Está cada vez mais ampla a zona de sombra que envolve o apoio do BNDES ao grupo Ultra no leilão pelo controle da Copene, a central de matérias-primas do Pólo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. Questionado por deputados na quarta-feira, 27, o presidente do banco, Francisco Gros, admitiu que em pelo menos um ponto os termos do protocolo de intenções para a formação de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) foram alterados. Com vantagem para o Ultra. O grupo do empresário Paulo Cunha teve ampliado para cinco anos, em lugar dos quatro acordados inicialmente, o prazo para pagar o empréstimo com o qual pretende fazer seu lance no leilão. A informação foi dada por Gros a seis deputados durante reunião de duas horas na sede do banco em Brasília. Ele decidiu receber os parlamentares quando soube que fora convidado a comparecer à sala da Comissão de Fiscalização e Controle, na Câmara, para ser ouvido sobre o assunto. Naquele mesmo dia, o deputado João Almeida (PSDB-BA) aprovou requerimento de convite a Gros em razão da reportagem ?Esquemão BNDES?, publicada na última edição da DINHEIRO, com informações sobre os termos do apoio. ?Existe uma sociedade secreta entre o BNDES e o Ultra?, disse Almeida depois da reunião com Gros. ?A melhor posição para o banco é ficar fora desse negócio e deixar que os grupos rivais participem do leilão com suas próprias forças.? Além do Ultra, os grupos Odebrecht e Mariani manifestaram intenção de participar da terceira tentativa de venda da Copene. Nas duas primeiras vezes, mesmo sem ter concorrentes, o Ultra não fez nenhum lance pela aquisição.

Nos termos da futura SPE do BNDES com o Ultra, o grupo tem prazo de 360 dias a partir da batida do martelo para comprar ações em quantidade suficiente para ter maioria nas 13 empresas ligadas diretamente à Copene. No caso do consórcio Odebrecht/Mariani, há uma solução de mercado, pois o pacote de financiamento parte de um pool de bancos estrangeiros liderados pelo Salomon Brothers. De acordo com relato dos deputados, Gros teria dito que ?cada um analisa seus clientes por critérios próprios?. Ele ainda negou que o apoio do banco ao Ultra atinja, em todas as suas etapas, R$ 1,37 bilhão, volume de recursos maior que o preço mínimo estabelecido para o controle da Copene, de R$ 1,36 bilhão. Sustentou que o apoio, formalizado em termos de empréstimo e participação no capital, será de cerca de R$ 900 milhões. Não apresentou, porém, nenhuma folha do protocolo da SPE. Os deputados saíram insatisfeitos. O convite para Gros comparecer à Comissão de Fiscalização e Controle ficou de pé.