27/08/2008 - 7:00
FORAM QUASE DUAS SEMANAS DE TRABALHO intenso na ausência do presidente Lula. Ainda assim, a agenda exaustiva de José Alencar não foi capaz de abatê-lo. Pelo gabinete da Presidência interina passaram parlamentares, empresários e diplomatas. E o interlocutor, invariavelmente, mostrou-se firme. Na sexta-feira 22, o vice-presidente foi internado mais uma vez. Depois de lutar por 11 anos contra o câncer, passar por seis cirurgias e dividir a semana entre o gabinete e o quarto de hospital, Alencar estava novamente no Sírio-Libanês, em São Paulo, para a segunda sessão de quimioterapia desde que um novo tumor no abdome foi diagnosticado, há exatamente um mês. O tratamento agora foge ao padrão. Nem o tumor nem o organismo de Alencar respondem mais aos medicamentos regulares. Partiu dele a decisão de se submeter a um remédio experimental, o Yondelis, à base da substância trabectina. Segundo oncologistas consultados por DINHEIRO, ele só é aprovado na Europa, mas é uma esperança no combate às células cancerígenas quando todas as outras alternativas falharam. O enjôo, o cansaço e a inapetência passaram ao largo. Alencar continua firme e forte em sua luta contra o câncer. Sua justificativa recorrente no enfrentamento da doença tem inspiração clássica. “Ele perguntou: ‘O que é a morte?’ Ninguém respondeu. ‘É para o bem ou para o mal?’ Ninguém respondeu. Ele disse: ‘Assim como vocês, eu também não sei o que é a morte, então, não tenho medo dela, eu tenho medo da desonra'”, costuma dizer o vice, citando o filósofo grego Sócrates.
Dono da Coteminas, uma das principais empresas têxteis do País, Alencar mostra uma garra rara para continuar à frente do trabalho. Mas ele não é o primeiro empresário a enfrentar de peito aberto um câncer. No Brasil, um dos primeiros a assumir a doença foi Eggon João da Silva. Fundador da WEG, uma das maiores fabricantes de motores do País, Eggon descobriu que estava com câncer na próstata num exame de rotina, em 1994. Assustado com a notícia, de início decidiu esconder o resultado da família e da empresa. Queria ter certeza de que era um tumor localizado e que não havia possibilidade de metástase. Tranqüilizado pelos médicos, Eggon só comunicou a doença quando já estava com a cirurgia marcada. “Não podia expor todos ao meu redor a uma notícia dessas sem ter conhecimento da extensão do problema”, disse à DINHEIRO. A decisão de se afastar da presidência da empresa já tinha sido tomada. E Eggon confiava que seu filho, Décio, estava pronto para assumir o comando da WEG. Dois anos depois de descobrir o câncer, Eggon foi para o conselho da empresa e passou a agir como uma espécie de consultor estratégico. Nada que o empresário não tire de letra, afinal já participou de conselhos de empresas como Oxford, Tigre, Marisol e Perdigão, tendo sido presidente da última justamente quando enfrentava o câncer. “Decidi sair quando vi que meu filho estava preparado.”
Para os grandes empresários, acostumados ao luxo e ao sucesso financeiro, admitir um câncer muitas vezes é um trauma. Significa aceitar um problema que nem todo o dinheiro do mundo poderia solucionar. Mas, em muitos casos, a decisão de se manter produtivo e à frente dos negócios tem-se mostrado vital no enfrentamento da doença. Exatamente o que aconteceu com Luiz Antônio Teixeira, presidente da Norcon, uma das maiores construtoras do Nordeste. Aos 62 anos, ele descobriu um tumor na valécula, a base da língua. Assim que soube, procurou a esposa, Maria, e deu a notícia como um general diante dos seus soldados: “Vamos para a guerra contra o danado.” Teixeira fez uma cirurgia para extração do tumor e foi submetido a sessões de radioterapia por três meses. Em momento algum parou de trabalhar. No quarto do hospital, em São Paulo, recebia relatórios diários sobre a empresa. Quando tinha uma folga, voava para Aracaju, em Sergipe, para participar das reuniões. Desde que foi acometido pela doença, Teixeira passou a trabalhar ainda mais. Se quando descobriu o câncer sua construtora faturava pouco mais de R$ 50 milhões, hoje a Norcon registra receitas de R$ 177 milhões. A doença nunca mais se manifestou. “Estou curado, tenho certeza disso”, afirma. Hoje ele participa ativamente do processo de abertura de capital da empresa. Ele só espera o mercado se acalmar, assim como o câncer que um dia o pegou.
