris. ?Querida, nós vamos voltar?, disse para Kátia, sua mulher. Pronto. Estava dado o pontapé inicial de um dos mais ousados projetos desse setor por aqui, a Braskem, como foi batizada a empresa que promoveria a integração de uma central petroquímica a produtoras de resinas plásticas (comuns em pára-choques de automóveis, copos plásticos, roupas, calçados e em outros segmentos da indústria). Era um modelo inédito de operação no País e Grubisich teria de transformá-lo em realidade.

Hoje, confortavelmente instalado na sala da presidência da Braskem, em um prédio de escritórios na zona oeste de São Paulo, Grubisich exibe satisfeito os números de 2004: lucro líquido de R$ 691 milhões, geração de caixa de R$ 2,6 bilhões, faturamento de R$ 14,3 bilhões e dívida de R$ 3,9 bilhões. A relação atual entre dívida líquida e geração de caixa é de uma vez e meia, considerada excelente pelo mercado. Mas nem sempre foi esse mar de rosas. Basta dar uma espiada no primeiro balanço da Braskem. Quando a empresa surgiu em 16 de agosto de 2002, relação entre dívida líquida e geração de caixa era de sete vezes, o prejuízo somava R$ 794 milhões, 70% dos seus débitos estavam atrelados ao dólar, a receita era de R$ 8,8 bilhões e o valor de mercado aproximava-se de US$ 250 milhões. Hoje, a empresa vale US$ 4,6 bilhões na bolsa.

Para se livrar dos maus resultados do primeiro ano de Braskem, o executivo sabia que era preciso renegociar os débitos, aproveitar ao máximo o crescimento do mercado interno, ampliar exportações e alinhar os preços praticados no Brasil aos valores internacionais da resina plástica, que estavam subindo. Enquanto bolava a engenharia financeira e as operações que tirariam a Braskem do vermelho, Grubisich ainda enfrentava a desconfiança do mercado. Poucos acreditavam no novo modelo de negócio, aquele da integração de uma central petroquímica a produtoras de resinas plásticas. O conceito era muito difundido na Ásia e nos Estados Unidos, mas havia quem duvidasse de seu sucesso no País. E o temor ganhou ainda mais espaço, quando o presidente da Braskem anunciou que esperava economizar R$ 330 milhões em três anos. Aposta das mais arriscadas, porque o mundo ameaçava despencar sobre sua cabeça: o dólar disparava e o petróleo ameaçava bater os US$ 50. Mesmo assim deu certo e em apenas dois anos e meio a Braskem ressurgiu.

?O bom resultado de 2004 não chegou a ser uma surpresa, mas o mercado esperava um desempenho mais modesto. O que chama atenção é o excelente casamento entre a Braskem e o estilo de administração do Grubisich. Ele soube focar em negócios rentáveis?, atesta Lucas Brendler, analista da Geração Futuro Corretora.

Grubisich sabe que o grupo está num momento especial e que reúne condições de participar de iniciativas decisivas para a sua consolidação como a maior empresa do setor na América Latina. Não à toa está envolvida em um projeto de US$ 200 milhões em Paulínia (SP), onde erguerá uma operação de polipropileno em parceria com a Petrobras. E discute com a espanhola Repsol e a Petrobras a implantação de um pólo gás-químico na fronteira com a Bolívia. Custo: US$ 800 milhões. ?Sempre dá para melhorar uma atividade?, diz o otimista Grubisich. Dá para entender por que Emílio Odebrecht foi buscá-lo em Paris?

R$ 691 milhões foi o lucro líquido da companhia em 2004