15/05/2002 - 7:00
Na mesma semana em que várias duchas de água fria marcaram o ambiente empresarial, a nata do pensamento econômico brasileiro reuniu-se no Rio de Janeiro num evento que buscou reencontrar o caminho do desenvolvimento. Eis os fatos que vieram a público nos últimos dias: de um lado, o IBGE revelou queda na produção industrial e aumento na concentração de renda; de outro, o mercado financeiro viveu dias agitados com a alta do dólar e a disparada do risco Brasil. Ficou claro que o País está diante de uma encruzilhada e que 2002 corre o risco de se perder como mais um entre muitos anos desperdiçados. Seguindo a maré de pessimismo, grandes bancos, como o Boston e o BBV, já mudaram seus cenários e projetam que, na melhor das hipóteses, a economia crescerá 2% este ano. ?Estamos devagar, quase parando?, afirma Salomão Quadros, responsável pela sondagem conjuntural da Fundação Getúlio Vargas. Foi sob esse clima que transcorreu o mais tradicional encontro de acadêmicos, tecnocratas e economistas do País: o Fórum Nacional, promovido todos os anos pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso. Entre um debate e outro nos salões nobres do BNDES, na Avenida Chile, centro do Rio de Janeiro, a pergunta que mais se ouvia era: por que o Brasil, que no passado não muito distante parecia ter a vocação do crescimento, não consegue mais fazer o motor pegar e segue patinando?
Depois de três dias de debates, recheados de economês e palavrões como ?adensamento das cadeias produtivas? e ?estrategização das empresas?, chegou-se a um novo consenso. A receita para o desenvolvimento sustentável agora parece ser a redução brutal do déficit externo ? o vilão que mantém os juros altos e inibe o crescimento. Para os economistas que participaram do Fórum, o Brasil terá que promover um redirecionamento na política econômica e voltar a produzir mega-superávits comerciais, próximos a
US$ 10 bilhões por ano, no melhor estilo do ex-ministro Delfim Netto. Feito o diagnóstico, como chegar lá? ?A única forma de atingir esse objetivo é agregar valor e aumentar o conteúdo tecnológico das exportações brasileiras?, diz Reis Velloso. Em outras palavras, com uma pauta ainda muito centrada em produtos básicos, como aço e bens agroindustriais, dificilmente as exportações irão decolar ? a estimativa de muitos bancos aponta uma queda de até 6%
em 2002. ?O Brasil tem que estar mais presente nos setores dinâmicos do comércio internacional, como a eletrônica e a biotecnologia?, avalia Velloso.
A agenda do Fórum ? O Brasil e a economia do conhecimento ? buscou justamente encontrar receitas para esse salto exportador na área tecnológica. Os caminhos nem sempre se cruzavam. De um lado, Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, propunha uma radicalização da abertura, que levasse o Brasil a exportar mais, sem deixar de ampliar significativamente as importações, a exemplo do que aconteceu com o México e a Coréia do Sul. ?É preciso abrir mais o País para reduzir a dependência externa?, defende Pastore. Outros, como Luciano Coutinho, da Unicamp, argumentavam em favor de uma estratégia mais agressiva de política industrial, com subsídios e incentivos fiscais, para substituir importações na área eletrônica. ?Não há outra forma de atrair investimentos nessa área?, avalia Coutinho. É a mesma tese do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Benjamin Sicsú. Ele esteve no Fórum e anunciou que o governo pretende oferecer um pacote de incentivos para atrair um fabricante de semicondutores para a tevê digital, num investimento de US$ 300 milhões.
Com o governo cada vez mais próximo de teses que antes considerava retrógradas, o encontro serviu para cunhar o consenso desenvolvimentista. Mas o XIV Fórum Nacional também teve seus momentos de monotonia. Como num velho filme em preto e branco, lá estava o ministro Pedro Malan novamente a cobrar da oposição um compromisso com a estabilidade, a política de câmbio flutuante e as metas de inflação. Se era isso que ele pretendia ouvir, o compromisso veio do coordenador do programa econômico do PT. ?Somos a favor do câmbio flutuante e nossas administrações municipais e estaduais são aquelas com maior responsabilidade fiscal?, retrucou o deputado Aloizio Mercadante. Para Reis Velloso, ficou claro que, com a oposição ou não, estará assegurada a manutenção desses princípios.