“São condições de acolhida desumanas!”, protesta uma voluntária farta da situação sanitária deplorável em um centro de refugiados de Berlim.

“Há crianças com sarna que não recebem nenhum tratamento médico e continuam interagindo com os demais”, conta à AFP esta mulher, que prefere manter-se anônima.

“Não há chuveiros, temos que levar os refugiados até uma piscina para que possam se lavar. E os banheiros químicos estão do lado de fora, apesar do frio”, explica a berlinesa que há seis meses dedica aos migrantes algumas de suas horas livres.

O antigo aeroporto de Tempelhof se transformou rapidamente em um centro de refugiados imenso. Antes do natal, 4.500 sírios, afegãos e de outras nacionalidades que pedem asilo no país viverão amontoados nestas instalações de 100 metros de largura e 20 de altura.

Estão alojados em edifícios concebidos para estacionar aviões e não para receber pessoas que fogem da guerra e da miséria. Dormem 15 em cada tenda, em beliches.

Os migrantes sofrem uma epidemia de diarreia, mas só podem tomar banho a cada quatro dias, segundo o organismo público “Conselho para os refugiados”. Já foram registradas discussões que exigiram intervenção policial.

Desde o começo do ano, cerca de 70 mil refugiados chegaram a Berlim, mas muitos foram enviados a outras regiões do país alemão, que no total provavelmente irá superar o número de um milhão de migrantes até o final do mês.

Em virtude de uma partilha nacional estabelecida em função da população, Berlim só gerencia 5% dos migrantes registrados, contra mais de 21% de Renânia do Norte-Vestfália e 15% de Baviera.

No entanto, há seis meses o caos impera ante a administração encarregada pelo registro daqueles que solicitam refúgio, o Lageso (Departamento Estadual de Saúde e Assuntos Sociais). Os refugiados que viveram uma odisseia pela Europa para chegar ali têm que esperar dias, às vezes semanas, em frente ao edifício para obter um documento de pedido de asilo e benefícios sociais.

O dirigente do Lageso, Franz Allert, viu-se obrigado a pedir demissão na quarta-feira por pressões do prefeito, Michael Muller, que reprovou sua gestão desastrosa.

A vice-presidente da Bundestag (Parlamento alemão) e deputada dos Verdes, Claudia Roth, afirma que a situação é “aterrorizante, não é digna de uma sociedade democrática em um Estado de direito”.

Em carta aberta dirigida ao prefeito de Berlim, a responsável política pediu por iniciativas para que os migrantes deixem de esperar “horas ou dias, às vezes na lama, debaixo de chuva ou dilúvio”.

No edifício, os funcionários estão sobrecarregados devido às horas extras, os reforços e as tentativas de reorganização da acolhida em outro prédio.

“Os documentos que não foram tratados se acumulam em grandes envelopes dos Correios e em grandes envelopes amarelos amontoados em vários escritórios”, descreve um funcionário do Lageso à rádio local RBB.

“Não há um sistema de classificação. Há companheiros que chamamos de ‘investigadores’ que têm que encontrar os registros que precisamos”, explicou.

A cada dia, 500 migrantes são convocados para às 9H00 da manhã, apesar de todos saberem que somente 200 registros podem ser feitos, criticou outra funcionária. “Mas nos dizem que são as ordens e que devemos cumpri-las.”

Em outubro, ante o Lageso, um homossexual sequestrou um menino bósnio de quatro anos aproveitando, segundo parecia, o caos que reinava. Logo depois o violou e o matou.

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