As galerias chegam a ter 66 metros de altura, o equivalente a um edifício de 20 andares. O vento frio e úmido se mistura à água pastosa e esbranquiçada que cobre o chão. Nesse ambiente hostil, onde cada nível descoberto é talhado por explosões de dinamite, cerca de 500 homens se revezam em três turnos e operam mais de 50 tratores, perfuradeiras e caminhões. São mais de 900 metros de exploração abaixo da terra. Em muitos trechos, as pepitas douradas são visíveis a olho nu. Estamos dentro da mina de ouro mais moderna do planeta, a Cuiabá, a apenas 15 quilômetros de Belo Horizonte. É de dentro desse formigueiro gigante que a AngloGold, multinacional sul-africana que carrega o título de ser a maior mineradora de ouro do planeta, extrai 8% de seu faturamento mundial. São quase 7 toneladas por ano do metal, que rendem à empresa cerca de US$ 50 milhões. Das 20 minas espalhadas por todo o mundo, Cuiabá é disparada a mais lucrativa. Nem tanto pela quantidade de ouro que se tira de lá ? a de TauTona, na África do Sul, gera US$ 107 milhões por ano ?, mas sim pela relação custo-benefício da operação. Por conta da alta tecnologia empregada no processo, Cuiabá gera uma onça de ouro (32 gramas) a um custo 65% menor do que TauTona. ?Temos um complexo tupiniquim de achar que o mundo todo está à nossa frente?, afirma Roberto Carvalho Silva, presidente da AngloGold para a América Latina. ?Nesse ramo, o Brasil é o melhor.?

 

Maior mineradora do mundo em extração de diamantes, níquel e cobre, a AngloGold vinha sendo até agora uma empresa discreta e de poucos clientes. Jamais fez publicidade ou precisou de ações de marketing. Trabalha-
va essencialmente com bancos de bullion, que negociam diretamente em Nova York e Londres a cotação do metal. No Brasil, por exemplo, têm somente seis clientes. Agora, a companhia está disposta a trocar os subterrâneos pelo mundo fashion das jóias. Para isso, aposta agora suas fichas ? e muito dinheiro ? na revitalização do ouro como negócio. O primeiro lance é até modesto: com US$ 500 mil, a AngloGold patrocina um concurso para novos designers de jóias. O modelo foi copiado da matriz sul-africana, que há seis anos realiza o Riches of Africa. Em outubro, as 30 peças escolhidas irão formar o catálogo da empresa, a ser divulgado em todo o mundo. ?Queremos revitalizar o fascínio que a humanidade sempre teve pelo ouro?, explica Carvalho Silva.

Há algo sombrio por trás da iniciativa da AngloGold. No mercado de ativos financeiros, há 20 anos o ouro vem tendo sucessivas quedas de cotação. Já chegou a US$ 32 o grama, mas encontra-se há cinco anos patinando entre US$ 10 e US$ 13 o grama. ?Não se pode mais dizer que o ouro seja um investimento real?, diz o economista William Eid, da Fundação Getúlio Vargas. ?Existem ativos mais fáceis e seguros de transportar que tomaram o seu lugar.? A queda no preço afetou também a fabricação de jóias. A produção caiu 54% nos últimos sete anos, chegando a 18 toneladas no ano passado. O recuo consumista afeta diretamente o mercado da mineradora ? mais de 70% do produto são comprados por joalherias. Para piorar, cada vez mais outros atrativos provocam brilho nos olhos das mulheres, principais consumidoras. ?Hoje é mais comum vermos uma menina de 15 anos pedir uma bolsa de grife que uma jóia?, aponta o historiador Arley Andriolo, da Universidade de São Paulo.

O motivo está estampado no balanço das empresas. Enquanto marcas de produtos de luxo, como Prada e Gucci, têm gasto entre 6% e 8% de suas vendas com campanhas publicitárias, as companhias de jóias gastam entre 1,5% e 3%. Em todo o mundo, a AngloGold está investindo US$ 16 milhões em ações estratégicas de marketing. ?Queremos conquistar corações e mentes?, costuma afirmar o empresário. Não é só isso que eles pretendem. Carvalho Silva não gosta de se estender no assunto, mas a iniciativa é só a ponta do iceberg. A idéia é criar um braço joalheiro para a AngloGold e entrar de vez na briga pelo mercado de jóias. Para o Brasil, a meta é trazer as ações da empresa que são negociadas em bolsas na Europa e Estados Unidos. ?Pensamos não só em ações, mas em fundos de pensão?, diz o presidente da AngloGold. ?Pretendemos mostrar nosso interesse no Brasil?