O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem usado proeminentes palcos diplomáticos internacionais, como a Assembleia Geral da ONU em Nova York, para moldar a narrativa de sua campanha à reeleição. Ele descreve o pleito como uma batalha crucial contra forças antidemocráticas e potenciais interferências estrangeiras, sublinhando que o resultado transcende as fronteiras do Brasil e carrega implicações globais.

O que aconteceu

  • A eleição brasileira de Lula (PT) à reeleição é vista internacionalmente como um ponto de virada contra a ascensão da direita na América Latina.
  • Lula (PT) enfrenta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), retratando-o como representante de um movimento de direita mais amplo, alinhado a líderes como Javier Milei e Donald Trump.
  • Observadores internacionais e aliados do presidente expressam preocupação com a polarização política e possíveis interferências externas no pleito.

Em discurso na Assembleia Geral da ONU em Nova York este mês, Lula afirmou que “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, uma frase que reverberou nas redes sociais pela América Latina. Para o presidente, o pleito é uma luta maior contra ameaças à democracia.

Após uma onda de vitórias eleitorais da direita em anos recentes na América Latina, impulsionada pelo possível retorno de um governo Trump nos Estados Unidos, muitos progressistas veem a candidatura de Lula (PT) à reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um divisor de águas que pode reverter a tendência conservadora na região.

Ao longo da campanha, Lula (PT) tem tentado ligar o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a um movimento de direita mais amplo, compartilhando imagens que associam o senador a figuras como o presidente da Argentina, Javier Milei; ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu; e ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump.

Milei e Netanyahu, inclusive, participaram do lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com o argentino presente pessoalmente e o israelense enviando uma mensagem por vídeo.

Por que a eleição brasileira importa para o mundo?

“Existe uma percepção entre observadores internacionais de que o Brasil não está simplesmente elegendo um presidente. Dada a influência do país, ele está ajudando a determinar qual campo político emergirá mais forte na próxima fase de uma luta global entre a democracia e o autoritarismo”, analisou Paulo Abrão, diretor-executivo do centro de estudos Washington Brazil Office.

O interesse internacional ficou evidente durante a visita de Lula (PT) a Nova York, onde se encontrou com expoentes democratas como o prefeito Zohran Mamdani e o senador Bernie Sanders.

No entanto, Lula (PT) entra na reta final da campanha em empate técnico com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que concorre no lugar de seu pai, preso após liderar a fracassada tentativa de golpe em janeiro de 2023 e perder a eleição para Lula (PT) em 2022.

Apesar de resultados positivos como o aumento da renda da população e o quase pleno emprego, o terceiro governo Lula (PT) ainda enfrenta o aumento do custo de vida, que afeta sua aprovação, e não superou a polarização que assola o país há quase uma década.

É justamente essa polarização que atrai os olhos internacionais para o Brasil. Se vencer as eleições, o presidente será o único a conseguir manter o mandato em meio à onda de direita na América Latina.

Uma fonte próxima a Lula (PT), que o acompanhou a Nova York, relatou que diversos líderes mundiais expressaram à delegação brasileira sua preocupação com as eleições e com o futuro do país.

“Nesta eleição, Lula (PT) assumiu uma importância que transcende seu próprio campo político”, destacou Abrão, completando que o pleito “teria consequências para o equilíbrio entre as forças democratas e a extrema-direita transnacional”.

O retorno de Lula ao cenário político

“Enquanto eu estiver vivo”, foi a frase repetida por Lula (PT) em discursos e entrevistas, em referência ao seu compromisso de impedir o retorno da extrema-direita ao poder no país.

O retorno de Lula (PT) ao poder em 2023 coroou uma recuperação dramática. O presidente que voltou a Brasília depois de 12 anos era, contudo, diferente do que havia deixado o cargo em 2010, com 87% de aprovação. O otimismo que levou o PT ao poder em 2002 havia se transformado em rancor contra o partido e contra o próprio presidente.

Em 2016, Lula (PT) tornou-se alvo principal da Operação Lava Jato, que começou investigando escândalos da Petrobras e se expandiu. Concomitantemente, o Brasil mergulhava em turbulência política com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Lula (PT) passou 580 dias na prisão antes de sua condenação ser anulada por falhas nas investigações e nos processos judiciais.