OS EXEMPLOS INTERNACIONAIS
Vários empresários bem-sucedidos já trataram de forma pública os seus tumores. E os resultados variaram de acordo com a cultura e a imagem de cada organização
STEVE JOBS:
fundador da Apple teve tumor no pâncreas e sua saúde assusta investidores
CHARLIE BELL:
CEO do McDonald’s teve câncer precoce atribuído à má alimentação >
MICHAEL MILKEN:
filantropia redimiu sua imagem após a descoberta de um câncer na próstata
No caso da empresária Eliana Tranchesi, dona da Daslu, as más notícias vieram em série. Alvo de uma estridente ação da Polícia Federal, ela também foi vitimada por um nódulo no pulmão esquerdo e não escapou da quimioterapia. Mesmo com uma enorme dificuldade para subir escadas e o mal-estar dos efeitos colaterais, ela não quis deixar a empresa. Hoje, curada, diz que é preciso desmistificar a idéia de que câncer mata. “O meu pensamento positivo ajudou no meu tratamento. E não larguei a empresa. Me esforcei para ficar sempre disposta. Hoje estou curada”, disse à DINHEIRO Eliana Tranchesi. De acordo com a psicóloga paulista Cláudia Ferrão, da clínica Athos, que há 15 anos trata pacientes com câncer, manter a qualidade de vida é muito importante. “O paciente deve trabalhar, mas ciente de que ele tem novos limites.”
Internacionalmente, descobertas de câncer também abalam as grandes corporações. E podem ser perigosas quando as empresas são centralizadas e personalistas. É o caso da Apple, de Steve Jobs. Ao aparecer excessivamente magro no lançamento do iPhone 3G, em 9 de junho, ele mandou seus assessores esclarecerem que se tratava apenas de uma gripe forte. Mas as especulações sobre sua saúde cresceram. Isso porque, em 2004, ele se afastou por um mês da empresa para retirar um raro tumor no pâncreas. As ações sentiram. A cirurgia foi o único tratamento. Ciente de que uma notícia de que estaria novamente doente abalaria muito mais os acionistas da empresa do que seu próprio corpo, Jobs passou a considerar uma possível sucessão nos negócios. “Temos ótimas opções de quem escolher como futuro CEO”, disse à revista Fortune.
“Assumi o câncer quando vi que meu filho estava pronto para a sucessão”
EGGON JOÃO DA SILVA, FUNDADOR DA INDÚSTRIA WEG
Houve também casos em que a doença de um CEO afetou os negócios. A morte precoce de Charlie Bell, aos 44 anos, foi explorada pelos detratores do McDonald’s como um sintoma da alimentação de risco. O presidente da rede era capaz de comer hambúrgueres no café da manhã e morreu com câncer no colo-retal. A rede precisou investir bastante para desassociar a marca do junk food e passou a oferecer produtos mais saudáveis. Para o financista Michael Milken, no entanto, a doença chegou como uma forma de redenção. No início dos anos 70, Milken ficou conhecido como o guru de Wall Street por criar os títulos de altíssimo risco, conhecidos como junk bonds. Mas ele acabou sendo preso acusado de adulterar o resultado das cotações. Quando saiu da prisão, Milken foi diagnosticado com câncer na próstata. A doença o ajudou a angariar mais de US$ 75 milhões, que foram investidos em pesquisas contra o câncer. Em 1996, ele fundou a Knowledge Universe, a maior organização do mundo em pesquisa da próstata. E, além da cura, conseguiu de volta a reputação.