19/07/2000 - 7:00
Os chilenos costumam dizer que Pedro Ibañez Santa Maria só é um empresário porque, a exemplo de seus pares, ?no le gustan los impuestos? (ele não gosta de impostos). No mais, aos 56 anos, Don Pedro, como é conhecido no país, não guarda os traços típicos dos homens de negócio tradicionais. Em algum momento da década de 80, herdeiro de um império empresarial centenário, ele passou a se dedicar quase que exclusivamente a negócios com os quais tivesse afinidade pessoal. Hoje a holding Corpora reúne sete grandes empresas que juntas faturam mais de US$ 500 milhões e empregam 3 mil pessoas. Don Pedro é chamado de ?el empresario del placer? (o empresário do prazer). Os colaboradores mais próximos, cuja admiração pelo chefe se confunde com bajulação, dizem que é possível sentar-se à mesa com Don Pedro mesmo sem conhecê-lo pessoalmente. Basta degustar o salmão, acompanhado dos vinhos Gracía, saborear frutas na sobremesa e sorver um café Tres Montes, tudo fabricado em suas empresas.
Mas a parte mais visível e charmosa do império são os dois hotéis Explora, embriões de uma rede que terá outras quatro unidades nos próximos cinco anos. São instalações sofisticadas plantadas em regiões inóspitas de inesquecível beleza natural. O primeiro, erguido em 1992 ao custo de US$ 9 milhões, tem seu endereço na Patagônia, no Parque Nacional Torres de Paine, um dos pontos mais frios do planeta. As amplas janelas de seus 30 apartamentos emolduram o Lago Pehoe em toda sua extensão e, ao fundo, as duas torres sempre cobertas de neve.
O segundo hotel, inaugurado há cerca de dois anos, consumiu US$ 15 milhões e está localizado no Deserto de Atacama, uma vastidão de planícies limitadas por formações rochosas exuberantes. A falta de chuva, os ventos e altitude superior a 2.400 metros tornam o lugar mais seco do mundo. A aldeia San Pedro de Atacama, onde Don Pedro ergueu o hotel, é também um importante sítio arqueológico e, por isso, houve uma grande resistência diante da chegada do Explora. Uma a uma, todas foram superadas. Às vésperas do início da construção, porém, surgiu uma nova questão: havia um antigo cemitério inca justamente naquele terreno. Mais um ano de pesquisas realizadas por uma equipe de arqueólogos revelaram que um corpo sequer fora enterrado ali. Em paz com os vivos e com os mortos, Don Pedro construiu o hotel.
A idéia de investir em turismo remoto, como ele batizou esse modelo de hotelaria, surgiu há mais de 10 anos durante suas férias. Em companhia de amigos, Don Pedro percorria longos trajetos, a pé, de bicicleta ou a cavalo ? sempre em lugares afastados e com infra-estrutura reduzida ou inexistente. ?Quem determinou que esse tipo de turismo signifique noites mal dormidas e desconforto? Por que o prazer de conviver com a natureza não pode estar associado a outros prazeres, como uma boa comida, um bom vinho e uma cama espaçosa??, perguntava ele.
Localizados nos extremos opostos do Chile, os dois hotéis têm conceitos semelhantes. Não televisões e aparelhos de som nos quartos. A decoração é ao mesmo tempo despojada e sofisticada. As paredes são cobertas por madeira marfim e o chão revestido com ardósia. Há espaços sociais, onde os hóspedes podem se reunir próximos a diversas lareiras. Os detalhes dos dois empreendimentos revelam muito da personalidade e características de seu criador. A presença de sopas e cremes como entradas das refeições é fruto do gosto pessoal de Don Pedro, assim como a ausência de molhos nos pratos principais.
Os longos passeios pelas duas regiões também nasceram de sua experiência pessoal. São mais de 30 diferentes roteiros em Atacama e na Patagônia. Todos feitos a pé ou a cavalo, como é do gosto de Don Pedro. Mesmo os preços foram estabelecidos de acordo com seu padrão de vida: o pacote de uma semana para um casal pode custar 4 mil dólares. A transformação de Don Pedro em ?empresario del placer? teve início na década de 80. Na ocasião, adquiriu ações em poder de sócios e de seus próprios irmãos e tornou-se o herdeiro único das empresas criadas por seu avô no final do século passado. A partir daí, saneou os negócios, vendeu companhias deficitárias e investiu no setor alimentício, com forte vocação para a globalização. Hoje sua atuação estende-se por mais de 30 países. E os hotéis encaixam-se nesse conceito? Sim, segundo ele. Os estrangeiros são a grande maioria dos hóspedes.