A prisão o impediu de concorrer contra Jair Bolsonaro (PL) em 2018, quando o ex-capitão do Exército ascendeu ao poder prometendo desfazer grande parte das conquistas progressistas desde o fim do regime militar na década de 1980.

Ainda assim, Lula (PT) permaneceu um símbolo para grande parte da esquerda global. Durante sua prisão em Curitiba, o país presenciou uma romaria de líderes de esquerda, sindicalistas mundiais e figuras como o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica e o filósofo Noam Chomsky.

Ao reassumir o Palácio do Planalto em janeiro de 2023, Lula (PT) estava convicto de que o Brasil estava na linha de frente de uma luta mais ampla contra um movimento global de extrema-direita.

Os ataques de apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) às sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, poucos dias após a posse de Lula (PT), apenas reforçaram essa crença para muitos.

Interesses regionais e o papel do Brasil

Embora Lula (PT) tenha fortalecido laços com a China, revitalizado a liderança do Brasil no bloco BRICS e ampliado o engajamento com a Europa, as recentes vitórias da direita na América do Sul e uma relação conflituosa com o governo Trump o colocaram como um dos últimos bastiões de esquerda na região e, para o governo norte-americano, um nome a ser batido.

Diplomatas brasileiros indicam que Washington vê o Brasil como o último grande obstáculo para uma onda de governos alinhados a Donald Trump nos EUA na América Latina, após vitórias recentes no Chile, Colômbia, Honduras e Peru, e uma expansão do poder dos EUA na Venezuela após a intervenção militar que retirou o presidente Nicolás Maduro.

Em Washington, progressistas veem Lula (PT) como um “farol de esperança”, de acordo com Alex Main, do Centro de Pesquisa Econômica e Política, um centro de estudos de esquerda.

Na Argentina, os opositores do presidente libertário Javier Milei encaram a possível reeleição de Lula (PT) como um potencial impulso para suas próprias eleições do próximo ano.

“Se Lula vencer, isso criará uma contracorrente ao que vem se consolidando na região e mostrará que há resistência a esses ventos de direita”, afirmou Santiago Cafiero, deputado e ex-ministro das Relações Exteriores argentino.

Diplomatas de governos liberais da Europa e de outras regiões também acompanham de perto os movimentos no Brasil.

Há temores de interferência nas eleições?

A resistência do Brasil a Trump e suas tarifas parece ter beneficiado Lula (PT) entre alguns eleitores, elevando seus índices de aprovação, enquanto progressistas zombavam de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), chamando-o de “Tariflávio”, em referência à recente visita do senador aos EUA para conquistar o apoio do presidente norte-americano.

Até o momento, apesar de ter recebido Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ter se deixado fotografar com o candidato de oposição, Donald Trump não fez declarações públicas de apoio ao filho de Jair Bolsonaro (PL), de quem se dizia aliado.

Contudo, nas últimas semanas, aliados de Lula (PT) expressaram preocupação de que o governo Trump possa se recusar a reconhecer os resultados das eleições caso ele vença, argumentando que tentativas de interferência já estariam em andamento.

Eles apontam para as declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio (Republicano-Flórida), que culpou Lula (PT) pelo fracasso das negociações comerciais que levaram ao aumento das tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, e para a tentativa frustrada de enviar autoridades dos EUA ao Brasil em uma missão para “discutir a integridade eleitoral”, conforme o Departamento de Estado dos EUA.

Antes das eleições de 2022, o então presidente dos EUA, Joe Biden (Democrata), enviou o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA) para alertar o então presidente Jair Bolsonaro (PL) a não interferir nas eleições, segundo fontes da Reuters na época, e garantiu que os EUA estivessem entre os primeiros países a reconhecer o resultado.

Na semana passada, 31 democratas no Congresso norte-americano, incluindo a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (Democrata-Nova York), instaram Marco Rubio (Republicano-Flórida) a respeitar o resultado das eleições brasileiras.

Em uma carta, eles expressaram “grave preocupação” com uma “campanha sustentada e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil”.

O Departamento de Estado não respondeu a um pedido de comentário, mas já negou acusações anteriores do governo Lula (PT) de interferência eleitoral.

(Reportagem de Lisandra Paraguassu e Brendan O”Boyle, em Brasília; Reportagem adicional de Lucila Sigal, em Buenos Aires)

Leia mais