O Grupo Pão de Açúcar (GPA) incluiu em seu balanço do quarto trimestre um alerta sobre “incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”. A informação consta de uma nota explicativa da companhia, revisada pela Deloitte, sobre as demonstrações financeiras do GPA, referentes ao exercício encerrado em 31 de dezembro de 2025, divulgadas na noite de terça-feira, 24. As ações da companhia tiveram queda de 2,24% no pregão desta quarta-feira, 25 – no começo do dia, os papéis chegaram a cair 8%.

Em teleconferência nesta quarta, o presidente do grupo, Alexandre Santoro, afirmou que “uma companhia com a operação, a marca e a posição de mercado que o GPA possui não pode permanecer anos sem gerar caixa”.

No quarto trimestre do ano passado, o GPA registrou um prejuízo líquido consolidado de R$ 572 milhões, redução de 48,2% em relação ao prejuízo de R$ 1,1 bilhão apurado em igual período de 2024. Segundo a auditoria, ao fim de 2025, o GPA apresentava déficit de capital circulante líquido de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, decorrente principalmente de empréstimos e debêntures com vencimento em 2026 no montante de R$ 1,7 bilhão.

“Apesar de melhora nos principais indicadores operacionais, bem como geração positiva recorrente de caixa operacional, a companhia continua apurando prejuízo no período”, informou a Deloitte no balanço da companhia.

De acordo com o presidente do GPA, “algo em torno de 20% a 25% das lojas têm performance aquém do que tinham no business plan ou do que imaginamos que seja o potencial”. Ele afirmou que o porcentual pode ser um pouco maior no formato de proximidade – como o Pão de Açúcar Minuto – e menor nas bandeiras Pão de Açúcar e Extra.

Santoro assumiu o cargo em 5 de janeiro, após a renúncia de Marcelo Pimentel, em outubro do ano passado. No período de vacância, o vice-presidente financeiro, Rafael Russowsky, ficou na presidência do GPA. Ele deixou a companhia em janeiro.

No ano passado, a companhia passou a ter novos controladores, com a chegada da família Coelho Diniz, que detém um rede de supermercados com forte presença em Minas Gerais. Os Coelho Diniz detêm 24,6% de participação no GPA e André Coelho Diniz preside o conselho de administração desde outubro de 2025.

Iniciativas

Em seu balanço, a administração do GPA afirma que adota iniciativas que incluem negociações para alongamento de prazos das dívidas financeiras, redução do custo financeiro e de despesas e monetização de créditos tributários.

Embora a auditoria tenha apontado incerteza relevante sobre a continuidade operacional, as demonstrações financeiras foram preparadas assumindo que o GPA continuará funcionando operando normalmente. Assim, não foram realizados ajustes nos ativos ou nas dívidas para refletir um eventual cenário de deterioração financeira.

Ajustes

O presidente do GPA afirmou que a prioridade no momento é realizar ajustes em lojas que são deficitárias com a revisão da estrutura de custos. Em alguns casos, a companhia tem identificado contratos considerados excessivos. “Temos situações em que o aluguel da loja é absolutamente desproporcional”, disse Santoro.

De acordo com ele, a primeira alternativa é buscar renegociação com proprietários. “Em caso de insucesso, em alguns casos, podemos tomar a decisão de fechar.”

Santoro afirmou ainda que há contratos atualmente “desconectados do tamanho e da realidade da empresa”, indicando necessidade de revisão de compromissos.

O executivo ressaltou, contudo, que o encerramento de lojas não é a estratégia central no momento. “O fechamento de lojas deveria ser realmente o último recurso”, afirmou aos acionistas, acrescentando que não há previsão de redução substancial da rede no curto prazo.

Santoro também disse que a companhia reavalia sua presença geográfica e pretende concentrar investimentos e esforços em regiões consideradas prioritárias, como São Paulo, Rio e Distrito Federal, dentro da estratégia de fortalecer a rentabilidade da operação existente.

O executivo também reconheceu a existência de passivos estruturais, incluindo fiscais e trabalhistas, e afirmou que o alongamento das dívidas faz parte da agenda da administração. “Estamos plenamente conscientes da importância desse tema e seguimos conduzindo essa frente com diálogo com os credores.”

Avaliações

Para o Banco Safra, o GPA apresentou resultados operacionais como o esperado no quarto trimestre do ano passado, mas manteve a queima de caixa como principal ponto de atenção. A instituição lembra que, nos últimos 12 meses, o consumo líquido atingiu R$ 786 milhões ao se desconsiderar o efeito positivo de R$ 93 milhões provenientes do recente aumento de capital e da venda de ativos.

“Apesar da melhoria na margem bruta, consideramos o resultado negativo, visto que a empresa reportou mais um trimestre de consumo de caixa e apresentou uma estrutura de capital desequilibrada”, disseram os analistas Vitor Pini, Renan Sartório e Tales Granello. O Safra tem preço-alvo para as ações do GPA de R$ 4, o que representa um potencial de valorização de 28%, no comparativo com o fechamento de terça-feira.

O Itaú BBA avaliou que o balanço do GPA reforçou a “resiliência” operacional da companhia em um ambiente ainda desafiador para o consumo, mas destacou que a alavancagem elevada e o peso das despesas financeiras continuam limitando a melhora do resultado final.

Com isso, o banco reiterou recomendação neutra para as ações do GPA, com preço-alvo de R$ 4, o que representa um potencial de valorização de 27,7% frente o fechamento desta terça, 24. (COLABOROU ANA PAULA MACHADO)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.