24/10/2007 - 8:00
Está em curso uma mudança de paradigma na economia global. Pela primeira vez, os países emergentes querem ditar a agenda internacional em temas que vão desde o comércio até a reestruturação de organismos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional. Ao ser eleito para comandar o FMI, o francês Dominique Strauss- Kahn teve de fechar questão com os emergentes que pedem reformas na estrutura da instituição. Sua movimentação, porém, despertou uma contra- ofensiva dos países ricos. Preocupados com o avanço dos Sovereign Wealth Funds ? fundos dos emergentes que contam com reservas de US$ 3,4 trilhões ? Estados Unidos, França e Alemanha conseguiram pôr a discussão na pauta da reunião anual do FMI, que ocorre em Washington (leia reportagem à página 72). Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, o presidente Lula posava para uma foto ao lado do sul-africano Thabo Mbeki e do indiano Manmohan Singh, em Pretória. De mãos dadas, os três chefes de governo lançaram o embrião do que pode vir a ser a maior área de livre comércio do mundo, numa possível associação entre os países, que criaria um mercado consumidor de 1,5 bilhão de pessoas. ?Será o grande espaço econômico do Sul?, disse Lula. Hoje, o comércio trilateral já chega perto da casa dos US$ 10 bilhões e poderia crescer exponencialmente, com a eliminação de tarifas.
COMÉRCIO SUL-SUL: bloco comercial criará um mercado de 1,5 bilhão de consumidores
Apesar de ainda não ser o exemplo mais vultoso da arrancada emergente, o FMI tem se mostrado uma possível vitrine de um mundo mais equilibrado.
Dominique Strauss-Kahn foi claro. ?Precisamos ouvir mais?, clamou o novo diretor-geral. DSK encontrou em Paulo Nogueira Batista, representante brasileiro no Fundo, uma voz afinada com suas idéias. ?O FMI precisa criar instrumentos de análise e persuasão, e não dos atuais modelos de pressão?, diz Nogueira Batista. Mas é justamente esse encontro de pensamentos reformistas que tem levado os países ricos a uma tentativa de barrar o avanço emergente. Inclusive no mercado financeiro. De 1990 para cá, os Sovereign Wealth Funds saltaram de US$ 500 bilhões para US$ 3,4 trilhões.
US$ 10 bilhões é volume atual da corrente comercial entre Brasil, Índia e África do Sul
Os interesses estendem-se, principalmente, a setores estratégicos como petróleo, gás e infra-estrutura. Não é de espantar, portanto, que o FMI seja palco de um pedido de análise sobre esses fundos, mas o novo chefe do Fundo parece ser um aliado. ?Existe um consenso no círculo de DSK de que as reservas podem induzir o crescimento?, analisa Jeffrey Garten, da Universidade de Yale. É por esta visão que começa a ganhar forma a idéia do Brasil entrar no grupo. Integrantes da equipe econômica discutem, em sigilo, a criação de um fundo com parte dos US$ 162 bilhões em reservas para investir em infra-estrutura na América do Sul. O que não se sabe é como transferir os recursos para o Tesouro, pois isso contraria a Lei de Responsabilidade Fiscal. DINHEIRO apurou que o assunto chegou a ser comentado na visita de Lula à África do Sul. A Índia já possui um fundo nesses moldes e ofereceu ajuda na composição formal de um modelo que, possivelmente, possa utilizar recursos dos três países. ?É apenas uma idéia que foi aventada?, disse um embaixador presente ao encontro. ?Ainda estamos discutindo a viabilidade de um bloco. Um fundo conjunto é um passo gigantesco.? Um passo na medida do avanço dos emergentes.